Seu carro foi ‘modelado’ pelo tributo que incide sobre ele
Sabia que a indústria desenvolve seus carros para atender a regras tributárias, muito antes de uma tendência de mercado ou de uma linguagem de marca?
Publicado em 29/08/2026 às 09h00
Há poucos dias, a Jeep apresentou o Avenger, seu novo SUV compacto que irá concorrer no segmento de acesso dos utilitários. O jipinho, literalmente, chegou com preço promocional de R$ 115 mil, o que chamou a atenção do mercado, com a missão de tomar vendas de modelos como Volkswagen Tera, Renault Kardian e até mesmo de parentes como Fiat Pulse e Citroën Basalt.
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Mas um ponto que também despertou curiosidade foi a redução da potência do motor T200 1.0 turbo. A unidade, que estreou em 2021 com o Fiat Pulse, sempre entregou 130 cv e 20,4 kgfm de torque. Mas, no Avenger, ele apareceu com 115,8 cv.
A queda de 14 “potros” tem sua justificativa: tributação. A redução se fez necessária para enquadrar o modelo nas regras do programa Mobilidade Verde e Inovação, o Mover, do governo federal, que passa a utilizar novos critérios tributários para os automóveis a partir de 2027. Isso porque a carga tributária do automóvel passará a considerar uma série de fatores ligados à eficiência energética, à tecnologia de propulsão, à potência, à segurança e à reciclabilidade, e não mais apenas o tamanho do motor.

Cada requisito não cumprido amplia o valor recolhido e torna o carro menos competitivo. No caso da potência, veículos com até 85 kW, o equivalente a aproximadamente 115,6 cv, não recebem acréscimo na alíquota por esse critério. Acima desse limite, até 105 kW, o IPI aumenta 0,75 ponto percentual. E, como é híbrido leve flex-fuel, o Avenger também recebe desconto de mais 1 ponto percentual.
A ideia é estimular a indústria a adotar novas tecnologias para que seus carros sejam mais competitivos e eficientes. E tudo isso abre uma discussão sobre como a indústria molda seus automóveis diante das regras tributárias.
Redução da potência é um ajuste simples, basicamente demanda alteração da calibração da central eletrônica, sem a necessidade de substituição de componentes. Modelos como o Chevrolet Sonic também estrearam com a nova calibração. A Renault, por sua vez, preferiu manter os 125 cv do motor TCe 1.0 turbo que equipa o Kardian. Para reduzir o peso tributário, o carro passou por outros ajustes que não penalizassem a potência, como redução do peso.

Antes das regras do Mover, vigorava (e ainda vigora, até a entrada do novo sistema) uma política tributária que concedia tratamento favorecido aos automóveis populares equipados com motores de até 1.000 cm³. O modelo foi consolidado em 1993, com a redução do IPI para veículos populares e condições específicas relacionadas à nacionalização e ao preço dos automóveis.
O Fiat Uno Mille foi um dos primeiros carros da nova geração de modelos 1.0 e logo surgiram vários outros automóveis compactos com motores de mesmo deslocamento. A indústria passou a investir pesado em soluções para melhorar o desempenho dos motores: aumento da taxa de compressão, redução do número de cilindros e aprimoramentos na alimentação. Tudo para atenuar o baixo torque dos primeiros blocos 1.0.
Turbo e o carro 1.0 de luxo
Mas o grande pulo do gato veio com o chamado downsizing, um movimento que ganhou força lá fora, no final dos anos 2000, para reduzir o tamanho dos motores sem perda de desempenho.
Uma das soluções foi a massificação do turbocompressor, que foi redimensionado para entregar mais força em uma ampla faixa de rotações. O turbo é uma solução antiga, mas que durante décadas não se mostrou plenamente satisfatória e sempre foi vista com desconfiança.
Isso porque turbinar um motor exige reforçar o bloco, o cabeçote e as partes móveis para suportar o aumento de temperatura e pressão. Não era raro que motores originalmente aspirados, quando turbinados sem as modificações necessárias, apresentassem quebras prematuras.

Além disso, os turbos antigos sofriam com o chamado turbo lag, que é a falta de pressão da turbina em baixas rotações, devido ao pouco volume de gases de escapamento para girar o rotor. Isso demandava cuidado na condução para não receber uma pancada de torque e tornar o carro incontrolável quando a turbina enchia para valer.
Com a questão do turbo resolvida, a indústria nacional viu que poderia vender carros mais qualificados recolhendo menos impostos. Apesar de Ford e Hyundai terem se aventurado nos carros 1.0 turbo nos anos 2010, foi a Volkswagen quem fez o dever de casa.
Em 2015, a marca lançou o up! TSI, com motor 1.0 turbo de 105 cv e 16,8 kgfm de torque. Logo em seguida, aplicou o motor no Golf como opção de entrada.
Com a chegada do Polo, em 2017, o motor 200 TSI já era mais que aprovado, com seus 128 cv e 20,4 kgfm de torque. A VW logo instalou o bloco no Virtus e, posteriormente, no T-Cross.
Na época, executivos de marcas concorrentes esbravejavam que a Volks vendia carro de luxo com imposto de popular. Não demorou para que General Motors, Stellantis e Hyundai seguissem o mesmo caminho, e o motor 1.0 já não é mais sinônimo de letargia.
Tributo define carros no mundo todo

Definir limites físicos para tributar automóveis não é uma exclusividade do mercado brasileiro. No Japão, vigora desde o pós-guerra a categoria dos keijidōsha, que conhecemos como kei car. Trata-se de uma categoria de automóvel compacta, criada para estimular a mobilidade e a economia japonesa no período de reconstrução do país após a Segunda Guerra Mundial.
A configuração atual da categoria foi estabelecida em 1998 e define que o kei car não deve superar 3,4 m de comprimento e 1,48 m de largura. A altura máxima é de 2 m, e o motor não pode superar a capacidade volumétrica de 660 cm³.

Na Índia, uma das regras de tributação também envolve o comprimento total do veículo. Carros com até 4 m, equipados com motores com deslocamento de até 1,2 litro para gasolina, CNG ou LPG, e até 1,5 litro para diesel, recebem tratamento tributário específico para automóveis compactos.
Um exemplo que conhecemos bem é o Citroën C3. O modelo foi desenvolvido em parceria com o time de engenharia da Stellantis na Índia. Com 3,98 m de comprimento, o compacto atende à regra tributária que considera fatores como a medida externa.
Elétricos chineses
A China se tornou uma potência global em eletrificação graças a uma ampla política de incentivos concedidos para estimular a venda de carros elétricos e híbridos. Desde 2009, o governo central e as administrações locais adotaram medidas que incluíram investimentos em infraestrutura, financiamento, subsídios e isenções tributárias para estimular o setor. Estimativas sobre o volume total de recursos variam de acordo com a metodologia utilizada.

Recentemente, a política chinesa passou a reduzir alguns incentivos diretos e a transferir o foco para mecanismos tributários e medidas de mercado. Os subsídios nacionais diretos à compra de veículos de nova energia já foram encerrados, enquanto algumas isenções e reduções tributárias continuam em processo de transição e redução gradual.
Entre as medidas que ajudam a estimular a adoção de veículos eletrificados em algumas cidades chinesas está o tratamento diferenciado para placas de licenciamento. Em grandes centros, a obtenção de uma placa para veículos a combustão pode envolver leilões ou sorteios, enquanto os veículos de nova energia recebem tratamento mais favorável. Os valores e as regras, no entanto, variam conforme a cidade.
Assim, as regras tributárias modelam e forçam a indústria não apenas a se ajustar para cada mercado. As medidas forçam os fabricantes a buscar inovações. Hoje, um motor 1.0 turbo entrega mais força que um motor 2.0 aspirado de 20 anos atrás ou um bloco de seis cilindros de 60 anos. Evoluir é preciso (e necessário), mesmo que seja na base da canetada ou doendo no bolso.
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