Na busca da foto segredo exclusiva, fotógrafo leva até tiro

Essa busca pelos grandes segredos de nossa indústria automobilística começou lá pelos meados dos anos 60 e foi muito forte até os anos 2000

Por Douglas Mendonça 06/05/19 às 21h01

Verdadeiros heróis esses fotógrafos da velha guarda, que não tinham limites para trazer ao público a foto sensacional de um carro que o mercado sequer sabia que existia. A partir dessa imagem exclusiva, feita às vezes com muito suor, sangue e lágrimas, se desvendavam grandes segredos que a indústria automobilística guardava a sete chaves, na maioria das vezes por questões estratégicas.

Essa busca pelos grandes segredos de nossa indústria automobilística começou lá pelos meados dos anos 60 e foi muito forte até a primeira década dos anos 2000. Grandes profissionais se destacaram na busca desses segredos automotivos, mas alguns fizeram história na qualidade do trabalho com que brindaram o grande público avido por informações sobre os novos carros que chagariam ao nosso mercado.

Um desses grandes profissionais da fotografia foi reconhecido por décadas como um dos melhores fotógrafos automotivos do país. Seu nome é Cláudio Laranjeira, um ícone da fotografia de carros e de turismo. Laranja, como é carinhosamente chamado pelos colegas do meio jornalístico, era reverenciado quando o assunto era fotos de carros, de paisagens nas matérias de turismo e, claro, nos grandes segredos fotográficos: ele desvendou vários novos carros para o mercado.

Fotógrafo à caça da Volkswagem Brasília

Lá pelo final dos anos 60, Laranja já fotografava para a Revista Quatro Rodas, onde trabalhou por mais de 30 anos. E, no inicio dos anos 70, estava em busca das fotos inéditas da Brasília. Só para que se tenha uma ideia, Laranja e o grande e saudoso repórter investigativo Nehemias Vassão rodaram cerca de 15 mil km nos estados de São Paulo e no Paraná caçando a tal Brasília, que sabiam que existia, mas ninguém descrevia como era.

Volkswagen Brasília foi um dos carros de maior sucesso da década de 1970
Volkswagen | Divulgação

Já estavam no limite do fechamento da edição de março de 1973 da Revista Quatro Rodas quando resolveram descer para a cidade de Santos, viajando pela estreita e perigosa estrada velha. Deram a maior sorte: antes do inicio da descida da serra para a cidade santista, cruzaram com um comboio de cerca de 5 carros, entre eles uma Brasília sem nenhum disfarce, dirigida por ninguém menos que o presidente da Volkswagen na época.

Quando viu o comboio em sentido contrário, Laranja começou a fotografar a Brasília de frente. Vassão rapidamente conseguiu retornar, na própria estrada, com o Fuscão que utilizavam na época e partiram para cima do comboio, fazendo ainda mais fotos do novo carro. Depois de algumas fechadas dos outros carros, provavelmente dirigidos por seguranças, conseguiram parar o Fuscão da dupla de bisbilhoteiros.

Na época forte do militarismo, seguranças portando armas era algo absolutamente normal. Quando pararam a dupla, um desses seguranças, de arma em punho, deu um tiro para intimidar a dupla. A bala perfurou a placa dianteira do carro. Com rádios, chamaram a policia rodoviária Estadual que, em poucos minutos, já estava na área dando voz de prisão aos dois jornalistas.

Tiro não impede trabalho do fotógrafo

Laranja, muito esperto, aproveitou a confusão retirou o filme que havia feito e o enviou entre o tênis e a meia e, para disfarçar, enfiou um filme novo na máquina. A primeira coisa que os seguranças fizeram foi tirar a força a máquina do Laranja, retirar o filme e, não satisfeitos, ainda quebraram a câmera fotográfica. O que esse seguranças não sabiam era que o verdadeiro segredo estava nos pés de Laranja.

Depois de detidos e passarem uma tarde no xilindró, foram soltos, com o segredo nos pés do Laranja. Resultado? A nova Brasília pôde ser vista pelos leitores, na capa da edição de Março de 1973 da Revista Quatro Rodas. O carro foi apresentado e lançado no final daquele ano, mas já não era nenhuma novidade, graças ao trabalho destemido dos dois repórteres, que enfrentaram até bala para levar a imagem do novo carro ao público.

Fotógrafo enfrentou até bala para levar a imagem da Brasília ao público
Revista Quatro Rodas | Reprodução

Uma outra boa história do Laranja, dentre as dezenas da qual participou, está no lançamento precoce do Corcel II em 1978. O saudoso repórter investigativo Nehemias Vassão tinha informações de que um comboio de novos carros da Ford rodavam pela cercanias de Campo Grande, no Mato Grosso. Depois de muito procurarem, a dupla Vassão e Laranja, descobriu o roteiro de testes da Ford pelo Mato Grosso. Sabiam que os carros só rodavam de madrugada, para que não fossem vistos e flagrados.

Da Brasília para o Corcel

Ois dois, então, armaram uma tocaia em uma pequena cidade. Sabiam a hora e o roteiro que os carros de testes fariam. Como de noite todo o gato é pardo, Vassão foi para a entrada do vilarejo com um pequeno rádio de comunicação, para avisar o Laranja quando os carros passassem por ele. Nosso intrépido fotógrafo então se prepararia para mais um flagra automotivo. Tudo funcionou com havia sido planejado: os carros passaram, Vassão avisou o Laranja pelo rádio, mas, como já era noite, utilizou-se um potente flash para as fotos.

Laranja ficou em um pequeno bar, à espreita: quando o primeiro carro passou, ele fez uma foto de frente, até o flash carregar para a segunda foto, Laranja conseguiu fazer a traseira do segundo carro. Até nisso o danado deu sorte: o primeiro carro era o Corcel II e o segundo era a nova Belina.

Quando a equipe de testes viu os flashes, imediatamente parou os carros e pelo menos umas seis pessoas vieram em busca do Laranja. Ele correu para dentro do bar, atravessou a cozinha e, quando chegou no quintal, descobriu que estava em um chiqueiro. Continuou correndo e se abrigou em cima de um limoeiro no fundo desse quintal. Claro que usou a velha técnica de tirar o filme da máquina e guardar dentro da meia, para que ninguém roubasse o seu trabalho. O pessoal da equipe de testes, entrou no bar gritando que era da Polícia Federal. Um blefe!

Depois de procurarem pelo Laranja em toda região, o pessoal da Ford desistiu e foi embora. E o Laranja viu o dia amanhecer em cima desse pequeno limoeiro no fundo do chiqueiro de porcos. Vassão passou, depois do dia já claro, para pegar nosso fotógrafo, que foi imediatamente levado para Campo Grande e colocado no primeiro avião para São Paulo, trazendo na bagagem as grandes novidades do Corcel II e da nova Belina, que foram capa da Revista Quatro Rodas.

Um fato interessante: o voo que trouxe Laranja e o grande segredo para São Paulo trouxe também três funcionários da área de testes da Ford, que, por sorte do nosso fotógrafo, não o conheciam. Mas Laranja sabia muito bem quem eram aqueles homens e o que eles faziam. Talvez, se conhecessem nosso esperto fotografo, saberiam que ele portava o segredo que eles tanto tentaram esconder.

Foi a competência destes destemidos profissionais do jornalismo que deram à Revista Quatro Rodas a credibilidade que ela desfruta. Profissionais que arriscaram até mesmo a vida para trazerem aos leitores a conceituada Revista, a preciosidade da informação correta.

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