“Explode tudo”: Ibama já destruiu quase mil veículos e máquinas do garimpo em 2026

Número de veículos e máquinas destruídos pelo órgão mais que triplicou desde 2020; três em cada quatro itens deste ano estavam ligados ao garimpo

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Escavadeira inutilizada pelo Ibama e pela PRF na TI Sararé (MT), terra indígena líder em destruições de 2026 (Foto: Ibama | Divulgação)
Por Eduardo Passos
Publicado em 03/11/2026 às 17h00

Na última sexta-feira (30), agentes da Polícia Federal e do Ibama subiram o Rio Madeira, em Porto Velho, até um trecho a cerca de 27 km da usina de Jirau. Ali, encontraram dragas de garimpo — estruturas flutuantes avaliadas em mais de R$ 4 milhões cada — trabalhando sem licença ambiental. As equipes retiraram o mercúrio que havia a bordo e inutilizaram as embarcações no meio do rio.

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Quatro meses antes, na Terra Indígena Kayapó, no sul do Pará, fiscais inutilizaram em dois dias 32 escavadeiras hidráulicas, dois caminhões, três caminhonetes e oito motos que abasteciam garimpos de ouro.

As duas cenas fazem parte de uma prática que virou rotina na Amazônia: levantamento do AutoPapo com base nos dados do Ibama mostra que o órgão destruiu ou inutilizou 974 veículos e máquinas pesadas em 2026, até 1º de novembro.

O número já encosta no recorde de 2025, de 1.053, e mais que triplicou desde 2020, quando foram 329.

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Arte: AutoPapo

A lista deste ano tem 242 motos, 81 caminhões e carretas, 50 carros e picapes — como Toyota Hilux, Chevrolet S10 e Mitsubishi L200 —, 94 embarcações e 21 aeronaves, entre elas helicópteros Robinson R44. Quase metade do total, porém, são escavadeiras e outras máquinas pesadas, chamadas de “PCs” pelos garimpeiros

Ao menos 74% dos itens destruídos neste ano aparecem em termos que citam garimpo, mineração, ouro ou mercúrio, e seis em cada dez estavam em terras indígenas. Só a TI Sararé, em Mato Grosso, concentrou 192 deles.

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Arte: AutoPapo

O que diz a lei

A destruição no local está prevista no Decreto 6.514/2008, que regulamenta a Lei de Crimes Ambientais. Pelo artigo 111, produtos e instrumentos usados na infração “poderão ser destruídos ou inutilizados” em duas situações.

A primeira é quando a medida for necessária “para evitar o seu uso e aproveitamento indevidos nas situações em que o transporte e a guarda forem inviáveis em face das circunstâncias”. A segunda, quando os bens “possam expor o meio ambiente a riscos significativos ou comprometer a segurança da população e dos agentes públicos envolvidos na fiscalização”.

Em outras palavras, a destruição ocorre porque é impossível remover os equipamentos da mata profunda, de modo que só o fogo é capaz de garantir que tais bens não serão recuperados pelos criminosos após a saída das autoridades.

Por que a prática cresceu

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Criminosos vêm escondendo veículos de diferentes formas para evitar a destruição pelas autoridades (Foto: Ibama | Divulgação)

A explicação do Ibama passa pelo bolso: para Jair Schmitt, diretor de Proteção Ambiental do órgão, a perda imediata dos bens pesa mais sobre o infrator do que “a ameaça de uma multa futura”, como disse à Repórter Brasil.

Segundo o Instituto Escolhas, uma escavadeira própria pode render R$ 343 mil de lucro por mês a quem financia o garimpo. Ao Brasil de Fato, Schmitt lembrou ainda que bens deixados com depositários já foram furtados e voltaram ao crime.

A medida de destruição foi desestimulada no governo Jair Bolsonaro, que em 2019 desautorizou em público uma operação que queimou caminhões e tratores em Rondônia. A partir de 2023, o Ibama retomou as grandes ofensivas contra o garimpo, e o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou leis de Roraima e de Rondônia que proibiam a prática.

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Governo de Jair Bolsonaro tentou conter a política de ‘explode tudo’, que voltou na presidência de Lula (Foto: Ibama | Divulgação)

Os garimpeiros, por sua vez, se adaptaram: na TI Sararé, a operação federal encontrou 35 bunkers e 33 túneis usados para esconder máquinas até a saída dos fiscais, segundo balanço do governo divulgado em junho.

A prática também enfrenta resistência no Congresso. Em maio, a Câmara aprovou o Projeto de Lei 2.564/2025, do deputado Lúcio Mosquini (MDB-RO), que impede a destruição quando ela for vista como antecipação de pena. Depois da ação no Rio Madeira, Mosquini criticou nas redes a fiscalização que “explode tudo, acaba com tudo”. O texto aguarda apreciação do Senado.

Enquanto isso, o governo aposta em outra frente: em outubro, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) aprovou um cadastro nacional de escavadeiras e dragas, com rastreadores instalados de fábrica nas máquinas vendidas no país. O Ibama tem 180 dias para regulamentar o sistema.

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