Fornecedoras de peças deitam e rolam!

Se o fornecedor do componente é exclusivo, tanto as fábricas como o consumidor podem ser vítimas de obstáculos

Várias peças de carros reunidas em uma imagem shutterstock
Por Boris Feldman
Publicado em 08/07/2018 às 15h00

Fevereiro de 2002, véspera de carnaval. Na época, as quatro grandes fábricas de automóveis ainda dominavam o mercado brasileiro pois as “newcomers” ainda começavam a pintar no pedaço. Quem deu o alerta foi a Fiat: dois carros sendo testados em sua pista de Betim bateram por falta de freio em ambos. O fornecedor do componente defeituoso era a multinacional Continental Teves. Os engenheiros da Continental foram chamados às pressas em pleno recesso de carnaval para analisar o problema. Concluíram que o defeito, na pinça de freio, não estaria apenas nos carros da Fiat, mas também nas outras três grandes: Ford, GM e Volkswagen recebiam o mesmo componente. E o pior: ela era fornecedora exclusiva das quatro, exceto da VW que comprava também de uma outra. O que significava a necessidade de um imediato recall de todas as dezenas de milhares de carros, quase toda a produção nacional nas últimas semanas dos automóveis equipados com aquele componente.

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Fui durante vinte anos engenheiro da Metal Leve, fábrica brasileira de peças para motores (pistões e bronzinas) entre as maiores do mundo. Na época (décadas de 70 e 80) ela era uma das únicas do Brasil a fornecer com exclusividade para toda a indústria automobilística, contrariando uma política das fábricas de dividir o fornecimento entre no mínimo duas delas. Exceção por um simples motivo: não existia outra no Brasil de seu porte nem com seus padrões de qualidade que pudesse ser qualificada como fornecedora depeças da indústria. Pelo contrário, a Metal Leve tinha fábrica também nos EUA e disputava o mercado mundial com outras grandes do setor. Fornecia pistões para motores aeronáuticos nos EUA e para a Mercedes-Benz na Alemanha. O receio de concentrar todo o fornecimento numa única empresa era justificável: e se ela interrompesse sua produção por algum problema financeiro, incêndio ou greve dos funcionários? Ou resolvesse endurecer o jogo na negociação de preços? Se ela interrompesse o fornecimento por qualquer motivo, estaria também interrompida a produção da indústria automobilística.

A evolução e modernização do setor, a globalização e a abertura dos portos alteraram a política de compras das fábricas de automóveis, que passaram a concentrar o fornecimento de componentes numa única empresa, alegando que o maior volume de produção reduziria custos. Além disso, ampliaram o conceito de fornecimento e terceirizaram até a própria montagem, ao classificarem algumas delas como “sistemistas”: as que não entregam apenas o componente que produzem, mas agregam os de outras fornecedoras de peças montando todo um sub-conjunto. A fábrica de instrumentos, por exemplo, monta todo o painel. A de pneus já os fornece montados nas rodas.

Mas, na esteira desta política vieram também vários problemas. Recentemente, um recall de airbags atingiu mais de oitenta milhões de carros no mundo, todos com defeito no disparador da bolsa inflável produzido pela japonesa Takata, a maior do mundo neste segmento. Envolveu marcas asiáticas, europeias e norte-americanas.

A toda poderosa Volkswagen ficou parada no Brasil pois se desentendeu com uma gigante do setor de autopeças, a Prevent. E só não parou também na Alemanha pois a legislação lá é mais rigorosa que a brasileira e impediu a “greve” da empresa.

A política de concentrar todo o fornecimento de um componente numa empresa pode ter suas vantagens, mas criou distorções na indústria e também para o consumidor final. Pois são tão pesados os investimentos para produzir determinados componentes, como o airbag, que até o mercado de reposição fica nas mãos de poucas e gigantescas multinacionais. Que, sem a necessária e saudável concorrência no mercado, deitam e rolam…

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Boris Feldman

Jornalista e engenheiro com 50 anos de rodagem na imprensa automotiva. Comandou equipes de jornais, televisão e apresenta o programa AutoPapo em emissoras de rádio em todo o país.

Boris Feldman
2 Comentários
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Rodolfo 8 de julho de 2018

Caro Boris, boa noite!
…. Vejo que a culpa de todo esse monopólio é do nosso governo que não se preocupa com isso… e o outro culpado é o povo que paga o preço bem acima do justo em um carro 0 km… com o monopólio e imposto e ainda com o financiamento.
…. Assim se o povo não acordar e cobrar do governo vai continuar tudo sempre assim!
…. A solução estaria também de liberar geral a importação de automóveis, então fatalmente a indústria interna quebraria e somente as grandes Chinesas e Indianas sobreviveriam no mundo globalizado, pois lá os impostos são baixo e pode até existir trabalho “praticamente” escravo.
…. Assim nem 8 e nem 80, é chegada a hora de o governo incentivar a concorrência as indústrias internas do Brasil e reduzir a carga abusiva de impostos… e o povo devia boicotar o preço absurdo de um carro pé de boi a preço de Camaro Amarelo nos EUA.
Um forte abraço,
Rodolfo

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Rodolfo 8 de julho de 2018

Caro Boris, boa noite!
…. Vejo que a culpa de todo esse monopólio é do nosso governo que não se preocupa com isso… e o outro culpado é o povo que paga o preço bem acima do justo em um carro 0 km… com o monopólio e imposto e ainda com o financiamento.
…. Assim se o povo não acordar e cobrar do governo vai continuar tudo sempre assim!
…. A solução estaria também de liberar geral a importação de automóveis, então fatalmente a indústria interna quebraria e somente as grandes Chinesas e Indianas sobreviveriam no mundo globalizado, pois lá os impostos são baixo e pode até existir trabalho “praticamente” escravo.
…. Assim nem 8 e nem 80, é chegada a hora de o governo incentivar a concorrência as indústrias internas do Brasil e reduzir a carga abusiva de impostos… e o povo devia boitotar o preço absurdo de um carro pé de boi a prço de Camaro Amarelo nos EUA.

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