Ford avisa funcionários que carros chineses devem invadir os EUA em breve
Preço médio do elétrico nos EUA é de R$ 286 mil; no México, um BYD sai por R$ 119 mil. Entenda a pressão sobre as montadoras
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 19/08/2026 às 15h00
A Ford começou a se preparar internamente para a chegada das montadoras chinesas ao mercado dos Estados Unidos em um prazo de cinco a dez anos, apesar da barreira tarifária de cerca de 100% que hoje inviabiliza a venda de elétricos importados da China no país. A avaliação foi apresentada pelo presidente-executivo da empresa, Jim Farley, a funcionários em uma reunião interna realizada em 30 de julho, segundo a agência Reuters, que ouviu três pessoas presentes ao encontro.
Na mesma reunião, Farley e outros executivos afirmaram considerar mais provável que a entrada ocorra no fim desse intervalo. Procurada, a Ford não comentou o teor da conversa. O presidente do conselho de administração da montadora, Bill Ford, já havia declarado que a empresa não pode contar com a exclusão permanente dos rivais chineses e precisa se preparar para vencê-los no próprio jogo.
Pressão deve vir do consumidor
Para analistas do setor, o movimento não depende apenas de Washington. Yale Zhang, diretor-gerente da consultoria Automotive Foresight, em Xangai, avalia que será difícil barrar os elétricos chineses de forma indefinida porque as montadoras americanas passariam a enfrentar reclamações de consumidores privados de modelos acessíveis. Em declarações ao jornal South China Morning Post, Zhang disse que a pressão deve aumentar à medida que México e Canadá absorverem carros chineses de bom custo-benefício.
A diferença de preços ajuda a explicar o desconforto de Detroit. O preço médio de um elétrico novo nos Estados Unidos era de R$ 286 mil (US$ 55,3 mil) em fevereiro, segundo a Kelley Blue Book. No México, onde as marcas chinesas já têm presença consolidada, o BYD Dolphin Mini parte de R$ 119 mil (399.800 pesos mexicanos). Na China, o mesmo carro, vendido como Seagull, custa a partir de R$ 54 mil (69.900 yuans).
No Brasil, o modelo sai mais barato que no México
O mercado brasileiro mostra o que acontece quando a barreira não existe. O Dolphin Mini é oferecido aqui a partir de R$ 109.990 na versão GL para pessoa física, valor abaixo do praticado no México, e em março se tornou o primeiro elétrico a figurar entre os dez carros mais vendidos do país, com 7.053 emplacamentos.
Nos Estados Unidos, além da tarifa, vigora a regra do Departamento do Comércio que proíbe software chinês em veículos conectados a partir do ano-modelo 2027 e hardware a partir de 2030, norma que já tirou a Polestar do mercado americano. Um projeto aprovado em comissão do Senado em julho vai além e barraria qualquer fabricante com mais de 15% de capital chinês. No Canadá, o caminho é o oposto: acordo com Pequim reduziu de 100% para 6,1% a tarifa sobre uma cota de 49 mil elétricos chineses por ano.
Enquanto isso, a Ford desenvolve uma família de elétricos de baixo custo projetada do zero para igualar o custo e a eficiência industrial das rivais chinesas. Na Europa, cedeu parte da fábrica de Almussafes, na Espanha, à Geely, que passa a produzir no continente sem esbarrar nas tarifas europeias.
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