Fábrica da Volkswagen poderá fabricar equipamentos militares de Israel e gera polêmica no país
Unidade de Osnabrück perde o T-Roc Cabrio em 2027 e tem 2.300 empregos em risco sem um novo produto na linha de montagem
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 01/09/2026 às 09h00
A Volkswagen e o estado alemão da Baixa Saxônia negociam uma manobra societária para destravar a conversão da fábrica de Osnabrück em polo de produção de equipamentos para o Iron Dome, o sistema israelense de defesa aérea. O objetivo é contornar a resistência do fundo soberano do Catar, terceiro maior acionista da montadora.
A saída em estudo é engenhosa. Em vez de fechar uma parceria direta com a israelense Rafael Advanced Defense Systems, a Volkswagen transferiria parte da unidade à Baixa Saxônia. O estado, então, criaria uma empresa conjunta com a Rafael. Na prática, a montadora sai da linha de frente do negócio e o governo regional assume o papel de sócio.
Segundo a Bloomberg, o estado colocaria cerca de 200 milhões de euros na operação, e a assinatura poderia sair já em setembro. Não há acordo fechado, e as conversas continuam.
O impasse tem nome e endereço: o Qatar Investment Authority detém 10,4% do capital da Volkswagen, 17% dos direitos de voto e dois assentos no conselho de supervisão, atrás apenas da Porsche SE e da própria Baixa Saxônia. Em junho, a Reuters revelou que o fundo havia levantado objeções às negociações, motivadas pela relação diplomática entre Doha e Israel, e não por cálculo financeiro. Sozinho, o Catar não consegue vetar o projeto, mas tem peso para atrasá-lo e cobrar concessões.
O que está em jogo em Osnabrück

A fábrica emprega 2.300 pessoas e perde seu único produto em 2027, quando termina a produção do T-Roc Cabrio. Meses de busca por um substituto não renderam nada. Em abril, a Volkswagen assinou uma carta de intenções com a Rafael para ocupar o espaço.
Assim, Osnabrück produziria equipamento de apoio ao Iron Dome, como caminhões pesados para transporte de mísseis, lançadores e geradores de energia. Os mísseis interceptadores continuariam saindo de Israel e dos Estados Unidos.
Para a Baixa Saxônia, que controla 20% dos direitos de voto da montadora, o cálculo é político e industrial. Sem novo projeto, a planta seguirá consumindo custos de pessoal, energia, manutenção e infraestrutura depois de parar as linhas. O primeiro-ministro do estado, Olaf Lies, que ocupa cadeira no conselho de supervisão da Volkswagen, afirmou que avalia como participar de uma solução industrial de longo prazo para o local.
Uma indústria em conversão
O movimento se encaixa na estratégia do presidente do Grupo Volkswagen, Oliver Blume, de encontrar parceiros e novos usos para fábricas sem produção automotiva competitiva. Ele confirmou publicamente as conversas em agosto, durante reuniões com trabalhadores sobre a reestruturação da empresa.
A escolha não é consensual. Osnabrück tem tradição pacifista, e ativistas e partidos de esquerda protestam contra o projeto, sob o argumento de que a Volkswagen deveria permanecer uma fabricante exclusivamente civil. A resistência ganhou volume quando se soube que a parceira seria uma estatal israelense.
Volkswagen e Rafael não comentaram os desenvolvimentos mais recentes. A Baixa Saxônia se limitou a confirmar que estuda formas de participar de uma eventual solução.
👍 Curtiu? Apoie nosso trabalho seguindo nossas redes sociais e tenha acesso a conteúdos exclusivos. Não esqueça de comentar e compartilhar.
|
|
|
|
X
|
|
|
Siga no
|
||||
Ah, e se você é fã dos áudios do Boris, acompanhe o AutoPapo no YouTube Podcasts:
Podcast - Ouviu na Rádio
|
AutoPapo Podcast
|
