Por que o Amapá é o único estado do Brasil sem estrada para o resto do país

Único estado sem estrada para o resto do país, o Amapá vive de balsas e aviões; a corrida do petróleo na Foz do Amazonas vai pôr essa logística à prova

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Posição geográfica de Macapá (AP) torna a cidade praticamente inacessível por estradas vindas de outros estados (Foto: Governo do Amapá | Divulgação)
Por Eduardo Passos
Publicado em 25/10/2026 às 09h00

Quem mora em Macapá pode pegar o carro e dirigir até a União Europeia, mas não até Belém. O Amapá é o único estado brasileiro sem ligação rodoviária com o restante do país. A única saída por terra é a ponte sobre o rio Oiapoque, que leva à Guiana Francesa, território ultramarino da França.

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Para se conectar ao resto do Brasil, tudo passa pela água ou pelo ar. Carretas atravessam embarcadas em balsas nas rotas Belém–Macapá e Santarém–Macapá, que funcionam como extensão fluvial da malha rodoviária. Até o combustível chega de barco.

O isolamento voltou ao centro do debate porque a Petrobras confirmou, em agosto, petróleo na costa do estado, com potencial inédito de riqueza na região.

Por que não há estrada

Foz do rio Amazonas vista do espaço
A foz do Amazonas vista da Estação Espacial Internacional: um labirinto de canais e ilhas separa o Amapá do resto do país (Foto: ESA | Divulgação)

Entre o Amapá e o resto do país está a foz do Amazonas, um labirinto de canais, ilhas e várzeas. O rio não tem uma única ponte em todo o seu curso principal. Do lado amapaense, mais de 70% do território é área protegida.

Para ter ideia da régua, uma ponte de Macapá a Belém, a 330 km em linha reta, teria de vencer os canais do Amazonas, cruzar a ilha de Marajó (quase do tamanho do estado do Rio e também sem estrada para o continente) e ainda a baía do Marajó. Só o Amazonas tem cerca de 2 km no ponto mais estreito, em Óbidos (PA). A Ponte Rio Negro, em Manaus, tem quase 3,6 km e custou mais de R$ 1 bilhão.

Ponte binacional sobre o rio Oiapoque
Ponte binacional sobre o rio Oiapoque leva à Guiana Francesa: é a única saída do Amapá por terra (Foto: Wikimedia | Reprodução)

Embaixo d’água, o canal chega a 100 metros de profundidade, e o fundo é um campo de dunas de areia de até 12 metros que se deslocam com a correnteza, segundo tese da Coppe/UFRJ. Na superfície, o nível varia cerca de 10 metros entre a seca e a cheia.

Pesa também a economia: com 88% do PIB em serviços, o estado nunca gerou carga que justificasse a obra. A eletricidade chegou antes do asfalto, pelo Linhão de Tucuruí, a linha que traz energia da hidrelétrica paraense e cruza o rio em torres de 295 metros.

No mapa, a BR-156 parece a saída. Pelo trecho sul, ela desce cerca de 245 km de Macapá até Laranjal do Jari, na divisa com o Pará, e para na beira do rio Jari. Do outro lado fica Monte Dourado (PA), alcançável só de barco, de onde uma estrada local leva a Almeirim, de novo às margens do Amazonas. Nem esse trecho está todo asfaltado: o DNIT contratou em julho mais 62 km de pavimentação, com prazo até 2030.

Torres do Linhão de Tucuruí sobre o rio Amazonas
Torres do Linhão de Tucuruí cruzam o rio Amazonas: a energia chegou ao Amapá antes de uma estrada para o resto do país (Foto: Wikimedia | Divulgação)

Os planos

A estrada Perimetral Norte (BR-210) começou a ser aberta em 1973, em Porto Grande (AP), para ligar Macapá à fronteira oeste. Dos mais de 2.400 km previstos, só cerca de 810 km existem. A ponte de 406 metros sobre o rio Jari, entre Laranjal do Jari e Monte Dourado (PA), começou a ser erguida no início dos anos 2000 e virou pilares abandonados.

Mesmo pronta, ela levaria a outra margem norte do Amazonas, ainda separada da malha nacional pelo rio. Uma ligação de fato exigiria vencer o próprio Amazonas.

Na prática

Dentro do estado, a BR-156 tem 355 de seus 796 km sem asfalto. Um estudo da Unifap mostrou que transportadoras perdem até 20% da mercadoria nas chuvas entre Calçoene e Oiapoque. Um morador indígena ouvido por pesquisadores da Uece explicou a demora da obra: os espíritos da floresta ainda não teriam dado permissão.

O próprio licenciamento do poço esbarrou na distância. Um animal atingido por óleo levaria de 22 a 31 horas até o centro de reabilitação da Petrobras em Belém, e o Ibama exigiu uma base no Oiapoque.

E se o petróleo vierA Petrobras estima até sete anos para começar a produzir, e a operação offshore depende de mar e ar, não de estrada. A pressão cairia sobre o porto de Santana, que movimentou um recorde de 3,8 milhões de toneladas em 2025, sobre os aeroportos e sobre as cidades.

Oiapoque já sente o efeito, com ocupações irregulares e aluguéis em alta. “Os benefícios do petróleo não chegaram, mas as consequências já”, disse o prefeito, Inácio Maciel, à Folha.

A CNI calcula que a Margem Equatorial pode elevar o PIB amapaense em até 61,2%. A experiência local sugere cautela: Calçoene ganhou asfalto em 2007 e não se desenvolveu mais que Oiapoque, segundo a Unifap. Estrada sozinha não basta, e petróleo sem planejamento tende a repetir Macaé.

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1 Comentário
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Santiago 25 de outubro de 2026

Ponte ou túnel cruzando o Amazonas, esquece!!!
Talvez uma estrada cruzando a ilha de Marajó, com travessia em navios-balsa e catamarãns pra Macapá em uma ponta e pra Belém na outra.