F1 no Rio ou São Paulo: e agora, José?

O governo do Rio "conseguiu" perder o Grande Prêmio de Fórmula 1 há 30 anos. Conto os bastidores da mudança para São Paulo

Por Boris Feldman 15/06/19 às 10h36

Está anunciada a construção de um novo autódromo no Rio, no bairro de Deodoro, com custos bancados por investidores privados. O governo se excedeu no entusiasmo e anunciou a nova pista sediando a corrida de Fórmula 1 em 2020. Mas os paulistas lembraram as autoridades governamentais de que o contrato com Interlagos vai até o próximo ano. E não pretendem abrir mão do evento nos anos seguintes.

Uma das dificuldades para se levar a F1 de volta para o Rio é que a empresa internacional que a organiza (Liberty) não é mais de Bernie Ecclestone, mas tem gente  que se lembra muito bem o porquê de a corrida ter deixado o autódromo de Jacarepaguá há 30 anos.

O presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) em 1989 era o piloto e empresário Piero Gancia e eu era seu vice. Poucos dias depois da corrida daquele ano, Ecclestone, “dono do circo”, nos procurou para relatar que a Riotur, dona da pista de Jacarepaguá, exigia uma “contribuição” de US$ 3 milhões de dólares para a campanha eleitoral de Leonel Brizola, então governador do estado e candidato à presidência da República.

Quem dirigia a Riotur era um parente do Brizola (casado com sua sobrinha) e condicionou a permanência da corrida em Jacarepaguá àquele pagamento.

Ecclestone contou a história quase rindo, incrédulo da exigência estapafúrdia e da ignorância da Riotur, que nem imaginava a disposição de outros países capazes do contrário: pagar muito mais ao “Mister F1” para convencê-lo a levar a corrida para suas pistas. Ele nos deu então um prazo para resolver o assunto, caso contrário, adeus F1 no Brasil.

Fórmula 1 em São Paulo?

A primeira ideia da CBA foi consultar São Paulo. Mas nem tentamos, ao lembrar que a prefeitura estava sob o comando de Luiza Erundina, do PT. Desde quando – pensamos – uma prefeita petista vai se interessar por corrida de Fórmula 1.

Saímos então em busca de outro autódromo. Pistas existiam várias, mas haviam exigências para receber o “circo” e a mais complicada era existir uma rede hoteleira de alta capacidade e qualidade.

Brasilia e Goiânia eram algumas das que se enquadravam e seus prefeitos se entusiasmaram com a ideia e marcaram reunião de seus assessores com a CBA. Mas surgia então uma demanda que inviabilizava o plano: além de um percentual do faturamento do evento para a prefeitura, teria um outro, “por fora”. Inacreditável como a equipe de cada alcaide colocava as “taxas” na mesa sem sequer se enrubescer.

O tempo corria, nada de pista, e o Bernie deu um ultimatum ao Piero: estava organizando o calendário de 1990 e lamentava, mas levaria a corrida para outro país.

Aí, pensamos, já temos o “não” em São Paulo sem sequer conversar com os paulistas. Vamos então à última cartada: procurar a Luiza Erundina. Primeira surpresa nossa foi ela ter manifestado enorme interesse pelo assunto.

Segundo espanto: na reunião com assessores e secretários, todas as reivindicações da CBA para reforma do autódromo seriam atendidas. E rigorosamente ninguém insinuou destinar  verba nenhuma para Caixa 2 de nenhum político. A CBA bateu o martelo com Interlagos e com Ecclestone para o ano seguinte (1990), decretando o fim da Fórmula 1 no Rio.

Não me esqueço da reação dos cariocas com a notícia. A começar da associação dos hoteleiros que tentou forçar a permanência  da corrida, foi conversar com Brizola e até publicou um manifesto na imprensa, alegando que a Fórmula 1 não era o evento que mais trazia turistas à cidade (era o carnaval), mas responsável por seu maior faturamento.

Além da rede hoteleira, são dezenas de milhões de dólares canalizados por turistas com alto poder de compra para lojas, bares, restaurantes, taxistas, bordéis…

Pelo visto, vamos presenciar um embate entre as duas cidades. E agora, José, para onde vai a festa?

Fórmula 1: Rio ou São Paulo?
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13 Comentários
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    Roberto augusto 13 de julho de 2019

    O Rio não tem dinheiro nem pra saúde e pra segurança pública.
    Dizem que vai ser dinheiro partícula.
    Água zinho foram os estados né.
    Na hora do vamos ver sobra é pra gente pagar o pato.

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    João 26 de junho de 2019

    Chega desse nepotismo carioca arrogante e chato. Tudo tem que ser pra eles! Além disso tem muita coisa mais necessária a fazer naquela cidade, já que é um caos.
    As coisas devem descentralizar.
    Existem muitos lugares no Brasil que merecem receber a Formula 1., Olimpíadas e outros.
    Que seja em Brasília, Porto Alegre, BH, Manaus e etc.
    Mas se está em São Paulo, está bem sediado o evento, ja que São Paulo é uma cidade de primeiro mundo.
    Podem fazer um novo autódromo. Leve o Kart pra lá.

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    Eric 19 de junho de 2019

    É simples, basta fazer uma alternância entre as pistas. Como foi feito em Hockenheim e Nürburing por alguns anos.
    O mal do ser humano é ser egoista e querer tudo para si.
    PS.: sou carioca e morador do rio.

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    VICTOR AMADEU BATISTA DA SILVA 17 de junho de 2019

    Bom F1 no Rj seria algo fantastico para Brasil, um circuito novo, moderno que realmente faça jus a esse circo chamado formula 1. Não que interlagos seja uma pista ruim pelo contrario a pista paulistana tambem e fenomenal no meu ponto de vista uma das melhores do mundo, porem Interlagos precisa urgentemente de investimentos, modernização, infraestrutura. Se realmente Interlagos quer permanecer representando o Brasil na F1 os governantes paulistanos tem que se mexer e investir no circuito, caso contrario em 2021 a F1 desembarcara de mala e cuia no RJ

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    Jarbas Pires 17 de junho de 2019

    Grande Erundina. Quem diria, foi a única que não exigiu propina e não foi ignorante.

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    José Eduardo 16 de junho de 2019

    Retorno a F1 ao rio é misto de demagogia com piada sem graça … Me espanta alguém como jornalista deste blog que afirma que a 30 anos o rio perdeu a prova por
    Propina (não que não seja verdade…) Notíciar algo que os do meio automobilístico e mesmo aqueles com dois neurônios sabem que é pura demagogia e populismo do governo do estado e do mandatário federal …

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    Fabio 15 de junho de 2019

    Deveriam proibir esses carros horríveis, barulhentos e beberrões de poluir as cidades brasileiras. Deveriam somente ser permitidas corridas de SUV’s (estão na moda), e paralelamente, nas suas laterais e, ao mesmo tempo, corridas de patinetes e bicicletas. Td sem capacete, lógico. Assim, aumenta um pouco mais a segurança…..kkkkk

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    jayme lima bezerra 15 de junho de 2019

    SIM, Treata=se de evento de grande importancia a altura da exuberancia turistica desta Cidade Maravilhosa do RIO DE JANEIRO. O atual Prefeito, o Sr MARCELO CRIVELA deveria desde ja ir lanaçando as bases de tratativas para que negociaçoes sejam feitas, tendo em vista o grandioso custo financeiro da construiçao do NOVO AUTODROMO DE DEODORO. Seria uma veerdadeira explosao imobiliaria ara as adjacencias em torno desta MEGA PISTA de FORMULA UM. Que o novo prefeito a ser eleito em 2020 tenha esta visao.

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      Mauricio 19 de setembro de 2019

      O Rio tem que investir em segurança e não em autódromo!!!

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      mauricio 19 de setembro de 2019

      O Rio tem que investir em segurança!!! E não em autódromo!!!

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    Djair Alves 15 de junho de 2019

    Minas no momento não tem condição para F1.Devido a crise que se estala nesse governo TB não tem uma pista que se comporta a F1.
    Portanto para mim continuaria em SP.
    Agora o Rio,já não é de hj essa corrupção esse favoretismo.

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    GILSON SILVA 15 de junho de 2019

    Está prevista alguma mudança? Se positivo, espero que MG esteja nas conversas.

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    Rodrigo Abreu 15 de junho de 2019

    F1 em São Paulo e FE eletrica nas ruas do Rio!

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