Um Porsche Macan virou UTI móvel nas montanhas da Inglaterra
O Porsche Macan GTS de John Ferris tem sinalizadores, correntes para neve e transporta o equivalente a uma UTI móvel; nas folgas, é o carro da família
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 20/08/2026 às 11h00
No Lake District, região montanhosa do noroeste da Inglaterra, o veículo de emergência que costuma chegar primeiro não é uma ambulância: é um Porsche Macan GTS com sirene e luzes azuis e verdes. Ele pertence ao médico britânico John Ferris, especialista em medicina de emergência e atendimento pré-hospitalar, que o usa para levar tratamento de terapia intensiva a pacientes em locais onde uma viatura convencional não chega — ou demora demais.

A área de cobertura de Ferris tem cerca de 7.800 km², cinco vezes o território da cidade de São Paulo, e vai de vilarejos litorâneos a vales profundos e encostas íngremes. A população fixa é pequena, mas o fluxo de turistas chega a quase 10 milhões de pessoas por ano, boa parte atraída por atividades de risco como escalada e corrida de montanha. Quando algo dá errado, o hospital de referência pode estar a duas horas e meia de distância.
Por que um Macan GTS, e não uma ambulância
Ferris é voluntário de três organizações de atendimento emergencial, entre elas o BEEP Doctors, e divide a agenda com plantões no NHS, o sistema público de saúde britânico, além de voar com o serviço aeromédico Great North Air Ambulance Service e apoiar a equipe local de resgate em montanha. A escolha do carro seguiu critérios práticos: porta-malas grande o bastante para todo o equipamento, velocidade e capacidade de ultrapassagem para dirigir com segurança em código de urgência por estradas estreitas e sinuosas.
“Não são muitos os veículos que cumprem todos esses requisitos”, diz o médico. As modificações são discretas — sirene e sinalizadores —, e no inverno o SUV recebe pneus específicos e correntes para neve. Fora do serviço, o mesmo carro leva a família em viagens de férias.

Autodeclarado entusiasta de carros, Ferris admite que o 911 é o Porsche que gostaria de ter. A rotina de transportar o equivalente a uma UTI móvel e a logística com os filhos, porém, mantêm o esportivo fora de cogitação.
Cirurgia no meio da encosta
O trabalho de Ferris envolve procedimentos que normalmente só acontecem dentro de um hospital. Em um dos casos relatados por ele, um alpinista caiu no vale de Langdale e sofreu traumatismo craniano e colapso pulmonar. Foram 45 minutos de estradas rurais até o local, onde o paciente foi estabilizado ainda na montanha antes de ser levado de helicóptero ao hospital. Ele se recuperou.

Em outra ocorrência, um corredor de montanha entrou em parada cardíaca após hipotermia severa durante um treino noturno de inverno. O resgate exigiu que a equipe subisse a pé carregando os equipamentos. Segundo Ferris, o paciente permaneceu cerca de cinco horas em parada até ser reanimado e transferido para um hospital especializado, onde foi reaquecido. Também voltou a treinar.
Entre os procedimentos que a equipe executa em campo estão anestesia no local do acidente, drenagem torácica para reinsuflar os pulmões e transfusão de sangue. O interesse pela profissão, conta o médico, começou aos cinco ou seis anos, inspirado por programas de TV sobre serviços de emergência.
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