Carros nunca foram tão bons, mas os recalls estão maiores do que nunca
Estudos de qualidade apontam a melhor evolução desde 1997, enquanto plataformas compartilhadas e falhas de software ampliam os chamados para a oficina
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 21/08/2026 às 09h00
Mais de 23 milhões de veículos foram convocados para recall nos Estados Unidos desde o início de 2026, segundo a Administração Nacional de Segurança Rodoviária (NHTSA). O volume é aproximadamente o dobro do registrado no mesmo período de 2025 e coloca o setor no caminho para superar o recorde anual de 31,3 milhões de unidades, estabelecido no ano passado.
O crescimento ocorre em um momento de melhora nos indicadores de qualidade dos carros novos. O Estudo de Qualidade Inicial (IQS), da J.D. Power, divulgado em junho, apontou a maior evolução anual da indústria desde 1997. A pesquisa considera os problemas relatados pelos consumidores nos primeiros 90 dias de uso.
O movimento não é exclusividade americana. Um levantamento mensal da autoridade reguladora chinesa que consolida dez mercados registrou, em novembro de 2025, 307 campanhas envolvendo cerca de 4,3 milhões de veículos. Só na China, os recalls de eletrificados cresceram 20% no primeiro semestre de 2025, atingindo 1,53 milhão de unidades. A Tesla convocou 1,2 milhão de carros no país em uma única campanha, resolvida por atualização remota.
No Brasil, a curva é a mesma. Dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) mostram que 999.393 veículos foram convocados entre janeiro e outubro de 2024, número que já superava o total de 2023, de 975.234 unidades. Em 2026, a Volkswagen conduziu as duas maiores campanhas do país: 117.798 carros por falha de software no painel digital, em maio, e 150.290 por defeito na alavanca do freio de estacionamento, em julho.
Indicadores que olham para o passado
A aparente contradição está no fato de que estudos de qualidade e recalls medem momentos diferentes. Para Paul Waati, diretor de análise da indústria da AutoPacific, os índices de qualidade são “indicadores antecedentes”, enquanto os recalls olham para trás, já que costumam envolver veículos produzidos anos antes.
A Ford ilustra bem o descompasso. Depois de anos entre as piores colocadas — era a 15ª marca de volume no IQS há dois anos —, a montadora aparece agora atrás apenas de Porsche e Genesis. Ao mesmo tempo, acumula cerca de 10,3 milhões de veículos em recalls em 2026 e pode superar o recorde anual de 13,6 milhões, estabelecido pela General Motors em 2014.
A literatura acadêmica já havia identificado o padrão. Em estudo publicado na revista Omega, Hilary Bates, Matthias Holweg, Michael Lewis e Nick Oliver analisaram 23,1 milhões de veículos emplacados no Reino Unido entre 1992 e 2002 e encontraram alta na frequência das campanhas: de menos de 50 por ano no início da série para mais de 120 anuais entre 1998 e 2002, sem correspondência com piora na confiabilidade percebida.
Peças compartilhadas e linhas de código
O uso de plataformas e componentes comuns faz com que uma única falha atinja milhões de unidades. Os airbags da Takata levaram 42 milhões de veículos de 34 marcas e 19 montadoras a recall nos Estados Unidos. O motor V6 defeituoso da Toyota equipa a picape Tundra e os Lexus LX e GX. No caso brasileiro da Volkswagen, os seis modelos convocados em julho dividem a arquitetura MQB-A0 — segundo a montadora, é o que explica o volume atingido.
Muda também o tipo de defeito. Falhas mecânicas, incêndios e perda de potência seguem entre as causas, mas os problemas de software ganham espaço à medida que os veículos se tornam mais complexos, com milhões de linhas de código passíveis de virar risco de segurança, como observa Waati. Em muitos casos, a correção dispensa a ida à oficina e é feita por atualização remota, recurso hoje presente em quase todos os lançamentos.
Há ainda uma mudança de estratégia. Segundo Frank Hanley, diretor sênior de benchmarking automotivo da J.D. Power, as fabricantes passaram a antecipar chamados, corrigindo defeitos conhecidos antes que o consumidor os perceba — o que reduz a chance de o problema ser registrado em pesquisas como o IQS. Pesquisa de Meike Eilert, Satish Jayachandran, Kartik Kalaignanam e Tracey Swartz publicada no Journal of Marketing, com 381 investigações de recall abertas entre 1999 e 2012, mostrou que marcas com reputação consolidada de confiabilidade tendem a levar menos tempo para anunciar a convocação, mesmo em falhas graves.
O custo é alto. A Ford informou ter gasto cerca de US$ 10 bilhões, ou aproximadamente R$ 51,8 bilhões pelo câmbio desta quinta-feira (20), com garantias e reparos ligados a recalls no ano passado. No Brasil, o problema é outro: 3,8 milhões de veículos circulam sem o reparo, o equivalente a um em cada cinco convocados desde 2011, segundo Senatran e Senacon.
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Um carro moderno tem muito mais coisas agregadas e passíveis de problemas, só isso já explica a incidência de recalls. Num mundo hipotético onde não existisse airbags, o recall da Takata não existiria, porém muito mais gente morreria sem o equipamento. Se a Ford tivesse vendido milhões de carros com câmbio mecânico ao invés do Powershift, também não teria causado esse transtorno para os clientes e para ela mesma. Enfim, é mais negócio melhorar aquilo que vc já faz do que fazer apostas arriscadas em novas tecnologias, como essa da Ford.
Hoje os carros não são mais testados em pistas de testes, logo é confiado tudo isso em simulações em computadores e programas específicos.
Parece que algo está dando errado, logo a reputação das marcas está em jogo hoje em dia mais do que nunca.
