Fiat Argo Drive 1.0

Ascensor para o cadafalso

Por Marcus Celestino21/09/17 às 08h11

Muitos têm comentado que o Argo é o melhor lançamento da Fiat em anos. Também pudera. Não é tão difícil assim. À exceção da picape Toro, os últimos produtos da fabricante não são um sucesso de crítica. Sofreram por inúmeros fatores. Problemas mecânicos, precificação não condizente com o segmento e a falta de confiança do consumidor foram alguns entraves encarados por inúmeros veículos (vide o Mobi). Contudo, voltemos a nos ater ao modelo aqui testado, o substituto de Punto e Bravo – mais especificamente, em sua versão Drive 1.0.

Comecemos pelo visual. O design do Argo é prosaico. A dianteira conta com elementos do Tipo europeu, mas os faróis são mais afilados e alongados que o de sua “musa inspiradora”. Os vincos do capô convergem para a grade enorme dividida ao meio em formato de colmeia e dão ao hatch tom mais agressivo. Até aí tudo bem. O problema é que olhares mais maldosos (ou atentos, na verdade) enxergam um Mobi vitaminado. “Bombadinho” mesmo. Parece que a Fiat pegou esteroides, injetou no subcompacto e chegou a este resultado.

Fiat Argo Drive 1.0

De “perfil”, a caída no teto dá ao modelo um quê de esportividade. Já na traseira, o Argo tem lanternas que evocam Alfa Romeo. No entanto, o visual é genérico. É muito parecido com o que já vemos há algum tempo no mercado (Hyundai HB20, alguém?). Falta arrojo, mas as linhas, ao menos, são harmoniosas. Há contexto no design. É elegante, denota agressividade e transmite robustez. No frigir dos ovos, o Centro de Estilo da Fiat brasileira acertou nas escolhas.

Fiat Argo Drive 1.0

Internamente, o Argo também tem visual interessante. Os destaques vão para a tela TFT de 3,5” no quadro de instrumentos e para a (opcional) central multimídia UCONNECT, intuitiva e com boas respostas. A tela sensível ao toque de 7” fica destacada, emulando o mesmo estilo do Mercedes-Benz Classe A. Compatível com Android Auto e Apple CarPlay, custa R$ 1.990. Vale destacar que o kit Parking (de assistência de estacionamento) pode ser adquirido por R$ 1.200.

Outro ponto positivo acerca do interior é o acabamento esmerado. O plástico do painel central pode ser duro, mas tem boa aparência e não incomoda no toque. A montagem é boa, com tudo bem encaixado e arremates benfeitos. Único porém é a iluminação do habitáculo. Apenas duas lanternas são responsáveis por tal, o que é insuficiente. Os bancos são revestidos com material agradável e “abraçam” bem passageiro e  condutor.

O isolamento acústico é bom. O habitáculo é silencioso, mas não chega a impedir por completo que ocupantes ouçam o incômodo ruído metálico característico do motor de três cilindros. As portas se fecham de maneira precisa, macia. Nem parece que é um Fiat. O som de fechamento é abafado. Muito diferente da barulheira típica da maioria dos modelos da marca.

Fiat Argo Drive 1.0

Espaço interno

O entre-eixos do Argo, de 2,52 m, é parelho com os dos concorrentes Chevrolet Onix (também 2,52 m) e Hyundai HB20 (2,5 m). No entanto, a Fiat conseguiu racionalizar o projeto e dar espaço mais do que suficiente para motorista e passageiros. O novo hatch, inclusive, é mais generoso que o Punto nesse aspecto – e olha que o “velho de guerra” tem apenas 1 cm a menos de entre-eixos que o novato. Quem se acomoda no banco traseiro dispõe de conforto para as pernas, mas o assento poderia ser pouco mais comprido.

A caída no teto acaba por prejudicar os mais altos. Se dá um ar esportivo ao modelo em termos de design, traz algumas complicações no habitáculo. O Argo tem 1,5 m de altura – ante 1,47 m de HB20 e Onix – mas ocupantes com mais de 1,75 m no banco traseiro batem a cabeça no teto. Por fim, o porta-malas com capacidade de 300 litros é condizente com o segmento e não faz feio.

Ao volante

O 1.0 Firefly entrega apenas 72 cv de potência quando abastecido com gasolina e 76 cv com etanol. Menos que seus principais concorrentes (78 cv do Onix e 75cv do HB20, ambos com gasolina). Só que o torque de 10,4 kgfm (gasolina) e 10,9 kgfm (etanol) é bem superior. Além disso, o acerto do vagalume (tradução para firefly) permite que 80% deste torque esteja disponível já a 2.500 rpm.

O preconceito com relação aos “milzinho” é notório no Brasil. Mas, já foi o tempo. O tricilíndrico da Fiat não deixa na mão nem mesmo um hatch como o Argo – que ostenta 1.105 kg. Por causa da entrega de torque em baixa, o modelo tem desempenho bem esperto em ambiente urbano. O que é, de fato, surpreendente. É claro que o 1.0 não é nenhum milagreiro. Em cidades com topografia acidentada o hatchback sofre um bocado. Parece estar ancorado.

Fiat Argo Drive 1.0

Na estrada o comportamento é dicotômico. A direção assistida eletricamente ganha peso de maneira adequada conforme a velocidade aumenta. Além disso, o acerto da suspensão, que absorve bem as imperfeições do solo, é primoroso. O carro transmite segurança e firmeza nas curvas. A inclinação da carroceria, construída com aços de alta resistência, é mínima. Contudo, prepare-se para dar aquela esticada, pois as retomadas são lastimáveis. Ultrapassagens só devem ser feitas com muita certeza. Nada de benefício da dúvida.

Todavia, o calcanhar de Aquiles do conjunto mecânico é a antiquada transmissão. O câmbio manual de cinco marchas tem curso muito longo e tem engates muito imprecisos. Não dá para aproveitar uma tecnologia tão “década de 2000” em um projeto novo. Além disso, não  é viável obedecer as indicações de trocas no painel. Elas objetivam a redução de consumo de combustível e, caso o motorista tente ser fiel às setas, o hatch fica frouxo.

Apenas elogios para o consumo de combustível. O Argo não gosta de beber como um ébrio. Muito pelo contrário. Durante o teste, especialmente em ambiente urbano, rodou bastante sem exigir posto de gasolina. A vedete é o start-stop, que faz as vezes de economizador no trânsito da cidade. Se você é daqueles que não curte o desligar do motor, tudo bem. Pode desativar o sistema, mas terá que abastecer o veículo mais vezes.

Conforme padrões estabelecidos pelo Inmetro, as médias do Argo Drive 1.0 são as seguintes:

Ciclo urbano: 9,9 km/l (etanol) e 14,2 km/l (gasolina)
Ciclo rodoviário: 10,7 km/l (etanol) e 15,1 km/l (gasolina)

Fiat Argo Drive 1.0

Itens de série

O pacote de itens de série do Argo Drive 1.0 é bom. O veículo conta com ar-condicionado, regulagem de altura para o banco do motorista, banco traseiro rebatível, chave canivete com telecomando para aberturas das portas, vidros e porta-malas, apoios de cabeça e cintos de três pontos para todos os ocupantes, direção elétrica progressiva, desembaçador do vidro traseiro, Isofix, iluminação do porta-malas, limpador do vidro traseiro, predisposição para rádio (dois alto-falantes dianteiros, dois alto-falantes traseiros e dois tweeters e antena), sistema Start&Stop, travas elétricas, vidros dianteiros elétricos, volante com regulagem de altura e computador de bordo.

Veredito

Para a Fiat, o Argo pode ser um ascensor para o cadafalso. Entre vários significados, “cadafalso” pode ser duas coisas: um palanque para cerimônias solenes ou estrado montado para a forca. O produto tem seus problemas, claro, mas é bom. É, sim, o melhor Fiat dos últimos tempos. Contudo, as pessoas (autor do texto incluso) são voláteis. Adulam e executam com a mesma facilidade.

Ficha técnica:

Fiat Argo Drive 1.0 Firefly

Motor: 1.0 tricilíndrico, injeção eletrônica, flex
Potência: 72 cv (gasolina) e 77 cv (etanol) @ 6.250 rpm
Torque: 10,4 kgfm (gasolina) e 10,9 kgfm (etanol) @ 3.250 rpm
Câmbio: Manual de cinco marchas
Direção: Assistência elétrica; tração dianteira
Suspensão: Independente McPherson na dianteira e eixo de torção na traseira
Freios: Discos sólidos na dianteira e tambores na traseira
Pneus e rodas: 175/65 R14
Dimensões: 4 m de comprimento, 1,72 m de largura, 1,50 m de altura, 2,52 m de entre-eixos
Peso: 1.105 kg
Tanque de combustível: 48 litros
Porta-malas: 300 litros
Aceleração 0-100 km/h: 13,4 segundos
Velocidade máxima: 162 km/h
Consumo urbano: 9,9 km/l (etanol) e 14,2 km/l (gasolina)
Consumo rodoviário: 10,7 km/l (etanol) e 15,1 km/l (gasolina)
Garantia: três anos
Preço sugerido (sem opcionais): R$ 46.800


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