Yamaha MT-15 e Honda CB125R: por que nem toda moto legal chega ao Brasil?

Mesmo com motorização simples, são pequenas mais completas e bonitas do que as tradicionais comercializadas por aqui

Honda CBR125R (2)
Modelos imitam suas irmãs de motores maior (Foto: Honda | Divulgação)
Por Lucas Silvério
Publicado em 30/09/2026 às 06h00

No Brasil, as motos que mais circulam nas ruas são as pequenas 150 e 160, modelos simples e de serventia para o trabalhador médio. A sofisticação fica dois degraus acima: preço e tamanho. Ou seja, quem quiser comprar uma moto mais refinada terá que pagar mais por um motor maior.

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Porém, quem acompanha o mercado mundial sabe que existem algumas motos pequenas e recheadas de tecnologia, como as japonesas Honda CB125R e Yamaha MT-15. E com isso vem a pergunta: por que nem toda moto pequena legal chega ao Brasil?

Entrevistamos um especialista no mercado de motos e também parte do time da Honda para entender melhor essas motivações.

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Para Luiz Vicente F. de Mello, da Bright Consulting, especialista no segmento de motos, tudo é uma questão de estratégia para não prejudicar a operação ou os lucros da fabricante.

Segundo ele, cada marca se comporta de uma forma diferente, da maneira que é melhor para si. Até as duas maiores do mercado brasileiro têm estratégias distintas.

A Yamaha R15, atualmente no mercado, acaba em um “oceano azul”, quer dizer, sem concorrentes nesta faixa do segmento. “Se houvesse a comercialização da MT-15 por aqui, haveria também chances de parte do público que gosta da R15 migrar para a MT-15, ou seja, ‘abocanhar’ clientes da irmã de mesma fabricante”, afirma o especialista.

Yamaha MT 15
A Yamaha MT 15 é comercializada no marcado asiático (Foto: Yamaha | Divulgação)

Luiz explica que essa “canibalização” de modelos não compensa. A fabricante gastaria muito investindo em projeto, fabricação e campanhas para comercializar um produto que, matematicamente, não atrairia mais clientes, mas dividiria em duas motos os já interessados.

Essa questão estratégica é tão pontual que a mesma lógica não pode ser aplicada a modelos semelhantes, como a Yamaha R3 e a MT-03. O consultor lembra que, historicamente, a MT-03 vende cinco vezes mais que a R3, tudo pela característica específica do mercado.

Para essas 300, o investimento vale. Já para as 150, o investimento pode não valer.

Para a Honda, a motivação é outra

No caso da Honda, você tem que lembrar que é uma motorização totalmente nova”, reforça Luiz.

Para ele, esta é a principal motivação. Para trazer uma pequena premium como a CB125R, a Honda teria que usar uma motorização que não fabrica aqui, já que atualmente ela salta das 110 para as 160.

Honda CBR125R (1)
A Honda CB125R incorpora muito da CB650R (Foto: Honda | Divulgação)

O consultor ainda acredita que, na hipótese de investimento para trazer a nova moto, as vendas não seriam relevantes a ponto de justificar a ideia.

Ele ainda frisa que a chegada até seria interessante para os pilotos, pois quanto mais motos atenderem o público, melhor. Mas, para as fábricas, não vale o esforço.

A posição da Honda

De certa forma, a Honda concorda com a opinião do especialista. Questionada sobre as motivações para trazer um novo modelo como este, a fabricante se posicionou.

Luiz Gustavo, responsável pelo time de relações públicas da marca, aponta que a Honda sempre estuda quais modelos deve trazer para o Brasil e que tudo depende da demanda que o produto terá no país.

A Honda está sempre monitorando a necessidade e o desejo do cliente. Então, em pesquisas realizadas com clientes brasileiros, analisamos cenários econômicos, geográficos, a intenção do cliente de compra para esses modelos. E aí, a partir daí, desenha-se uma estratégia para definir se é viável ou não termos tal modelo para o Brasil”, disse.

Um fator fundamental que o representante da Honda não deixa passar é a característica do mercado fora do Brasil. Luiz Gustavo afirma que alguns países, asiáticos por exemplo, utilizam a motocicleta de outras formas, sejam elas mais voltadas para performance, passeio, viagens ou outros usos.

“Então, necessariamente, não é a mesma moto que a gente teria que trazer de outros mercados. É preciso fazer um processo grande de adequação para o mercado brasileiro, o que, muitas vezes, pode encarecer o valor para o cliente final”, finaliza o porta-voz.

O mercado europeu é diferente

KTM Duke 125
A KTM Duke 125 é outro exemplo que poderia chegar ao Brasil (Foto: KTM | Divulgação)

Luiz de Mello concorda com Luiz Gustavo e com a Honda. O especialista de mercado lembra que, na Europa, existem países com idade mínima de 16 anos para a habilitação. E um ponto importante são as condições dessa habilitação.

Na Alemanha e em alguns outros países, os maiores de 16 anos podem conduzir modelos de 125 cm³ com até 15 cv, categoria em que a Honda CB125R se encaixa.

Essas condições aumentam a comercialização de modelos premium com motores menores. Em mercados como o Brasil, em que a regra é apenas a idade e a motorização é liberada para quem tem CNH categoria A, a estratégia se volta para o investimento de qualidade em motores maiores.

E as outras marcas que estão no Brasil?

Nesse caso, Luiz de Mello diz acreditar que a questão seja o investimento necessário para trazer o modelo.

Fabricantes como a Kawasaki, que contam com motos pequenas premium, têm dificuldade de trazer uma grande variedade de motos por causa do alto investimento necessário para simplesmente trazer uma nova moto.

A Suzuki, por exemplo, é importada pelo Grupo J. Toledo no Brasil. Isso entrava ainda mais a chegada de modelos em massa, uma vez que existe mais burocracia e o custo é ainda maior.

Será que ainda veremos motos como essa no Brasil?

Pelo que dizem o consultor e a própria Honda, a resposta depende menos do interesse dos motociclistas e ainda mais das contas das fabricantes.

No caso da MT-15, o obstáculo é o risco de a naked dividir clientes com a R15, que hoje não tem concorrentes diretos na faixa. Na CB125R, pesa a necessidade de um motor que a Honda não fabrica no país, somada a uma expectativa de vendas considerada baixa demais para justificar o investimento.

Enquanto essa equação não mudar, quem busca uma moto pequena mais refinada continuará tendo que subir de motorização, e de preço, para encontrar esse tipo de sofisticação.

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