Gás do lixo; biometano vira alternativa à dependência do diesel
Biometano: como o gás do lixo pode ser a solução para o Brasil não depender do combustível importado e reduzir drasticamente o volume de emissões
Publicado em 27/09/2026 às 09h00
O Brasil é movido a óleo diesel. O combustível derivado do petróleo está na ponta da cadeia produtiva brasileira. O país depende do óleo para produzir, escolar produção e transporte público. Assim, para fazer o Brasil funcionar é preciso queimar muito diesel. O problema é que o diesel é caro e não conseguimos fabricar tudo o que precisamos consumir. Existe solução? Existe e ela está na lixeira de nossas casas, com o resíduo orgânico que pode ser transformado em biometano.
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Em 2025, o consumo brasileiro de diesel chegou a cerca de 50,5 bilhões de litros. Isso corresponde a uma média superior a 138 milhões de litros por dia. A escala ajuda a dimensionar a importância do combustível para a economia e também o tamanho do mercado que precisa ser abastecido.
O problema é que a produção nacional não cobre toda essa demanda. Segundo a ANP, as importações líquidas de diesel, descontadas as exportações, somaram 16,3 bilhões de litros em 2025, equivalentes a 27,3% da demanda interna. O país, portanto, precisou buscar no exterior mais de um quarto do diesel utilizado no mercado doméstico.

Isso porque o Brasil produz muito petróleo, mas não consegue refinar o suficiente para suprir a demanda doméstica. E a dependência tem efeito econômico porque o combustível importado está sujeito ao preço internacional do petróleo, ao câmbio, ao custo de frete e às condições do mercado internacional de derivados. Em 2025, o diesel respondeu por 61% do valor importado entre os derivados de petróleo, segundo o Banco Central.
Além do impacto financeiro, o país também está à mercê de oscilações de distribuição. As guerras entre Rússia e Ucrânia, assim como Estados Unidos e Israel contra o Irã impactaram diretamente na produção de petróleo, assim como de produtos refinados, como o diesel. E quando há redução de oferta, o preço dispara.
Círculo vicioso do diesel
O reflexo é uma reação em cadeia: é o combustível mais caro na refinaria que encarece na bomba, e que por sua vez, eleva o preço do frete e na ponta oposta o custo é repassado ao consumidor, lá na gôndola do supermercado.
E se não bastasse o impacto financeiro, há um gigantesco impacto ambiental, que fatalmente respinga na economia. Muitos mercados exigem operações que atendam às mais variadas exigências de emissões. E como grande parte do que é feito por aqui depende da fumaça preta do diesel, sempre há o risco de a indústria nacional não ser capaz de atender tais regulamentações.
O diesel é extremamente poluente e sua queima elimina uma grande quantidade de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, dentre outros gases nocivos. E o excesso de dióxido de carbono na atmosfera se traduz em efeito estufa, aquecimento global. Assim, muitos acordos ambientais buscam atingir “no bolso” indústrias e mercados que não adotam soluções energéticas limpas. Mas como sair desse ciclo vicioso?
Solução que vem do lixo

É nesse ponto que o biometano passa a ser mais do que uma alternativa ambiental. E o melhor, o Brasil é um dos países com maior potencial de produção e uso deste gás.
O biometano é produzido a partir da purificação do biogás obtido na decomposição de matéria orgânica. A matéria-prima pode vir de aterros sanitários, resíduos urbanos, dejetos de animais, atividades agropecuárias e resíduos de processos industriais.
Lixo é um grande problema para qualquer cidade, estado ou país. Mas a lógica muda quando o resíduo deixa de ser tratado apenas como um problema de destinação e passa a ser considerado matéria-prima energética. Em vez de depender exclusivamente de uma cadeia baseada na extração, refino, transporte e distribuição de petróleo, parte da energia necessária ao transporte e à produção pode ser obtida localmente em lavouras, fazendas e aterros.
O potencial brasileiro é expressivo. Estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) publicado no âmbito do Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 estima que o aproveitamento de toda a biomassa residual mapeada no país poderia resultar em mais de 170 bilhões de metros cúbicos normais (Nm³) – que é a medida considera o gás em pressão atmosférica estável e temperatura entre 0 e 20°C – de biometano.
Esse número representa um potencial técnico e não uma produção que possa ser colocada imediatamente no mercado. Para chegar ao combustível é necessário coletar o resíduo, transportar a matéria-prima, produzir o biogás, purificá-lo, comprimir ou conectá-lo à infraestrutura existente e criar uma estrutura comercial para distribuição.
Mesmo assim, há um potencial factível de 35 bilhões de Nm³ de biometano em 2035. E esse volume poderia atender cerca de 50% da demanda nacional de diesel no final do período decenal. Ou seja, se não seria suficiente para eliminar o diesel, pelo menos reduziria a necessidade de importação do óleo refinado.

De acordo com o doutor Bruno Baeta, pesquisador da Universidade Federal de Ouro Preto, estuda a transformação de resíduos em biometano há mais de 15 anos e considera que o gás seja uma solução viável para reduzir os impactos ambientais e econômicos do diesel. “Se formos capazes de aproveitar todo resíduo, com base em tudo que se gera de resíduos e capturasse o biogás, teremos uma confortável segurança energética”, explica Baeta, que afirma que o Brasil é uma região privilegiada para produção de biometano, uma vez que conta com uma indústria agropecuária muito forte.
Segundo o pesquisador, o interesse pelo biogás tem evoluído no país, o que tem estimulado investimentos em tecnologia e infraestrutura. “Hoje há um mercado regulamentado e segurança jurídica que estimulam investimentos”, afirma. Empresas como Gasmig e Comgás já desenvolvem uma cadeia de produção e distribuição de biogás.
Mas no que o biogás é melhor que o diesel? Para responder essa pergunta, questionamos o Head da GWM Hydrogen, Davi Lopes, que é PhD em planejamento energético. Ele explica que o combustível é queimado para aproveitar a reação do hidrogênio. A energia térmica da combustão é transformada em energia mecânica (veículos) e elétrica (geradores), por exemplo. Mas a questão é o quanto de carbono é despejado para se ter a reação do hidrogênio.
Quando usávamos carvão, por exemplo, tínhamos uma cadeia carbônica muito grande. Depois, passamos para os combustíveis líquidos, como gasolina e diesel. A gasolina tem uma cadeia de seis a oito carbonos (diesel de 16 a 20), enquanto o etanol tem dois. Com isso, você vai diminuindo a quantidade de carbono e aumentando proporcionalmente a quantidade de hidrogênio. Já o metano, que é o principal componente do gás natural, é CH₄: um carbono e quatro hidrogênios. Portanto, saímos de cadeias com muitos carbonos para uma molécula com apenas um carbono e quatro hidrogênios. O biometano faz muito sentido para a realidade brasileira”, explica.
Mas como levar o biometano para o tanque de combustível?
O processo de produção do biometano consiste basicamente na geração do gás proveniente da ação de bacteriana nos dejetos orgânicos. Os resíduos devem ser depositados num silo de compostagem em que é feito a captura do biogás. Depois de filtrado, ele se transforma em biometano.

Segundo Bruno Baeta, o processo de formação do gás é rápido. “O resíduo que entra no reator, vai demorar 30 dias para produzir gás. Só que esse processo é contínuo, porque entra resíduo todo dia e sai resíduo, o que gera processo perpétuo. Tudo que entra, sai, e o gás que é produzido é estocado e despachado”, explica o pesquisador que também aponta que o resíduo final pode ser utilizado como fertilizante.
Assim, a meta é ampliar a produção nos aterros, mas principalmente no setor agropecuário em que há uma grande produção de resíduos. Seja no bagaço da cana de açúcar, no esterco do gado, o que não falta é matéria-prima. “Um dos gargalos na produção de biometano, nas cidades, é a triagem do material. Se cada um de nós separássemos o lixo orgânico do resíduo industrial, o custo despencaria e a eficácia seria muito maior”, recomenda.
Eficiência do bieometano
O biometano tem praticamente a mesma eficiência energética do gás natural veicular (GNV), que é o metano que é coletado na extração do petróleo. De acordo com a Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), que criou o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano (PNDG), estabelecendo metas progressivas de redução de emissões e obrigatoriedade de inserção do combustível renovável no mercado. Para este ano, a meta é que 0,5% do biometano seja combinado com o GNV.

O programa prevê ampliação gradativa do uso do gás, seja ela misturado nas redes de gasoduto, assim como em pontos de abastecimento onde não há tubulação. Uma das soluções é o chamado gasoduto virtual, em que o gás é pressurizado e transportado de caminhão para da usina para os pontos de distribuição.
Hoje, capitais como São Paulo e Goiânia já contam com veículos que circulam com gás biometano como caminhões e ônibus. Diante deste cenário, fabricantes de motores e veículos já oferecem soluções para uso de biometano em caminhões. A MWM, uma das mais populares fabricantes de motores diesel do mercado, oferece, desde 2019, motores que são abastecidos com biometano, que podem ser aplicados em veículos que foram fabricados com motores a diesel.
O Brasil possui uma vantagem competitiva relevante nesse processo devido à disponibilidade de biocombustíveis e ao potencial de expansão de alternativas como biodiesel, etanol e biometano. No caso do biometano, o país possui um potencial de produção estimado em até 70% do consumo total de diesel, além de possibilitar uma redução significativa nas emissões de CO₂, superior a 90%, dependendo das condições de produção e utilização do combustível”, explica o Gerente de Vendas e Soluções Biocombustíveis da MWM, Thiago Brito.
Autorizada MWM, a Refordiesel, localizada em Contagem (MG), também abraçou o biometano. Segundo Edmar Bergamini, sócio da empresa, que trabalha com motores diesel desde 1979, o gás é uma espécie de “cavalo arriado” que ele não deixou passar.
Além de oferecer assistência de pós-venda para a MWM, Bergamini também passou a desenvolver conversões de motores diesel para biometano. O processo remove bomba (injetora) e bicos injetores e instala velas de ignição, bobinas e o sistema de alimentação do gás. O motor passa a trabalhar com princípio semelhante ao ciclo Otto. “Não há perda de potência e nem torque”, afirma.
Segundo Bergamini, a conversão custa em média R$ 100 mil, dependendo do motor, e pode ser aplicada tanto em motores novos quanto em unidades recondicionadas. “A redução do custo do quilômetro rodado, assim como menor necessidade de manutenção, ajudam a amortizar o investimento. Além disso, a conversão para gás é uma forma de descarbonizar a operação sem a necessidade de comprar um veículo novo”, explica.

Atualmente, gigantes da logística e da indústria estão substituindo a frota tradicional a diesel por caminhões movidos a biometano Empresas como ReiterLog e Mercado Livre, em parceria com grandes embarcadores como Ambev e Natura, lideram a transição no transporte pesado. Transportadoras como a Sada, também já contam com caminhões movidos a GNV, inclusive com base própria de abastecimento.
Veículos movidos a biometano
As possibilidades de aplicação comercial de veículos movidos ao gás do lixo chamou a atenção de gigantes da indústria automotiva. A Toyota apresentou na Agrishow 2025 um protótipo da Hilux movido a biometano, como parte da estratégia da montadora para reduzir emissões por meio de diferentes tecnologias, incluindo híbridos, motores flex e células de hidrogênio. O modelo já havia sido mostrado no G20 Energy Transition Week, em Foz do Iguaçu, mas a feira agrícola marcou sua primeira exposição pública.

Questionamos a Toyota se há novidades do projeto e previsão de lançamento comercial da Hilux movida a biometano e a resposta foi protocolar. Segundo a marca japonesa, o projeto ainda segue em desenvolvimento. Vale lembrar que a marca japonesa foi pioneira no segmento de automóveis híbridos, com o Prius, lançado em 1997. Ela também também conta com modelos elétricos e até mesmo movidos a hidrogênio, como o Mirai, que está em linha desde 2014.
A estratégia adotada pela Toyota segue um entendimento de diferentes atores da indústria e pesquisadores. Todos concordam é que não existe um único caminho ou solução ideal para a descarbonização. O biometano surge como uma solução eficiente para o transporte rodoviário de longas distâncias. Para uso urbano, veículos elétricos já são uma realidade diante dos furgões e VUCs a diesel, assim como soluções para transporte público em que já se utilizam ônibus elétricos em diversas capitais. Etanol e hidrogênio também entram nessa conta em que o objetivo é oferecer múltiplas opções energéticas, e não ser dependente de apenas um único combustível.
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