Eleição, guerra e copa: preço do carro usado vai cair?

Movimentações recentes no mercado de carros zero quilômetro reacenderam rumores antigos sobre uma possível redução nos valores.

Venda de Carros Usados bate recorde em 2025
Fatores como a taxa Selic, que impacta no custo do financiamento, é um dos entraves no varejo de usados (Foto: Shutterstock )
Por Lucas Silvério
Publicado em 05/04/2026 às 09h00

O último grande aumento nos preços dos veículos ocorreu durante a pandemia de Covid-19, quando, por diversos fatores — como alta demanda e falta de insumos —, o automóvel novo praticamente dobrou de valor. Hoje, pouco mais de seis anos após o período, o brasileiro ainda sonha com uma melhora nos preços, nem que seja no mercado de usados.

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Segundo o presidente da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), Everton Fernandes, a instabilidade do mercado em 2026 é multifatorial. Eleições, conflitos internacionais e o crescimento no varejo de usados podem frustrar a expectativa de queda nos preços dos veículos.

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Um dos principais gatilhos para rumores de redução nos preços foi o lançamento do Caoa Tiggo 5X Sport, um SUV tecnológico apresentado por R$ 119.990 em fevereiro. De repente, surgiu uma corrente nas redes sociais que os atributos do SUV iriam arrefecer a demanda de usados, que por sua teriam seus preços reduzidos.

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Modelo é a grande aposta da marca para este primeiro semestre (Foto: Caoa | Divulgação)

Mesmo custando atualmente R$ 124.990, o modelo chamou atenção pelo pacote tecnológico, que na marca costuma superar o de muitos concorrentes diretos. Neste caso, aproxima-se até de modelos maiores, como o Tiggo 8. Essa combinação coloca o Tiggo 5X em um patamar próximo ao de SUVs médios/grandes que ultrapassam os R$ 200 mil.

Apesar do impacto, o presidente da Fenauto ressalta que movimentos isolados dificilmente afetam todo o mercado.

Eventualmente, um lançamento pontual pode gerar algum ajuste localizado em modelos diretamente concorrentes, mas isso não significa uma queda generalizada de preços no mercado de usados”, afirmou o executivo.

Ele destaca ainda que o comportamento dos preços de carros seminovos e usados depende de uma série de fatores além do valor dos veículos novos: oferta e demanda, custo do crédito, taxa de juros, confiança do consumidor, renda das famílias e o ritmo de produção e vendas de veículos 0 km.

A taxa Selic, por exemplo, serve de base para os juros da economia brasileira. Definida pelo Banco Central do Brasil, ela atualmente se encontra acima de 14%, mesmo após o início de um ciclo de queda. O patamar é considerado elevado e não era observado desde 2016.

Na prática, isso mantém o crédito caro, impactando diretamente o financiamento de veículos e levando consumidores a adiar a compra ou migrar para modelos mais acessíveis. E no segmento de usados, quanto mais velho for o automóvel, mais caro é o juros aplicado, para mitigar os impactos de inadimplência e um possível recuperação do veículo pela entidade financeira.

Crises globais, eleições e carros usados

Cenários globais adversos também impactam o mercado automotivo. Durante a pandemia de Covid-19, houve forte aumento nos preços dos carros novos: a escassez de matéria-prima reduziu a oferta, enquanto o dólar elevado encareceu insumos importados. Os usados acompanharam esse movimento, impulsionados pela alta demanda e pela falta de veículos zero-quilômetro.

Atualmente, a crise no Oriente Médio preocupa o setor. Conflitos envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel afetam a principal rota estratégica de petróleo do mundo, o Estreito de Ormuz, elevando o preço do barril e pressionando custos em toda a cadeia automotiva.

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Ataques a navios petroleiros intensificam ainda mais a alta dos preços (Foto: Reprodução | Redes Sociais)

Além disso, o Brasil vive um ano eleitoral, e decisões políticas também podem influenciar diretamente os preços dos veículos.

Expectativa de melhora

Há uma tendência de redução gradual da Selic ao longo de 2026 e, com crédito mais acessível, a adesão aos veículos zero-quilômetro pode crescer. Ainda assim, o mercado de usados segue estável, sem perspectivas claras de queda nos preços.

“Nos últimos anos, o mercado de usados ganhou ainda mais relevância no Brasil exatamente por oferecer uma alternativa mais acessível ao consumidor. Em 2025, por exemplo, foram comercializados cerca de 18,5 milhões de veículos usados no país, o que mostra a força e a dimensão desse segmento”, afirmou Fernandes.

Ele ainda destaca que a expectativa da Fenauto é de “continuidade de um mercado ativo, mas sempre com cautela em relação a previsões de preço”.

“Nos primeiros dois meses de 2026, as vendas cresceram quase 8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Se nenhuma variável externa impactar de forma significativa e projetarmos esse mesmo crescimento para os meses restantes do ano, deveremos fechar 2026 com aproximadamente 20 milhões de transações no mercado de usados”, finalizou.

Retrato do mercado

Ou seja, para que o carro usado perca preço, é preciso que a oferta de automóveis novos aumente e com preços menos indigestos. É um cenário muito distante da realidade do Brasil. Para se ter uma ideia, a indústria opera com uma capacidade ociosa elevada. O parque fabril brasileiro poderia entregar 4,5 milhões de automóveis de passeios e comerciais leves por ano, mas o número de emplacamentos de 2025 foi de 2,6 milhões (considerando os importados que aumentam ainda mais a capacidade ociosa).

Desse total, 51,4% dos automóveis e comerciais leves emplacadas foram vendidos na modalidade de venda direta. Ou seja, comprados por pessoas jurídicas, como frotistas e locadoras em sua grande maioria. Assim, em um mercado de quase 220 milhões de habitantes, menos de 1,3 milhão compra um carro novo por ano.

Nesse cenário, a indústria se ajustou para produzir em menor volume, com preços mais elevados. Basta ver que o carro popular desapareceu e hoje há poucas opções de carros novos abaixo dos R$ 100 mil. Diante disso, o que resta para grande parte dos brasileiros é comprar um carro usado e como disse Fernandes, não será o Tiggo 5X que irá mudar esse cenário.

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1 Comentário
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Santiago 5 de abril de 2026

Variáveis de mercado, guerras, ajustes de oferta e demanda….tudo conversa furada, no atual caso do Brasil.
Certamente o mercado automotivo brasileiro tem a maior taxa de lucro por unidade no mundo inteiro, muito maior do que em qualquer outro país.
E assim continuará sendo enquanto consumidores aceitarem pagar alegremente entre $ 150 mil e $ 200 mil por hatches travestidos de “SUV”.
Se der doce pra criança birrenta, a birra continua…

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