‘Estragaram o nosso Interlagos!’

Eduardo Pincigher recorda de uma das melhores matérias que produziu ao levar veteranos das pistas para rodar em Interlagos

INTERLAGOS ChatGPT
Encontro de gerações em Interlagos revelou como os carros evoluíram e como a pista perdeu seu charme (Foto: Imagem gerada por inteligência artificial ChatGPT | OpenIA)
Por Eduardo Pincigher
Publicado em 18/04/2026 às 17h00

Quando ingressei na revista Motor Show, publicada pela Editora Três, no ano da graça de 1994, a ideia do Domingo Alzugaray, dono da editora, era surfar a onda dos carros importados que invadiam o mercado brasileiro. Ele chamou um antigo revisteiro, chamado Walter Arruda, para tocar o projeto. E o WA convidou o trio que acabara de sair da Quatro Rodas: Luiz Bartolomais Jr., Douglas Mendonça e eu.

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Ainda que déssemos sabor de graxa ao conteúdo editorial da revista, o Arruda não abria mão de sua ideia original para a publicação, que era criar uma espécie de “revista Caras automotiva”, isto é, você sempre tinha nas avaliações a opinião do jornalista especializado e, além da dele, contava com os palpites de uma celebridade.

Ex-diretor da antiga TV Tupi nos anos 1970, Arruda conhecia todo o casting das emissoras. E foi nesse período que vários artistas passearam pelas páginas da revista participando das produções das reportagens, andando com os carros e dando suas opiniões. Mas cá pra nós, hein? Era forçado demais… E não acrescentava nada, pelo menos para o leitor tradicional de uma publicação especializada em automóveis.

Foi quando criamos uma fase de transição e instituímos a participação de personagens que estivessem ligados ao mundo dos automóveis. Eram pilotos, ex-pilotos, empresários, comerciantes, enfim, gente que sabia a diferença de pneu e carburador e, obviamente, contribuía barbaramente com o conteúdo editorial. A Motor Show rivalizava, à época, com a AutoEsporte pelo posto de segunda revista com a maior circulação do país, o que não era pouco.

Pude conhecer pessoalmente e fazer algumas reportagens com vários pilotos renomados do automobilismo brasileiro. Aqui eu me concedo um aparte, mas que está totalmente relacionado a esse tema e tem um conteúdo interessantíssimo. Entrevistei cerca de dez ou doze pilotos de F1. A todos fiz a mesma pergunta. E, de todos, recebi a mesma resposta: “o que mais te impressionou quando você andou de F1 pela primeira vez?” Ayrton, Nelson, Émerson, Rubinho, Gugelmin, Tarso, Christian, Raul… todos disseram: os freios. Nada é igual a um F1 como a potência do sistema de freios. Os carros de competição não precisam ter a mesma durabilidade do conjunto discos, pastilhas, cilindros de roda e outros itens como os de rua. Por isso você tem freios tão mais eficientes nos carros de pista.

Diferentemente do início da revista, onde astros globais esforçavam-se para guiar carros com câmbio automático, pois alguns nunca haviam tentado – os anos 1990 eram outro planeta mesmo –, ouvir de um Emerson comentários sobre o Dodge Viper RT/10 era incrível. Ou do Nelson a opinião a respeito de BMW M3 versus Mercedes C43 AMG… Demos um salto qualitativo gigantesco. Eram aulas.

Vou me conceder o segundo aparte. Quem não é jornalista nunca participou de uma “reunião de pauta”, que nada mais é do que um brainstorm para definir quais as reportagens que integrarão a próxima edição. É a chance de engrandecer ideias que nascem, por vezes, bem modestas.

Lá pelos idos do final da década, fizemos mais uma reunião de pauta na Motor Show. E alguém sugeriu que convidássemos um piloto veterano, que havia sido um dos precursores do automobilismo brasileiro, para pilotar algum esportivo atual. Só lembro que apareceu outro coleguinha e palpitou que isso fosse feito em Interlagos – o autódromo paulistano havia sido reformado poucos anos antes e era possível que os pioneiros de Interlagos nem conhecessem o traçado novo.

A matéria cresceu. De repente, havíamos reunido 6 carros esportivos da época (Honda Prelude, Mitsubishi Colt, Renault R19 16V, Citroën ZX 16V, Peugeot 306 S16 e Fiat Tipo 16V) e convidamos oito pilotos veteranos para testá-los no Autódromo de Interlagos. Acho que foi a reportagem mais sensacional que tive o prazer de participar na minha carreira. Os pilotos convidados não eram meus ídolos, mas os do meu pai. Caras que guiaram nos anos 1950 e 1960, muitos deles anteriores ao próprio Emerson Fittipaldi.

Pra ficar ainda mais interessante, nós acertamos na mosca: nenhum deles conhecia o novo traçado. Os personagens não se viam havia décadas e o reencontro foi extremamente emocionante.

Verdadeiras lendas: Camilo Cristófaro, Eugênio Martins, Luiz Pereira Bueno, Marinho César, Fritz d´Orey, Chico Lameirão e Bird Clemente. Se minha memória não me trai, o oitavo era o Ciro Caires. Como a história do reencontro desses craques acabou se alastrando, ainda tivemos outros dois personagens inesquecíveis: Jorge Lettry e Toni Bianco.

A primeira exclamação de todos foi unânime: “estragaram o nosso Interlagos!” Todos falaram o mesmo. “Virou uma pistinha de bunda-mole! Não há mais nenhum desafio. Nada. Só freia, contorna e acelera”, era o que diziam. Pra você, que nunca viu o circuito antigo do Autódromo de Interlagos, busque alguma referência no YouTube. Ache alguma câmera onboard pra entender o quanto era magnífico o traçado da pista.

Outro dado curioso era a tônica dos comentários sobre aderência e, principalmente, os FREIOS dos carros testados. “Ah se eu tivesse freio assim nas minhas carreteras”, dizia o Camilão.

Conforme eles iam descendo dos carros, apanhávamos notas de alguns itens, como aceleração, retomada, aderência, frenagens, conforto. Depois somamos e demos o resultado na matéria.

Você quer saber quem ganhou? Não faço a mais remota e absoluta ideia! Deve ter sido o Prelude, que era um cupê esportivo bem mais dotado que os outros hatches. Mas isso era o que menos importava, sinceramente. Relembrando essa passagem, eu digo com convicção: tanto faz. Mesmo.

Os personagens ali foram os pilotos. Todos eram muito especiais. Mas eu ainda tive como eleger meus preferidos. Primeiramente o CAMILÃO. Ali ele já tinha perto (ou mais) de 70. E a tranquilidade com que ele freava o Prelude no final da Oposta e fazia a tomada do Lago? De impressionar. Coisa de quem guiou muito carro ruim a vida toda e, de repente, se via ao volante de automóveis muito mais neutros nas reações. Ele chegou a comentar: “engraçado como esse Hondinha faz tudo o que eu quero. Eu viro, ele obedece. Eu breco, ele também obedece… Não tô acostumado com carro assim”.

E o Bird, botando os carros de lado, tal qual fazia com os inesquecíveis Willys Interlagos? O detalhe é que ele fazia isso com um braço só, sorridente, olhando para a minha cara (eu estava no banco do passageiro).

Mas, confesso, ainda mais do que os dois: nunca vou esquecer do quanto o tal de LUIZ PEREIRA BUENO era rápido. Lembrei logo do meu pai contando que viu várias corridas em Interlagos na arquibancada, no final dos anos 1960, e achava o Luizinho até mais “bota” que o próprio Emerson.

Deus do céu, como guiava aquele sujeito… Ele não testou os carros: fez voltas de classificação! Saí uma hora do boxe guiando o Honda Prelude, que andava bem mais que os outros carros, diga-se. Todos os demais estavam na faixa de 140 a 155 cv. O Prelude tinha 190 cv. E colei na traseira do Renault. A diferença, contudo, era que o Luizinho estava guiando o carro da frente. Ele nunca tinha andado de R19 16V e nem no circuito novo. Mas o que homem acelerava! E o que eu aprendi do traçado só andando na cola dele!!

Inesquecível andar com esses magos do automobilismo em Interlagos.

E só um post scriptum: aprendi anos atrás que você deve desconfiar severamente de cidadãos que maltratam garçons, não gostam de cães e não comem bacon. Pois. Tenho observado, como um esforçado repórter, se essa definição faz sentido. E faz. Mas acrescente ao teorema original: desconfie também de quem não gosta de automóveis. Tenho dito.

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