Carro a álcool é orgulho do Brasil, mas ideia já era defendida por Henry Ford há um século
Aposta defendida por Henry Ford há mais de um século sustenta o Proálcool, os motores flex e a nova geração de híbridos a álcool
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 18/09/2026 às 11h00
Nenhum país apostou tanto no etanol quanto o Brasil, e em três ondas: o Proálcool dos anos 1970, o flex a partir de 2003 e, agora, os híbridos que também aceitam álcool. A ideia por trás das três, entretano, tem mais de um século e nasceu longe daqui, com Henry Ford.
No início do século XX, o futuro do automóvel ainda estava em aberto. Muitos engenheiros apostavam na eletricidade; Ford, no álcool etílico, que tinha produção local, queimava mais limpo que a gasolina da época e livrava a indústria do petróleo importado. Para ele, o combustível do futuro viria do campo.
Por que a gasolina venceu duas vezes
A descoberta de grandes reservas de petróleo no início do século XX nos EUA derrubou o preço da gasolina, enquanto a rede de refinarias se expandia. A Lei Seca, entre 1920 e 1933, ainda tornou a produção de álcool praticamente ilegal, até para uso industrial.
A ideia voltaria ao debate no Brasil após o choque do petróleo de 1973. Como o país importava mais de 80% do que consumia, o governo Ernesto Geisel criou o Proálcool em 1975 para estimular a cana e o álcool no tanque. Em uma década, os carros movidos só a etanol chegaram a 85% das vendas de novos, recorde de 1985.
A liderança durou pouco: a queda do petróleo e a alta do açúcar tornaram a cana mais rentável para a alimentação do que para o tanque, e a falta de abastecimento minou a confiança do motorista. O etanol só recuperou espaço nos anos 2000, com o flex, que acabou com a obrigação de escolher um combustível.
A terceira onda está em curso. Desde agosto de 2025, a gasolina dos postos carrega 30% de etanol anidro, contra 27%. E a eletrificação chegou adaptada ao álcool: a Toyota lançou em 2019 o Corolla, primeiro híbrido flex feito no Brasil, e a BYD produz em Camaçari (BA) os plug-in flex Song Pro e Atto 2.
A conta é fiscal, não técnica
Na Europa, a aposta só prosperou onde o imposto permitiu. Na França, o litro do Superetanol E85, com 65% a 85% de álcool, sai por cerca de R$ 5,24 (0,88 euro), menos da metade dos R$ 13,27 (2,23 euros) da gasolina comum, porque a parcela de etanol é quase isenta de tributos. O consumo saltou 83% entre 2021 e 2022, no rastro da revolta dos coletes amarelos.
A França responde por 25% da produção europeia de bioetanol e detém 8% do mercado de superetanol. Alemanha (16%), Reino Unido (12%) e Espanha (11%) produzem em escala, mas não incentivam o E85: lá o etanol é taxado como gasolina e vai para as misturas E5 e E10 ou para exportação. A exceção foi a Suécia, entre 2002 e 2008.
Aqui, o etanol saiu por R$ 4,05 na média nacional de agosto, contra R$ 6,65 da gasolina comum, segundo a ANP. A paridade ronda os 70% que o tornam vantajoso no tanque dos flex, embora a expansão da cana siga sob escrutínio pela relação com o desmatamento.
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