Derrapagens do Inmetro

Apesar de interessar diretamente ao bolso do consumidor, governo não exige classificar pneu brasileiro conforme sua durabilidade

Por BORIS FELDMAN14/05/17 às 13h16
(Fabiano Azevedo/AutoPapo)

Dá para confiar num produto com adesivo de qualidade emitido pelo Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro), do Ministério da Indústria e Comércio (MDIC)?

Nem sempre.

Principalmente quando se trata de pneus remoldados, aqueles fabricados a partir da carcaça de um usado.

O Inmetro derrapou feio no passado, ao emitir a “nota técnica” de número 83, sobre a reforma de pneus. O documento classificava o remoldado como “novo” e foi tão escandalosamente favorável às empresas de remoldagem que o próprio órgão reconheceu mais tarde o absurdo cometido e desmentiu oficialmente a nota.

Outro deslize do órgão: ao estabelecer requisitos e parâmetros para a remoldagem de pneus, o órgão determinou, tim-tim por tim-tim, como deve ser fabricado. Mas cedeu novamente aos fabricantes ao se “esquecer” de exigir — como na Europa — que as características originais da carcaça continuassem estampadas na banda lateral do remoldado.

Ou seja, preocupadas com a segurança, as normas europeias para a remoldagem estabelecem que os índices de carga, velocidade e peso do pneu original permaneçam depois do reaproveitamento da carcaça.

No Brasil, por omitir esta informação, o motorista corre o risco de adquirir um par de pneus remoldados externamente idênticos. Mas as carcaças podem ter sido projetadas para automóveis de comportamento distinto. Uma para equipar um Porsche. A outra, para uma picapinha chinesa de cachorro-quente. Imaginem a diferença de comportamento de ambos numa curva ou numa freada brusca…

Outro absurdo foi autorizar os remoldados em motos, apesar de proibidos (qualquer pneu reformado) no Primeiro Mundo.

Agora, o Inmetro derrapa novamente, ao criar a etiqueta dos pneus. Ela já está dependurada em alguns deles e será obrigatória a partir de abril de 2018. Traz três informações importantes:

1 – aderência no piso molhado –indica seu comportamento quando se aplicam os freios no asfalto molhado.

2 – resistência à rolagem – O composto de borracha pode facilitar ou dificultar a rolagem do pneu. Quanto mais difícil, maior potência será exigida do motor para movimentar o carro, o que resulta em maior consumo de combustível.

3 – nível de ruído – Medido em decibéis, diz respeito ao conforto dos passageiros.

A etiqueta do pneu segue a mesma classificação estabelecida pelo Inmetro para o consumo de combustível dos automóveis: letra “A” para os melhores e “E” para os piores em cada item avaliado.

Entretanto, ninguém duvida de que o maior interesse de um motorista, ao adquirir pneus de reposição, é sua durabilidade. E o Inmetro derrapou mais uma vez ao se “esquecer” de exigir esta informação.

Se dois pneus custam o mesmo, mas um deles roda 50% mais, ele será preferido pela maioria dos consumidores. Ainda que tenha uma classificação pior de ruído, por exemplo.

Obrigatório nos EUA há quase 40 anos, a durabilidade do pneu é indicada por um índice, o tread wear number. Não se trata de um valor absoluto, mas referencial. A indústria determinou o número 100 como valor padrão. E o pneu é classificado de acordo com sua durabilidade acima ou abaixo deste índice. Se ele roda apenas 70% do padrão, terá registrado em sua banda lateral o número “70”. Se roda três vezes mais que o padrão, seu índice será 300 (note o espaço sobrando na imagem de abertura, destinado ao tread wear number).

Este valor não corresponde à quilometragem que vai rodar, que depende do automóvel e do motorista: peso, tipo de asfalto, velocidade média, etc.

O índice foi estabelecido pelo NHTSA, órgão governamental de segurança rodoviária nos EUA. Quem testa o pneu e atribui o Tread Wear Number é seu fabricante, mas o NHTSA pode desferir umas “incertas” para aferir a veracidade do número estampado em sua banda lateral.

Boris Feldman

Jornalista e engenheiro com 50 anos de rodagem na imprensa automotiva. Comandou equipes de jornais, televisão e apresenta o programa AutoPapo em emissoras de rádio em todo o país.

Boris Feldman

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