Ford apostou na IA, perdeu bilhões e chamou 350 veteranos de volta para consertar erros do computador

Após problemas de qualidade ligados à automação desenfreada de processos, montadora trouxe de volta 350 veteranos para melhorar seus produtos novamente

Chicago Assembly Production 04
Na fábrica da Ford, a linha de produção automatizada precisou do reforço de engenheiros experientes para corrigir falhas de qualidade (Foto: Ford | Divulgação)
Por João Paulo Profeta
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 03/07/2026 às 20h00

A aposta da Ford na inteligência artificial para elevar a qualidade de seus carros saiu pela culatra — e a solução veio de onde menos se esperava. Depois de anos usando IA em suas fábricas nos Estados Unidos, a montadora acumulou problemas de qualidade que custaram bilhões de dólares, segundo apuração da Bloomberg. Para reverter o quadro, trouxe de volta 350 engenheiros e técnicos veteranos, parte deles ex-funcionários, parte vinda de fornecedores da marca.

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A conclusão interna foi a de que a tecnologia, sozinha, não substitui o conhecimento acumulado em décadas de linha de produção. “A inteligência artificial é uma ferramenta fantástica, mas sua eficácia depende da informação com a qual é treinada”, disse Charles Poon, vice-presidente de engenharia de hardware de veículos da Ford, em coletiva por telefone citada pela Bloomberg.

Segundo Poon, os sistemas automatizados não carregavam o repertório prático dos profissionais experientes, capazes de identificar pontos frágeis antes que uma peça sequer chegue à fábrica. “Achávamos, de forma equivocada, que bastava introduzir a IA e inserir nossos requisitos de projeto para obter um produto de alta qualidade”, afirmou o executivo.

Kumar Galhotra, diretor de operações (COO) da companhia, reconheceu que a dependência crescente dos sistemas de qualidade automatizados vinha entregando resultados aquém do esperado. A empresa passou, então, a realizar reuniões obrigatórias em que os veteranos analisam cada problema e ajudam a reprogramar as ferramentas de IA para antecipar falhas.

No estudo de qualidade inicial de 2026 da J.D. Power, divulgado em junho, a Ford se tornou a marca mais bem avaliada entre as fabricantes generalistas — a primeira vez desde 2010 —, à frente de nomes tradicionais como a Toyota. Com 152 problemas a cada 100 veículos, a montadora ficou em terceiro lugar na classificação geral, atrás apenas das marcas premium Porsche e Genesis, e registrou a maior evolução anual do setor. F-150, Mustang e Super Duty lideraram seus segmentos pelo segundo ano seguido, e sete dos dez modelos avaliados terminaram entre os três primeiros de suas categorias, o maior aproveitamento entre as fabricantes. Em 2023, a Ford ocupava a 15ª posição entre as generalistas.

Para a Ford, o resultado coroa um esforço de qualidade que se estende por anos e reorganizou as áreas de engenharia, manufatura e cadeia de fornecedores. O episódio também produz um contraste com o discurso corrente da indústria: em meio ao temor de que a IA elimine milhões de empregos, foi a mão de obra veterana que a montadora chamou de volta para reprogramar as próprias máquinas.

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