Motos 4 cilindros estão acabando, mas culpa não é só das novas leis
A troca por motores de dois cilindros sofre o peso das normas, mas também é decisão da fabricante para otimização do projeto
Publicado em 21/10/2026 às 06h00
Cada vez mais, as motos de quatro cilindros vêm dando lugar a modelos de três ou dois. As novas Honda CB750 Hornet, Suzuki GSX-8S e Yamaha R7 são alguns exemplos de bicilíndricas que substituíram modelos antigos de quatro cilindros.
As normas de emissão cada vez mais rígidas têm parte nisso, mas, para quem desenvolve esses motores, a conta começa antes da legislação.
Para a engenharia moderna, a definição da quantidade de cilindros dependerá da proposta e da necessidade que o modelo tem.
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“Essa diferença de concepção de modelo independe de emissões. O que ela determina mesmo é para o que o conceito do modelo vai ser aplicado”, afirma Bismark do Vale, engenheiro especialista em desenvolvimento do setor de pesquisa da Honda.
Bismark pondera que o motor de quatro cilindros normalmente é voltado ao uso on-road, trabalhando em rotações mais altas e entregando menos torque em baixa. O dois cilindros faz o caminho oposto e já fica mais interessante para o uso off-road.

O exemplo que ele usa é direto. “Se eu boto um motor quatro cilindros em linha numa moto de uso off-road, numa Africa Twin, eu vou ter uma entrega muito fraca em baixas rotações. Assim não terei o domínio da moto e, consequentemente, ela não será eficiente para meu uso.”
Quatro cilindros pode ser desperdício

Mas é aí que vem o segundo fator, o custo.
Por que eu vou botar quatro cilindros em um motor 500 se com dois cilindros bem dimensionados, bem projetados, eu entrego a mesma performance?”, questiona o engenheiro.
Bismark ressalta que, embora o quatro cilindros seja mais eficiente na pista, em âmbito geral essa regra não é absoluta.
Os modelos de média motorização, por exemplo, se dão muito bem com motores de dois cilindros, mesmo em uma pista de motovelocidade.
A engenharia tem mudado de posicionamento em vários pontos, pois repetir a arquitetura de quatro cilindros numa moto que já atinge o desempenho pretendido com dois seria desperdício de aplicação.
Nas médias motorizações, onde o volume de vendas é maior e a margem é menor, esse raciocínio pesa mais do que em qualquer superesportiva.
Norma não é neutra com o motor de alta rotação
O Euro 5+, em vigor desde 2024 para novas homologações, não baixou os limites de poluentes, mas apertou o diagnóstico de bordo, a durabilidade de componentes e o monitoramento do catalisador. Consultores de engenharia já relatavam, no Euro 5, fabricantes que simplesmente não voltaram a homologar certos modelos porque a conta não fechava.
O detalhe é que o quatro cilindros não virou sinônimo de motor reprovado. A Kawasaki ZX-4R e rivais como a QJMotor SRK450RR são quatro cilindros compatíveis com Euro 5+. Quando a marca decide bancar o investimento, o motor passa.

Aqui no Brasil também há exemplos. A nova Honda CB1000 Hornet veio com quatro cilindros e 147 cv de potência. A saída da marca para adequar tudo isso ao Promot 5 foi um escapamento de grandes dimensões.
A japonesa poderia até tentar um modelo desse porte com menos cilindros, mas dificilmente entregaria o mesmo desempenho e acerto do atual.
O preconceito com o dois cilindros é cultural
Resta o lado do consumidor, que continua associando quatro cilindros a performance. “As pessoas que falam de quatro cilindros sempre remetem quatro cilindros a performance. Elas tiveram essa cultura, tiveram o contato com a moto de quatro cilindros ou ouviram falar”, diz Bismark. “Então o cara vai ter sempre aquele sentimento de downgrade.”
O engenheiro reconhece que a percepção tem base sensorial: quanto menos cilindros, mais descompassado é o funcionamento do motor, o que aumenta a vibração e a sensação de potência. Vários fabricantes buscam exatamente isso.
Mas, na avaliação dele, o público de média cilindrada para baixo não é formado por pilotos de track day — e, mesmo entre os que vão à pista, boa parte dos modelos bicilíndricos vendidos hoje atende.
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