A frente do Fusquinha amassada e o dono do carro é o último a saber

Só então seu João, com toda a sua inocência automobilística, descobriu que foram os seus filhos os causadores daquele prejuízo

Por Douglas Mendonça 20/05/19 às 22h01

Esse causo, absolutamente verdadeiro, ocorreu há mais de 50 anos, mais especificamente em 1966. Nessa época eu tinha cerca de 12 anos de idade, mas já me virava muito bem atrás do volante de um carro: meu pai tinha um Fusquinha 1961, aquele com o motor 1200 de 36 hp pelas medições da época, que hoje corresponderiam a cerca de 25 cv. O suficiente para mover o Fusquinha com 4 pessoas, mas em uma velocidade bem limitada.

E olha que o Fusquinha do meu pai gemia quando aparecia uma ladeira e a família estava toda no interior do carro: meu pai João, minha mãe Maria, minha irmã Míriam, que na época estava com 22 anos, e eu, Douglas, no esplendor dos meus 12 anos de idade. Passamos sábados e domingos muito felizes passeando de Fusquinha na casa da parentada.

Pois esse causo envolveu toda a família exceto minha boa mãe, que não teve nada a ver com o ocorrido. Durante a semana, meu pai utilizava seu fiel Fusquinha para ir trabalhar. Por isso, eu não podia “roubá-lo” para dar uma volta no quarterão, como sempre fazia no sábado da lavagem, sem que ele soubesse.

Pois bem, não me recordo o motivo, mas naquele dia o Fusquinha ficou estacionado no seu lugar de costume no prédio onde morávamos. Por isso, minha irmã ficou insistindo para que aproveitássemos aquele momento e eu a ensinasse a dirigir. Era tudo o que eu queria ouvir: um adulto me pedindo para eu pegar a chave do carro, colocasse em funcionamento e mostrasse para a minha irmã Míriam como se dirigia.

Como já me julgava um Ás no volante, sabia e achava fácil conduzir um carro e acreditava que era fácil para todos. Por isso, superestimei a capacidade que minha irmã tinha de motorista, ou seja: nenhuma.

Volkswagen Fusca 1200, mais conhecido como Fusquinha

Fomos ao carro, e mostrei a Míriam o básico dos básicos: aqui é o câmbio, ali é o acelerador o outro é o ferio e o outro é a embreagem, aqui é a chave onde você dá a partida e pronto. Sentei no posto do motorista, funcionei o carrinho e dei uma pequena voltinha mostrando a ela como se fazia. Acreditei piamente que isso bastava e que ela sentaria ao volante e faria exatamente o que eu fiz. A diferença e que eu sabia dirigir e ela não!

Minha irmã sentou no posto do motorista e eu, um garoto, como instrutor ao seu lado. Motor funcionando disse a ela para pisar na embreagem e engatar a primeira marcha, instruções que ela seguiu corretamente. Só que para coordenar aceleração e a retirada gradativa do pé da embreagem, isso não acontecia: o Fusquinha dava aquele conhecido pulo e o motor morria.

Isso aconteceu uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, depois da quinta vez, chamando minha irmã de burra, tive uma infeliz ideia: disse a ela esqueça o pedal do acelerador, puxei o afogador e controlei a aceleração do motor e ela só tinha que tirar o pé da embreagem. Genial!

Fizemos isso, e o Fusquinha arrancou valente, sem que o motor morresse. Mas, lembrando, a Míriam não sabia dirigir! Assim que o Fusquinha arrancou rápido, ela começou a gritar:” O que é que eu faço agora, como é que se para esse negócio”? Foi nesse ponto que me dei conta que ela não sabia dirigir.

Antes que eu desacelerasse o carro no afogador e puxasse o freio de mão para parar, ela deu uma guinada para esquerda no volante e nós paramos o Fusquinha do meu pai em uns canos da balança do parquinho do prédio onde morávamos. Ali, ele bateu; ali, ele ficou. Desci rápido para olhar os prejuízos: parachoque e para-lama esquerdo amassados e minha irmã chorando pela bobagem que tínhamos feito.

Assumi o posto do motorista, tirei o Fusquinha dali e o coloquei exatamente como o meu pai tinha deixado, no exato lugar. Em pânico, voltamos para casa, ambos quietinhos. A noite saímos os quatro para fazer algo pelo bairro e meu pai percebeu que o farol do seu lado iluminava as casas, os prédios e tudo bem alto, menos a rua a frente onde deveria iluminar.

Chegando ao nosso destino, seu João foi preocupado ver o que estava acontecendo e descobriu a frente descadeirada do seu querido Fusquinha. Ficou sem entender o que poderia ter acontecido e logo concluiu:” algum motorista barbeiro bateu no carro, e agora tenho que mandar arrumar toda a frente”! A verdade que ele não estava errado: uma motorista barbeira havia causado o dano.

Seu João mandou arrumar o carro e tudo voltou ao normal. Esse foi um segredo que eu e minha irmã, guardamos por décadas. Em uma reunião de família em 1986, dessas de domingo, conversando a respeito de causos antigos, relembramos essa história agora engraçada que havia sido esquecida no tempo.

Só então seu João, com toda a sua inocência automobilística, descobriu que foram os seus filhos os causadores daquele prejuízo financeiro e daquele mistério que nunca tinha ficado muito claro em sua mente: onde e quem teria causado danos ao seu carro que ele só foi perceber no final daquela tarde?

Pelo menos, essa história serviu para boas gargalhadas e, ainda bem, que nossa inconsequência não causou danos maiores ou até, quem sabe, poderia ter machucado alguém. O fato é que a Míriam nunca teve aptidão para dirigir e até hoje, com 75 anos de idade, apesar de possuir habilitação, nunca dirigiu. Graças a Deus!

Visite o site do Douglas: www.carrosegaragem.com.br

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1 Comentário
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    Miriam 22 de maio de 2019

    Ótimo,sempre gosto muito dos causos contados aqui! Excelente

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