Mão de obra barata no Brasil atrasa avanço dos ‘táxis sem motoristas’, diz chefe da Uber
Uber prevê que carros autônomos podem levar décadas para se tornarem viáveis no Brasil devido ao baixo custo das corridas com motoristas
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 01/09/2026 às 14h00
Brasil e Índia não são apenas mercados que vão receber os táxis autônomos com atraso. Segundo o presidente e diretor de operações da Uber, Andrew Macdonald, os dois países vão segurar o calendário mundial da tecnologia, e o motivo é o preço da mão de obra humana por aqui.
Em entrevista ao podcast 20VC, Macdonald disse não saber estimar quando a maioria das corridas da Uber será feita sem motorista. Para ele, isso depende sobretudo de a tecnologia chegar aos grandes mercados de viagens, e Brasil e Índia estão entre eles. Enquanto não chegar, o relógio global não avança.
A conta que não fecha
O obstáculo é aritmético. Uma corrida no Brasil custa, em média, entre US$ 3,50 e US$ 4, algo entre R$ 18 e R$ 21. Na Índia, o valor cai para a faixa de US$ 2,50 a US$ 3, de R$ 13 a R$ 16. Esse é o preço da viagem inteira, e o motorista fica com a maior parte dele, segundo a empresa.
Para a Uber, o motorista é um custo que só existe quando há corrida. Quem compra o carro, abastece, faz revisão, paga seguro e absorve a desvalorização é ele. A plataforma entra com o aplicativo e leva uma comissão.
O robotáxi inverte essa lógica. O veículo é da frota, custa bem mais que um carro comum por causa dos sensores, do lidar e do computador de bordo, e se desvaloriza rodando ou parado. Some a isso pátio, limpeza, seguro, mapeamento e operadores remotos que acompanham os carros à distância. Tudo isso é custo fixo, pago haja corrida ou não.
A substituição só compensa, portanto, onde a tarifa é alta o bastante para que o dinheiro economizado com o motorista cubra a amortização de um carro muito mais caro. Numa viagem de R$ 20, não sobra margem para isso. Em cidades americanas, a mesma corrida custa várias vezes mais, e é justamente por isso que os testes começaram lá.
Onde a Uber já roda sem motorista
San Francisco e Los Angeles estão entre os mercados em que a empresa já opera com veículos sem condutor. Mesmo nessas cidades, a operação com motoristas humanos segue sendo a espinha dorsal da plataforma.
A Uber faz cerca de 300 milhões de viagens por semana no mundo. As corridas autônomas somam alguns milhões por mês. É um arredondamento dentro da operação.
A companhia também não desenvolve a tecnologia por conta própria. Durante a pandemia, quando a receita bruta da divisão de mobilidade despencou 84% em três semanas, a Uber vendeu a Advanced Technologies Group, sua área de direção autônoma. Macdonald afirma que a empresa não se via em posição de liderar aquele setor e preferiu concentrar recursos no negócio principal, fazendo parcerias com companhias especializadas.
Para o Brasil, a consequência prática é direta: enquanto o custo por quilômetro da tecnologia não despencar, o carro sem motorista continua mais caro do que o motorista.
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