Airbags Takata: Ao invés de salvar, mata!

Entenda os motivos, os riscos e o que afeta para você, motorista do Brasil, o maior caso de recall em curso no planeta, que já provocou 19 mortes

Por Bárbara Angelo10/02/17 às 18h22

Os números são assustadores: 100 milhões de airbags afetados, 19 mortes (número atualizado) e quase 200 feridos. O recall de airbags da Takata é o maior da história de toda a indústria automotiva e 13 montadoras sediadas no Brasil já convocaram os proprietários para substituírem a peça problemática.

No mês passado, um acordo judicial determinou que a fabricante pagasse uma multa de US$1 bilhão ao governo americano e assumisse a culpa pelo crime de fraude eletrônica. Além disso, três executivos da companhia serão julgados por conspiração.

O problema

O defeito nos airbags está em um componente chamado deflagrador. A peça é um recipiente de metal que contém um químico gerador de gás. O deflagrador é responsável pela expansão imediata da bolsa de ar que amortece o impacto contra passageiros.

A falha ocorre apenas em caso de colisão, quando o airbag é ativado. Então, o deflagrador defeituoso explode, rompendo a bolsa e lançando os estilhaços de metal do recipiente na direção dos ocupantes. As lesões que resultam são graves e já mataram ao menos 17 pessoas.

Airbag - Takata - Matéria
(Fabiano Azevedo/AutoPapo)

A explosão

O gerador de gás que a Takata usa é o nitrato de amônio, uma substância sólida e explosiva. É necessário o uso de um propelente no sistema, pois o deflagrador deve ser capaz de inflar a bolsa em microssegundos para proteger os ocupantes do impacto. O químico, no entanto, deve ter uma ação controlada e não destrutiva.

O problema é que o nitrato de amônio é considerado um material instável. De acordo com as investigações realizadas pela National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA), órgão norte-americano responsável pela segurança no trânsito, a substância sofreu uma deterioração que alterou suas propriedades, tornando-a excessivamente explosiva.

Segundo os resultados divulgados pela organização, o que levou à alteração foram altas taxas de umidade e/ou grandes variações de temperatura. Ou seja, condições naturais do ambiente de diversas regiões.

Porém, a degradação ocorre apenas com o tempo, o que transforma os airbags afetados em bombas-relógio. Não apresentam perigo no momento, mas podem explodir no futuro.

Pelo menos 11 dos 17 episódios fatais ocorreram em modelos Honda Civic e Accord fabricados entre 2001 e 2005.  A NHTSA afirma que este teria sido um lote defeituoso produzido na planta da Takata em Monclova, no México, sem um elemento chamado “agente dissecante”. O dissecante é geralmente aplicado junto ao propelente para controlar a umidade e torná-lo mais seguro.

A NHTSA chama a atenção, portanto, para o principal grupo de risco: modelos Honda Civic, Accord e CR-V 2001 e 2002, em áreas de alta umidade. A NHTSA também frisa a idade dos veículos como fator de risco, estipulando 15 anos para que eles se tornem perigosos. Vale destacar que das 17 fatalidades envolvendo airbags da Takata, 16 ocorreram em um veículo da Honda. Outro caso aconteceu em um automóvel da Ford.

O órgão norte-americano tem sido sistemático no estudo e correção do problema, e com frequência publica novos resultados de suas apurações, o que amplia o número de veículos que julga apresentarem perigo. As decisões da NHTSA também são a origem daquelas tomadas no Brasil, já que por aqui não há uma instituição similar.

Procurada, a Honda do Brasil não detalhou o risco de seus veículos no país. “A Honda Automóveis esclarece que os modelos comercializados no Brasil utilizam componentes importados do Japão, com especificações diferentes dos aplicados nos veículos produzidos para o mercado norte-americano”, declarou a montadora em nota.

O começo

O primeiro caso conhecido foi com um Honda, ainda em 2004, segundo o jornal norte-americano New York Times.

A Honda reportou o problema à NHTSA e à Takata, e pressionou a fabricante de airbags em busca de uma explicação. Porém, somente em 2008 a Honda fez o primeiro recall relativo ao problema, mas sem menção à Takata ou à possibilidade de que ele afetasse outras marcas.

Explosões continuaram ocorrendo até 2014, quando o nome da Takata foi apontado como responsável. Só então a preocupação atingiu grande parte das montadoras e o público em geral. Atualmente, apenas nos Estados Unidos são 42 milhões de veículos afetados pelo recall.

No Brasil

No Brasil, o primeiro recall relacionado ao problema também foi da Honda e ocorreu em 2010, antes que a Takata ficasse conhecida pelo maior recall da história. Os primeiros modelos convocados foram os mesmos que em 2008 nos Estados Unidos: Hondas Civic e Accord 2001 e 2002. Nos anos seguintes, a montadora aumentaria o número de veículos chamados.

Em sequência, outras marcas também fizeram recall. Atualmente, são treze convocando veículos comprometidos. Confira a lista completa de veículos afetados no Brasil ao pé da página.

Entretanto, até agora não houve nenhuma explosão de airbag no Brasil, ainda que o produto da Takata esteja presente em grande parte do mercado nacional. A japonesa tem três fábricas no país, onde chegou na década de 60, e foi a pioneira na produção de airbags por aqui.

Segundo o gerente de engenharia de produtos da planta da Takata em Jundiaí, Oliver Schulze, a empresa supre “praticamente todas” as montadoras brasileiras. Ainda de acordo com ele, 90% da produção da unidade tem como destino o mercado nacional.

Para montar os airbags, a instalação recebe deflagradores da Takata de outros países como Estados Unidos, México, Alemanha e China. O engenheiro também confirma que a fábrica de Monclova, responsável pelo lote que causou mais mortes, está entre as fornecedoras.

Airbag - Takata - Matéria
Stephanie Erdman durante depoimento na Comissão de Transportes, no Senado dos Estados Unidos, no ano passado. A moradora da Florida, nos Estados Unidos, se machucou gravemente com a explosão do airbag quando dirigia um Honda Civic.

Quanto vale a segurança

A Takata adotou o nitrato de amônio no fim da década de 90 por ser uma opção mais barata na produção de airbags, segundo reportagem do New York Times. Os produtos com o químico perigoso foram então oferecidos para as montadoras, que passaram a comprá-los da japonesa.

O jornal também afirma que a General Motors, aderindo à proposta, foi avisada pela sueca Autoliv sobre os riscos da substância. A Autoliv era a fornecedora de airbags da GM em um mercado no qual a Takata ainda tentava se firmar.

Porém, os airbags com nitrato de amônio custavam 30% menos, levando os envolvidos a migrarem para a melhor oferta, relata a reportagem do NYT. Hoje, outros fabricantes também utilizam a substância, como a norte-americana ARC, que já tem recalls no Brasil devido a problemas semelhantes.

De sua parte, a Takata destruiu resultados de testes de segurança que detectaram o defeito, aponta o jornal. Durante uma investigação de dois anos por parte do Departamento de Justiça americano, a corporação confessou que tinha consciência do problema desde 2000 e que a partir de então passou a falsificar os testes para manter as vendas.

Enquanto isso, a Honda, primeira montadora a encontrar o defeito em 2004, convocou um recall nos Estados Unidos apenas em 2008. Ainda assim, a Takata só foi implicada publicamente em relação ao problema em 2014, quando fez seu primeiro comunicado oficial. A investigação judicial também revelou que o esquema de fraude da empresa chegava ao nível executivo.

Para o gerente de engenharia de produtos da Takata Brasil, os airbags não apresentam um risco tão grande. Oliver Schulze argumenta que 2,4 mil vidas são salvas pela bolsa inflável por ano só nos Estados Unidos, avaliando que as perdas, embora importantes, ainda são muito menores.

Ao argumentar, Schulze cita outros erros graves que já macularam a indústria automotiva no passado e tiraram muito mais vidas, ainda que envolvessem menos veículos. “A decisão foi muito mais política do que técnica”, crava o engenheiro, se referindo ao tamanho do recall determinado pela NHTSA, que foi além do lote defeituoso de Monclova.

“Foi feita uma pressão muito grande em cima do senado americano e eles acabaram adotando essa abordagem”, conclui o gerente da Takata.

O que está sendo feito

Oliver Schulze também explica que a Takata está executando seus próprios testes em relação ao nitrato de amônio, e não deu uma resposta definitiva com relação à origem do problema. Quanto aos recalls feitos no Brasil, ele aponta que a decisão foi por parte das montadoras e da justiça.

Por outro lado, o engenheiro afirma que a fabricante não terá mais projetos novos com o nitrato de amônio. Agora, a produção será feita com o nitrato de guanidina, uma substância mais segura. “Em um futuro muito próximo estará completamente efetivada a substituição”, promete o gerente.

Airbags com nitrato de guanidina estão sendo utilizados na substituição de alguns dos airbags de nitrato de amônio chamados para recall no Brasil, quando a estrutura do veículo permite. Em outros, a substituição é feita com outro airbag de nitrato de amônio, que pode se tornar novamente perigoso em 15 anos.

Enquanto isso, a NHTSA continua com seu programa de ampliação de recalls, e prevê que até 2019 serão 70 milhões de airbags convocados nos Estados Unidos. Muitos especialistas sugerem que airbags deveriam possuir data de validade devido ao uso de um propelente. Mas atualmente o número de substituições é tão grande que não há fornecimento de airbags suficiente e muitos recalls estão sendo adiados.

Na justiça

Em 2015, a empresa pagou US$70 milhões em multas para órgãos de segurança veicular americanos e confessou que tinha consciência do problema e não tomou medidas a respeito. Ao mesmo tempo, ela também foi alvo de uma investigação criminal por parte do Departamento de Justiça americano que durou dois anos e foi concluída no mês passado.

No dia 13 de janeiro, a Takata foi condenada pelo governo americano a pagar uma multa de US$ 1 bilhão em um acordo no qual se declara culpada pelo crime de fraude eletrônica. O montante foi dividido entre US$25 milhões de multa criminal e US$ 125 milhões para a compensação de vítimas, incluindo futuras.

Os outros US$ 850 milhões vão para a compensação de fabricantes de automóveis por uma parcela do custo dos recalls, estimado em mais que US$10 bilhões. A empresa tem um ano para cumprir as obrigações.

Separadamente, um júri federal condenou três executivos da fabricante. Shinichi Tanaka, Hideo Nakajima e Tsuneo Chikaraishi foram acusados de crime eletrônico e conspiração e serão levados a julgamento. Além disso, a empresa também está na mira de vários processos coletivos de donos de carros afetados e famílias de vítimas que ainda estão em andamento.

A corporação japonesa, que já foi a maior fornecedora de airbags do mundo, corre risco de falência devido ao custo dos recalls e das penalizações jurídicas. Entretanto, as montadoras dependem de fornecedores do equipamento, obrigatório em diversos países, para manter sua linha de produção. Por isso, a Takata está em busca de patrocinadores que devem resgatá-la de forma a manter o fornecimento global.

Enquanto isso, entre os recalls feitos tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos há veículos produzidos em 2016 e modelos 2017.

Airbag - Takata - Matéria
Patricia morreu dois anos após a explosão do airbag. A família fez acordo com a Takata e recebeu indenização

As vítimas

Uma das vítimas foi Gurjit Rathore, de 33 anos, que sofreu uma colisão leve com seu Honda Accord contra um caminhão dos correios. Quando o airbag explodiu, Gurjit sangrou até a morte na frente de seus três filhos. Gurjit é uma das 11 vítimas fatais que residiam nos EUA. Outras cinco são da Malásia.

Patricia Mincey, 75, teve um acidente em junho de 2014 com seu Honda Civic modelo 2001. O airbag não explodiu, mas inflou de forma tão violenta que lesou a motorista, paralisando-a do pescoço para baixo. Dois anos depois, aos 77, Patricia faleceu por complicações decorrentes da paralisia.

Embora o caso seja conhecido, ele não é considerado uma das mortes causadas pelos airbags Takata porque o falecimento da vítima só ocorreu dois anos depois, e não no momento do acidente. A família de Patricia, no entanto, processou a fabricante e fechou um acordo de indenização no ano passado.

O caso de Patricia levanta questões relativas aos riscos apresentados pelos airbags defeituosos, que além de explodir, podem inflar com força exagerada. Também foi durante o processo da família Mincey que a Takata teve que apresentar os primeiros documentos que comprovaram que a empresa conhecia o problema há anos e não tomou providências para minimizá-lo.

A Takata

Takata logotipo
(Reprodução da Internet)

A Takata Corporations foi fundada no Japão em 1933 e tem sede em Tokyo. A empresa é hoje uma das três maiores fornecedoras de airbags do mundo, controlando em torno de 25% do mercado. Ao lado dela, está a sueca Autoliv, que atualmente domina as vendas.

A corporação começou a produzir airbags na década de 90 e se especializou em equipamentos de segurança para automóveis. Entre seus outros produtos estão cintos de segurança, volantes e cadeirinhas infantis.

Antes do escândalo dos airbags, a Takata mantinha boas relações com as montadoras e com a NHTSA, de quem recebeu um prêmio em 2013 pelo desenvolvimento do Advanced Airbag System.

Agora, seu chefe executivo, Shigehisa Takada, está de saída. Takada, que é neto do fundador, assumiu o posto em 2014 e revelou recentemente que pretende renunciar ao cargo assim que a empresa estiver fora de perigo.

Veículos afetados no Brasil

Estes são os modelos que já foram chamados para recall no país. Se o seu veículo estiver entre os listados, consulte o site da montadora e confira o chassi para saber se ele foi convocado.

Última atualização em 10/02/2017

Fiat
Uno 2015 e 2016
Consulte o site http://www.fiat.com.br/ja-tenho-um-fiat/fiat-recall/fiat500-junho.html ou ligue 0800 707 1000

Honda

Civic 2000 a 2015
CR-V 2002 a 2012
Accord 2003 a 2012
Fit 2004 a 2014
City 2010 a 2014
Gold Wing (moto) 2007 a 2010 e 2012

Consulte o site http://www.honda.com.br/recall ou ligue 0800 017 1213

Nissan

Frontier 2001 a 2003, 2007 a 2011
Pathfinder 2001 a 2004
March 2011 a 2014
New March 2011 a 2014
Versa 2012 a 2014
Sentra 2004 e 2005
X-Trail 2005 a 2008

Consulte o site https://www.nissan.com.br/servicos/recall-nissan.html ou ligue 0800 011 1090

Toyota

Corolla 2002 a 2014
Hilux 2005 a 2014
SW4 2005, 2009 a 2011
Fielder 2004 a 2008
RAV4 2003 a 2005
Etios 2012 a 2014

Consulte o site http://www.toyota.com.br/servicos/recall/ ou ligue 0800 7030 206

Lexus

ES350 2006 a 2011
IS 300 2012

Consulte o site http://www.toyota.com.br/servicos/recall/ ou ligue 0800 7030 206

Mitsubishi

L200 2007 a 2010
Lancer Evolution IX 2006
Lancer Evolution VIII 2004 a 2006
Pajero Full 2007 a 2016

Consulte o site http://www.mitsubishimotors.com.br/wps/portal/mit/relacionamento/recall ou ligue 0800 702 0404

Audi

Q5 2015
SQ5 2015

Consulte o site http://www.audi.com.br/br/brand/pt/service/consulta-recall.html ou ligue 0800 777 2834 ou 0800 777 AUDI

BMW

320i 2002 a 2006
325Ci Coupé 2003 a 2006
325i 2004 a 2006
330Ci Cabrio 2005 a 2006
330i 2006
540i 2006 e 2007
M3 Coupé 2006 a 2008
M5 2006 a 2009
X5 2006 a 2011

Consulte o site http://www.bmw.com.br/pt/topics/offers-and-services1/recall.html ou ligue 0800 707 3578

Subaru

Impreza (Sedan e Hatch) 2004 a 2008
Legacy Sedan e Hatch 2005 a 2009
Outback 2004 a 2009
Tribeca 2008 a 2009
Forester 2008
WRX 2007 e 2008
WRX STI 2008

Consulte o site https://www.subaru.com.br/recalls-subaru ou ligue 0800 770 2011

Chrysler

300C 2006 a 2012

Consulte o http://www.chrysler.com.br/recall-carros-chrysler.html ou ligue 0800 703 7130

Jeep

Wrangler 2007 a 2012
Renegade 2015 e 2016

Consulte o site http://www.jeep.com.br/recall-carros-jeep.html ou ligue 0800 703 7150

RAM

2500 2004 a 2009

Consulte o site http://www.ram.com.br/recall-carros-ram.html ou ligue 0800 703 7150

Volkswagen

Tiguan 2015
up! 2016
Voyage 2017
Gol 2017
Saveiro 2017
Consulte o site http://www.vw.com.br/pt/servicos/recall.html ou ligue 0800 019 5775

Veja mais sobre:


0 Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se identificar algo que viole os termos de uso, denuncie.
Deixe um comentário