Inmetro derrapa feio na etiquetagem de pneus

O órgão não exigiu exatamente o que mais interessa ao motorista: a durabilidade do pneu

Por Boris Feldman11/03/18 às 09h30

Depois das geladeiras, o Inmetro criou o Programa de Etiquetagem Veicular de Consumo. Todas as marcas presentes no mercado brasileiro foram obrigadas a aderir ao programa para fazer jus aos benefícios do Inovar Auto, plano que vigorou até o final de dezembro de 2017 e que contemplou – com redução de impostos federais – o aumento da eficiência energética de seus modelos.

Todos os carros comercializados no país passaram obrigatoriamente a exibir no showroom a etiqueta de consumo, registrando quanto bebe aquele modelo e o classificando em relação aos concorrentes do mesmo segmento.

Agora é a vez dos pneus: a partir de abril, todos os comercializados no Brasil deverão ostentar uma etiqueta que os classificam de acordo com três características.

Inmetro pneu: órgão derrapa feio ao certificar

A primeira é o atrito com o piso, que resulta num maior ou menor consumo de combustível. A segunda indica seu comportamento no asfalto molhado: confere maior ou menor aderência que os concorrentes? A terceira característica é o ruído que emite, medido em decibéis.

Entretanto, o Inmetro não exigiu exatamente o que mais interessa ao motorista: qual pneu tem maior durabilidade? Qual marca roda mais antes de exigir substituição?

Em outros países, este índice é obrigatório e chamado em inglês de Treadwear. Talvez você já o tenha visto na banda lateral de um pneu fabricado no Brasil para exportação, ou num carro importado. Ele varia de 60 a 700 e não reflete objetivamente a durabilidade, pois se trata apenas de um referencial.

A duração de um pneu varia em função do piso, calibragem, cuidados do motorista, peso do carro, qualidade do asfalto, alinhamento da direção e outros fatores. O índice Treadwear é determinado (nos EUA) numa prova a que são submetidos os pneus instalados em carros semelhantes que rodam a mesma distância (9.600 milhas ou 15.500 km) à mesma velocidade, no mesmo tipo de asfalto e se avalia então seu desgaste.

O pneu que se desgasta de acordo com um padrão estabelecido pelo governo tem índice 100. Mas se ele atinge apenas 60% da quilometragem padrão, seu Treadwear é 60. O pneu capaz de rodar o dobro do padrão faz jus ao índice 200, e assim por diante.

Quando o Inmetro divulgou a etiqueta pneumática, eu imediatamente o questionei a respeito do Treadwear e obtive a mais tosca das respostas: que a durabilidade depende das condições de utilização e não dá para determinar a quilometragem que ele vai atingir. O órgão imagina estar lidando com ignorantes que desconhecem como se determina o índice em outros países. E a obviedade de ser impossível estabelecer objetivamente, mas apenas referencialmente a durabilidade.

Aliás, o Inmetro já deu inúmeras demonstrações de incompetência ao estabelecer padrões de certificação do setor. Derrapou feio ao cuidar de pneus: pressionado por empresas do setor, chegou a emitir documento afirmando que pneu remoldado se enquadrava como novo (e não como remanufaturado). Percebeu o tamanho da encrenca e voltou atrás. A própria certificação de pneus remoldados “esqueceu” de exigir o registro das características originais da carcaça.

Decidiu recentemente estabelecer a certificação de peças de reposição mas se restringiu a vinte delas entre as milhares utilizadas num veículo. Algumas do motor, que não interferem com a segurança veicular – como pistões, anéis, bielas e bronzinas – foram agraciadas. Mas válvulas ou eixo de comando não foram contempladas. Apenas algumas ligadas à segurança foram incluídas, como rodas e fluido de freio. Mas, limpador de pararisa ficou de fora.

O Boris fala da falta de critério do Inmetro ao certificar peças de reposição. Escute!

A absoluta falta de critério do Inmetro neste processo faz levantar suspeitas de que o órgão apenas contemplou empresas que se “interessaram” em ter seus produtos submetidos ao processo de certificação. A inépcia do Inmetro coloca em dúvida a seriedade de seus propósitos e em risco a segurança veicular.

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9 Comentários

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  • LUIZ SANTOS 7 de dezembro de 2018

    Boa tarde, gostaria de saber se posso utilizar o Pneu 174/80 R14 no VW – Up, e se isso pode trazer algum problema de segurança.

  • Tiago 6 de maio de 2018

    Trocar pneus com 20 mil km?? Me desculpe, mas de onde tirou isso?!
    Tenho dois carros completamente diferentes, um Palio fire 1.0 é um Focus sedan 2.0 automático e NUNCA precisei fazer uma troca com menos de 50 mil km rodados. Meu uso é misto entre estrada e cidade.

    Meu pai tinha um astra e agora um Corolla. Também nunca trocou antes dos 50, até 60 mil.

    Minha cunhada tem um Onix com pouco mais de 50 mil km rodados e os pneus, originais, rodam pelo menos mais 5 mil.

    Meu sogro tem um Vectra 2000, 2.2, sua última troca foi com 55 mil km…

    • Horácio 20 de outubro de 2018

      Vc não entendeu o que o Bóris disse, 20.000km é o índice 100 % do Treadwear leia nas etiquetas o índice de pneu bom é de 270 a 320 ou seja 2.7 a 3.2 vezes 20.000 km

  • Helio Figueiredo 14 de março de 2018

    Boris,
    Bom mesmo seria se o Inmetro disponibilizasse todas as etiquetas em seu site. Assim, cada um poderia escolher o modelo mais adequado conforme suas necessidades.
    Do modo atual, só encontramos o que a loja vende, naquele momento, e olhe lá…

  • João Carlos Oliveira 13 de março de 2018

    A nossa etiqueta é igual à usada na Europa.
    Lá também não se coloca o treadwear na etiqueta. A durabilidade (treadwear) fica estampada na lateral dos pneus, como nos nossos, sem obrigatoriedade.

    Vocês estão por fora!

  • EDER S SIBILIN 13 de março de 2018

    Comprei 2 pneus para o Palio da empresa.. aro 14. Escolhi o Dunlop, pelo menor preço. Eu ia pegar o mais barato da linha, o Touring. Mas ao chegar na loja vi a etiqueta do Inmetro e a comparei com o modelo Enasave que estava ao lado e que era apenas R$16 mais caro. Não pensei 2x e peguei ele. Tem menor resistencia de rolagem e é bem melhor em piso molhado, além de mais silencioso. Mas realmente não tinha nada referente a durabilidade, acho que faltou algo mesmo.

  • Dyerre Fagundes 11 de março de 2018

    Absurdo completo sermos tratados desta forma por um órgão que a princípio deveria nos auxiliar nas decisões de compra. Penso que há de se ter uma “LavaJato” sobre o Inmetro para apurar não somente as condutas republicanas do órgão, mas principalmente para averiguar sua real capacitação técnica para inferir decisões, métodos e processos de avaliações, formulações de conceitos, etc sobre temas tão importantes envolvendo a segurança e economicidade.
    Dai eu me pergunto: Será que ninguém lá ouviu falar do Treadwear? Será que se julgam melhores e querem inventar uma outra metodologia para medir este indicador? Ou será que não quiseram se expor pereante algum “Lobby” do setor, ou não quiseram sair do lugar, se mexer, pesquisar, correr atrás…? Seria comodismo ? Seria parcialidade? Precisamos nos indignar coletivamente com esse assunto !
    E ai Boris? E agora? Quem poderá nos defender?
    Quais os proximos passos para corrigir esta não conformidade Boris?
    Ajude-nos nessa Boris !

  • paulo e.f. diehl 11 de março de 2018

    outro ”esquecimento” , provavelmente, com alguma vantagem pecuniária, deste credenciado órgão de controle dos produtos fabricados neste país, pois vejam as ”carroças” denominadas automóveis sem segurança ativa/passiva, que nos são vendidas a preço de ouro!!!

  • Rodrigo 11 de março de 2018

    Boris,

    Acompanho o seu trabalho a muitos anos, e sei da seriedade e do grau de conhecimento que você possui.

    Há mais de 10 anos descobrir o índice mencionado em questão, Treadwear, e tenho orientados familiares amigos e conhecidos sobre este referencial, por óbvio não se trata de uma questão a absoluta, pois depende de outros vetores para que se tenha uma durabilidade do pneu, contudo como fora claramente explicitado por você, existe o referencial!

    Possuo amigos moram nos Estados Unidos que dizem que as trocas de pneus, em condições normais de uso, ultrapassam os 70 mil km, logo esta verdadeira Caixa de Pandora tem que ser aberta, pois os pneus em nosso país tem durado aproximadamente 20000 km, pelo que tenho apurado, isto tudo levando consideração pessoas que dirigem em condições normais de uso, ou seja, famílias que não expõe seus veículos a condições severas.

    Portanto, estou com você nesta luta para que as empresas produtoras de pneus que entendo ser sérias façam testes respeitando o consumidor brasileiro, demonstrando qual é verdadeiramente a qualidade de seus produtos, distanciando-se de empresas meramente comerciais.

    Chega de sermos (brasileiros) tratados como inferiores à demais mercados.

    Forte abraço

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