Marca tem sido questionada pelo alto valor nas manutenções, uma vez que o preço de seus modelos equivale ao de concorrentes com revisão mais em conta
A Royal Enfield chegou ao Brasil com a clara proposta de comercializar motos custom — carentes por aqui — em larga escala. A estratégia para isso? Preços acessíveis. Porém, a marca tem sido cada vez mais questionada sobre o valor das manutenções de suas motocicletas, e o recente aumento dos planos nacionais de revisão reacendeu o debate: motos Royal Enfield realmente têm manutenção cara?
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Assim como várias fabricantes, a Royal Enfield trabalha com preços tabelados para as manutenções de suas motos. Para todas as 350 da marca, que inclusive possuem mecânica bastante semelhante, a fabricante cobra em suas oficinas autorizadas R$ 444,29 (sendo R$ 253 de 1h de mão de obra e R$ 191,29 referentes às peças) na primeira e mais barata revisão. O valor chega a R$ 1.161,96 (R$ 782,46 em peças e R$ 379,50 de 1h30 de mão de obra) na manutenção de 20.000 km, a mais elevada.
Em comparação aos valores das revisões das Royal Enfield Hunter 350, Meteor 350 e Classic 350, concorrentes japonesas indiretas apresentam custos mais modestos.
É importante frisar que esta comparação considera modelos compatíveis, levando em conta o tamanho do motor e a proposta de cada motocicleta. Por mais que a fabricante indiana não tenha concorrentes diretos por aqui, as japonesas populares de porte semelhante foram selecionadas.
Para as Honda CB 300F Twister e Yamaha FZ25, as revisões partem de R$ 313,76 e R$ 330 (1ª revisão), respectivamente, e vão até R$ 1.264,56 (revisão de 24.000 km da Honda) e R$ 660 (20.000 km da Yamaha).
Comparando os modelos mais semelhantes entre a marca e uma concorrente, a Royal Enfield sai perdendo novamente. A Himalayan 450 parte de R$ 510,01 na primeira revisão e chega a R$ 1.099,94 na manutenção de 20.000 km. Já sua concorrente direta, a Triumph Scrambler 400X faz revisões programadas a cada 16.000 km, e as duas primeiras custam R$ 200.
Segundo João Guido, responsável pela oficina Lata Nova Motorcycle, de Recife (PE), especializada em motos custom — mais especificamente Triumph, Royal Enfield e Harley-Davidson —, um agravante relevante para o custo de manter uma moto da fabricante indiana é o fato de a primeira revisão acontecer aos 500 km rodados.

“Nenhuma marca aplica isso, e custa um absurdo só para trocar o óleo. A segunda revisão vem com seis meses da data da emissão da nota fiscal, o que significa quatro meses e meio desde a última revisão, porque a primeira foi com 45 dias. E a terceira revisão é 12 meses a partir da data da nota fiscal. Então, são três revisões em um ano, e todas com valor elevadíssimo”, declarou o especialista, comparando com outras fabricantes.
Ainda segundo Guido, os custos das peças da fabricante são mais elevados que os das concorrentes quando considerado o percentual entre o valor da moto e o preço de cada item de reposição.
“Um painel original da Harley-Davidson, comprado na Harley-Davidson, custa cerca de R$ 3.200. É caro? É caro. Mas é uma moto de R$ 200 mil. Não chega nem a 1% do valor da moto. O painel da Royal Enfield é R$ 3.800”, afirmou.
O valor do painel de uma Royal Enfield Classic 350 é R$ 2.170,92, de acordo com os preços da loja oficial da marca em Vitória (ES) que possui uma página no Mercado Livre. Por mais que o especialista não tenha sido preciso no valor citado, ele acertou ao afirmar que outras marcas têm peças mais acessíveis, pois o mesmo item para a já comparada Honda CB 300F Twister pode custar metade do preço. Na mesma loja oficial, o painel de uma Royal Enfield Himalayan 411 chega a custar R$ 5.755.
Itens de reposição por desgaste natural seguem a mesma lógica. O kit relação das motos mais baratas da marca, por exemplo, custa R$ 952,84. “Em relação à cilindrada e ao valor de compra, as peças da Royal Enfield são as mais caras que eu já vi no mercado nacional”, completa o especialista.
Leonardo Figueiredo, proprietário de uma Classic 350, relatou sua experiência com a marca. Segundo ele, a Royal em questão foi sua primeira moto, mas logo percebeu a diferença de preços entre as lojas autorizadas e oficinas convencionais.

Eu lembro que, nas primeiras manutenções, cheguei a orçar com outras oficinas, e o preço era realmente muito diferente. A revisão mais barata que eu paguei na concessionária ficou em cerca de R$ 480 ou R$ 500, e era daquelas em que só se trocavam os filtros, óleo, limpavam a corrente e verificavam o estado geral da moto. Em oficinas convencionais, a mão de obra era cerca de R$ 100, e o valor das peças era ainda menor”, afirmou o cliente, alegando que manteve as manutenções na concessionária por receio de levar a moto a locais que não tivessem as peças adequadas e por medo de perder a garantia.
Figueiredo ainda apontou que, em uma manutenção corretiva, precisou abrir o motor. O preço cobrado pela oficina de Belo Horizonte (MG) foi de R$ 1.800. Em oficinas não credênciadas, o custo era menos da metade do valor.
A Royal Enfield já se mostrou ciente de seus problemas relacionados ao pós-venda. Em entrevista ao AutoPapo, em 2025, quando questionado sobre o preço das peças de manutenção, o diretor-executivo da Royal Enfield Latam, Gabriel Patini, trouxe explicou a política de valores aplicadas, considerando questões de volume, logística e demais fatores que impactam no preço final.
Segundo ele, a Royal concorre contra marcas que possuem fabricação nacional — uma vez que a indiana importa praticamente todos os seus produtos — e ainda precisa lidar com peças paralelas oferecidas em grande escala para marcas mais longevas no Brasil. Para o executivo, muitas vezes essa comparação tem um peso infundado.
Em recente encontro com executivos mundiais da marca, durante o Ride de 125 anos realizado pela marca no Rio de Janeiro, o CEO global da empresa, B. Govindarajan, foi questionado sobre os altos custos para manter as motos da marca. Govindarajan afirmou que a Royal Enfield está, e continuará, sempre em busca de oferecer a melhor relação custo-benefício para os clientes.
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