Etanol vai mudar de cor e ganhar gosto amargo para evitar fraudes em bebidas
Corante seria aplicado nas usinas; o aditivo amargo, apontado como solução definitiva, ainda depende de testes em motores e emissões
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 10/09/2026 às 19h00
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou um estudo que propõe pintar de verde o etanol hidratado vendido nos postos brasileiros a partir de 2027 e, em uma segunda etapa, deixar o combustível com gosto amargo. O objetivo é dificultar o desvio do produto para a fabricação clandestina de bebidas alcoólicas.
O relatório foi aprovado pela diretoria da agência em 2 de setembro e enviado três dias depois ao Ministério de Minas e Energia, que preside o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), e ao Tribunal de Contas da União (TCU).
O trabalho responde a diretrizes do CNPE e a recomendações do próprio TCU, formuladas depois do surto de intoxicações por metanol provocado por bebidas destiladas adulteradas no fim de 2025. A adição de corante verde é tratada pela ANP como solução provisória e seria feita ainda nas usinas produtoras, para facilitar a identificação visual do combustível em investigações de fraude.
A exigência depende da revisão da Resolução ANP nº 907, de 2022, que passará por análise de impacto regulatório, consulta e audiência públicas e votação da diretoria colegiada. A previsão de implementação em 2027 considera ainda um período de transição para usinas, distribuidoras e demais agentes do setor.
Gosto amargo é a solução definitiva
A medida apontada como definitiva é a adição obrigatória de benzoato de denatônio, substância de sabor extremamente amargo já usada em produtos de limpeza e higiene para evitar a ingestão acidental. Segundo a avaliação da agência, o sabor revelaria a fraude ao consumidor no primeiro contato com a bebida adulterada.
Para essa etapa, no entanto, não há prazo definido. Como não existe precedente de uso do composto em combustível destinado a motores, a ANP condicionou a obrigatoriedade a testes mecânicos e de emissões, para comprovar que o aditivo não compromete o funcionamento dos veículos, a qualidade do produto nem o controle de poluentes.
Indústria pede programa de validação
Procurada pelo g1, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) afirmou em nota não dispor de base técnica para avaliar o impacto da substância nos sistemas de alimentação e de escape dos motores a combustão, por não haver histórico representativo de aplicação em etanol combustível.
A entidade defendeu um programa de validação com ensaios de durabilidade e de emissões e pediu que tanto o desnaturante quanto o corante sejam isentos de metais, para evitar contaminação do catalisador.
Antes de concluir o estudo, a ANP ouviu produtores de etanol, distribuidoras, fornecedores de corantes, empresas de inspeção de qualidade, representantes da indústria automobilística e do setor de cachaça, além de realizar testes físico-químicos em seu Centro de Pesquisas e Análises Tecnológicas.
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