Genialidade, gambiarras e bastidores: os 50 anos do revolucionário Fiat 147

Como um projeto europeu adaptado ao Brasil driblou a legislação da época e deu início a cinco décadas de história da marca no Brasil

Fiat 147 a álcool 1979 frente na fábrica de betim
O compacto trouxe diversas inovações para o mercado nacional (Foto: Fiat | Divulgação)
Por Douglas Mendonça
Publicado em 25/07/2026 às 09h00

A inauguração da fábrica da Fiat em Betim (MG) aconteceu no dia 9 de julho de 1976. Na época, eu era um jovem de 22 anos com pouco mais de dois anos na profissão de jornalista, trabalhando no segmento automotivo. Naquela ocasião, o Fiat 147 me deixou impressionado por ser um carro compacto em suas dimensões externas, mas que acomodava muito bem quatro passageiros adultos. Um feito impressionante de design e engenharia.

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No caso, engenharia europeia. Afinal, na realidade, nosso 147 era quase uma réplica do Fiat 127 italiano, que havia sido lançado na Europa no final de 1971.

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Na bem da verdade, 127 e 147 eram semelhantes no design e no conceito mecânico, mas estruturalmente guardavam importantes diferenças: como aqui no Brasil as condições de ruas e estradas eram severas para os padrões europeus, nosso 147 possuía uma estrutura monobloco mais reforçada e a suspensão traseira, apesar de independente, era feita por meio de um inédito feixe de molas transversal, o que permitia ao modelo brasileiro uma robustez construtiva superior à do europeu.

Outra característica técnica inédita do 147 foi a adoção do conjunto motor/câmbio disposto transversalmente na dianteira. Essa característica fazia parte do ineditismo do projeto, que compactava a mecânica em um pequeno espaço dianteiro, sobrando mais espaço para os passageiros e para o porta-malas.

fiat 147 raio x lateral
Motor tna transversal e estepe no cofre: inovações do compacto (Foto: Fiat | Divulgação)

Aliás, o porta-malas com bons 350 litros de capacidade permitia todo esse aproveitamento graças à colocação do estepe no cofre do motor. Tudo fazia parte do projeto que visava ao maior conforto para as pessoas e a uma mecânica compacta toda acomodada no habitáculo do motor. Os VW, seus rivais, tinham motor a ar instalado na traseira, um esquema bem mais obsoleto.

Por que motor 1050 cm³?

Uma curiosidade interessante do Fiat 147 era relativa à capacidade cúbica do motor: 1.050 cm³. Alguém poderia perguntar: “por que 1050 e não 1000 ou 900, como o modelo italiano?”. Na realidade, pensaram no Fiat 147 com 1.000 cm³ ou 1 litro. Mas os italianos descobriram que, na época, nossas antigas leis tributárias cobravam mais impostos de fabricação de carros com até 999 cm³ do que de carros que tivessem motores de 1.000 até 1.300 cm³. Um absurdo oficial, decretado por lei, fruto de um trabalho feito no Congresso no final dos anos 50 pela Volkswagen, para que o Fusca 1200 pagasse menos IPI do que seus concorrentes DKW 1000 e Renault Dauphine/Gordini 850.

Por esse motivo, os italianos aumentaram a capacidade cúbica do motor projetado para o nosso carro, para que ele se enquadrasse na lei que permitia pagar menos IPI. A missão era clara: o Fiat 147, com isso, conseguiria um preço mais competitivo no mercado brasileiro. Vale ressaltar que essa falha na legislação tributária foi reparada apenas no governo Collor, no início dos anos 90. Nessa época, inclusive, criaram-se incentivos fiscais para carros que tivessem a capacidade cúbica de seus motores menor que 1000 cm³ ou 1 litro (quando a Fiat levou a melhor com o Uno Mille).

Caninho de escapamento

Em 1976, lembro-me dos primeiros Fiat 147 que chegaram para teste na revista Quatro Rodas e na revista Oficina, também da Editora Abril, onde eu trabalhava como repórter. Uma coisa que me chamou a atenção nos carrinhos era o diâmetro minúsculo do cano que saía do silenciador. Era um caninho de escape um pouco mais grosso que um dedo. Quando vi, pensei: “isso não vai dar certo! Como esse caninho pode dar conta da saída dos gases de um motor de 47 cv?”. Não deu outra: os carros que começaram a ser distribuídos para a rede de concessionários já vieram com um cano de maior diâmetro, o que dava uma impressão bem mais saudável de potência.

Explico: na realidade, é claro que a engenharia italiana sabia que o cano de menor diâmetro seria suficiente para os acanhados 47 cv produzidos pelo motor 1050. Mas, certamente, o marketing, quando viu aquele caninho acanhado, reclamou que o pequeno tubo pudesse passar a impressão de um motor fraco, pouco potente.

O importante é que tudo foi consertado a tempo, e os primeiros proprietários do Fiat 147 ficaram felizes com o que receberam, apesar dos típicos problemas de câmbio, que o afetaram por um bom tempo. O fato é que o primeiro carro nacional da Fiat, há 50 anos, impressionou o mercado nacional por tudo o que oferecia em termos de novas tecnologias para um baixo consumo de gasolina, bom espaço interno e porta-malas surpreendente para a época.

Tive o prazer de fazer um teste comparativo entre o Fiat 147 chassi número 00001 de 1976 e um dos últimos 147 produzidos em dezembro de 1986. Nesses 10 anos em que foi produzido, o carrinho evoluiu bastante, principalmente no câmbio, que melhorou substancialmente a qualidade de seus engates. Sem sombra de dúvidas, o Fiat 147 marcou de maneira indiscutível a nossa indústria automotiva e foi o pontapé inicial para esse meio século de sucessos da marca italiana no Brasil. Que venham outros 50 anos!

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