Um carro futurista, que não tinha janelas para refrescar o motorista

O Hofstetter possuía linhas muito à frente do seu tempo; as portas, por exemplo, abriam para cima, como as asas de uma gaivota

Por Douglas Mendonça11/03/19 às 21h09

Trabalhei por mais de 10 anos na revista Quatro Rodas e, por lá, vi todo tipo de carro estranho que você, leitor, possa imaginar. Alguns deles – normalmente, os veículos fornecidos pela grande indústria nacional – chegavam a ser deslumbrantes para a época. Mas, em contrapartida, também tive o contato com carros surpreendentes e alguns até estranhos.

Mas meu trabalho como jornalista era o de apresentar às centenas de milhares de leitores que a revista tinha na época todas as novidades. Eu e os meus amigos responsáveis pela área técnica da revista testávamos e, quando não era possível, dávamos uma pequena volta no novo carro para que pudéssemos contar para os nossos leitores como era o comportamento dinâmico dele.

Era um trabalho extenuante, mas compensador para toda a equipe, pois todos éramos apaixonados pelo que fazíamos. Entre as centenas de avaliações que fiz ao longo dos anos que trabalhei na referida publicação, lembro-me de histórias divertidas, às quais já tive a oportunidade de contar nessa coluna, e outras surpreendentes como a que vou relatar agora.

Final de 1984, há quase 35 anos. O Salão do Automóvel acontecia no centro de exposições do Anhembi, na capital Paulista. Na época, ainda não existiam os carros importados, que começaram a chegar apenas no início dos anos 90. O consumidor brasileiro tinha que se contentar com os produtos oferecidos por nossa, ainda limitada, indústria automobilística nacional.

Como não existiam os importados, além das grandes Fiat, Ford, GM e Volkswagen, tínhamos os pequenos fabricantes que, devido à sua pequena produção, construíam chassis tubulares com carrocerias em fibra de vidro. Em 1984, umas das gratas novidades do salão foi a apresentação de um superesportivo nacional batizado de Hofstetter.

Como Ferrari, Porsche, Maserati, Lamborghini entre outros superesportivos mundiais, chegavam ao nosso país em um volume limitadíssimo, Mario Richard Hofstetter pretendia com o seu novo produto atrair a atenção daqueles que não podiam comprar os importados por questões legais.

O novo carro tinha um design que chegava a chocar, de tão futurista. Baseado nas linhas do Alfa Romeo Carabo, um carro conceito apresentado na Europa nos anos 70, o Hofstetter possuía linhas muito à frente do seu tempo. As portas, por exemplo, abriam para cima como as asas de uma gaivota, e nessas mesmas portas um acrílico transparente que acompanhava os desenhos das portas, permitiam ao motorista uma boa visão do exterior. O enorme para-brisa acompanhava em sua inclinação a forma de cunha de sua dianteira.

Um deleite para quem curtia carros avançados! Na mecânica, havia o motor 1.8 e o câmbio de 4 marchas do Gol GT, e para incrementar o desempenho, um turbo sobrealimentava o propulsor, que desenvolvia saudáveis 140 cv de potência. Naquele tempo, algo surpreendente.

O Hofstetter tinha um design que chegava a chocar, de tão futurista


Na revista Quatro Rodas, recebíamos sempre os carros para avaliações em primeira mão. Andávamos nos carros antes de todos e, algumas vezes, até mesmos que os construtores. Um prestígio que a revista havia conquistado por anos de um trabalho sério. Pois bem, recebemos o primeiro Hofstetter para teste, aquele mesmo exposto no salão, o primeiro carro construído.

Coube ao chefe da área técnica, Luiz Bartolomais Júnior, o primeiro teste com o Hofstetter. Como o carro não possuía janelas que abrissem, pois tudo era fixo e fechado, o ar condicionado era ligado automaticamente sempre que o motor era ligado. Dessa forma, motorista e um possível acompanhante não morreriam sufocados ou de calor. Uma particularidade do esportivo nacional. Luiz partiu para a cidade de Limeira, no interior Paulista, onde estava localizada a pista de teste que a revista utilizava para as suas avaliações.

Foi nesse ponto que o caldo entornou. Nosso chefe Barto – era assim que era chamado – pegou a rodovia dos Bandeirantes rumo ao interior paulista. Na estrada há os tradicionais pedágios e, no primeiro deles, um problema que nem o projetista do carro pode prever: como pagar o pedágio se as janelas não se abriam e o motorista ficava hermeticamente fechado? Barto, um experiente avaliador de carros, também só percebeu isso quando chegou à cabine de pagamento: como dar o dinheiro da cobrança se o motorista não tinha acesso ao exterior?

Percebendo esse fato naquele momento e sabendo que a passagem é bem estreita, Barto jogou o carro para a direita o quanto pôde e fez o inusitado: parou, abriu a porta desceu, pagou o pedágio, voltou ao interior do carro, fechou a porta e prosseguiu a sua viagem.  A atendente do pedágio ficou sem entender nada: certamente nunca um usuário desceu do carro e pagou o pedágio como se fosse uma bilheteria de um cinema.

Claro que nos pedágios seguintes, ele teve que repetir a operação e, por sorte, as portas se abriam para cima, pois se fosse abertura convencional, ele teria pouquíssimo espaço para descer e voltar.

Depois dos testes realizados e a reportagem publicada, esse sério problema construtivo teve de ser resolvido pelo construtor Mario Richard Hofstetter: a exemplo de outros superesportivos mundiais, o Hofstetter passou a ter uma pequena janela corrediça, para que o motorista pudesse pagar pedágios ou simplesmente pegar ticket de estacionamento.

Imaginem um projetista pensando em um superesportivo , seu design, chassi, mecânica, acabamento interior se ele se lembraria a trivialidade de se pagar um pedágio? Claro que não! Mas a questão foi resolvida, e o Hofstetter hoje é um carro raríssimo, pois apenas 18 unidades foram fabricadas e, aqueles que a tem não vendem por dinheiro algum. Coisas da história de nossa indústria automobilística.

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4 Comentários
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    Luiz alberto Carvalho 17 de março de 2019

    Quando vi esse carro no referido salão, foi a primeira pergunta que fiz: “E como se paga o pedágio?” Curiosamente, muitos carros blindados sofrem desse mal e, supostamente, deveriam zelar pela segurança dos ocupantes.

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    Carlos Pala 12 de março de 2019

    Saudades da epoca de gloria do jornalismo brasileiro, em todas as areas. As 4 Rodas dos anos 70 e 80 eram e ainda sao leitura que te prende do inicio ao fim.

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    Rodrigo dos Santos Oliveira 12 de março de 2019

    Lembra a Lamborghini Diablo.

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    Francisco de Assis 11 de março de 2019

    trabalhei em uma empresa de embalagens em Santo Amaro SP cujo proprietário comprou os moldes a estrutura era fabricado em tubos soldados e a carroceria era fabricado em fibra de vidro tinha uma equipe muito boa que trabalhava bem era trabalho artesanal de primeira qualidade acompanhei a construção de dois desses carros

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