Carro elétrico é apenas o cartão de visita do projeto de Estado chinês
Depois de três visitas ao gigante asiático, o que fica muito claro é que a indústria é um espelho do programa de Estado milenar
Publicado em 01/11/2026 às 13h00
A China é assunto de primeira ordem no Brasil e no mundo. O gigante asiático se tornou protagonista na ordem mundial, além de ser a grande potência econômica a rivalizar com o poderio financeiro (e bélico) norte-americano.
VEJA TAMBÉM:
- Ford Ranger T1: descobrimos como é a vida de navegador de rali
- Seu carro foi ‘modelado’ pelo tributo que incide sobre ele
- Anfavea não descarta ir à Justiça para manter tarifas de SKD
E quando fechamos o recorte para a indústria automotiva, a China também é pauta perene. Afinal, todos os dias surgem novos modelos, novas marcas e até anúncios de fábricas por aqui. Voltei à China pela terceira vez num intervalo de 18 meses e há percepções que ficam muito claras todas as vezes que pousamos em Pudong, nos arredores de Xangai.
Não estou falando do aroma constante de curry, o impregnado odor de nicotina nos carpetes (chineses fumam muito), da pimenta no tempero ou das motoquinhas elétricas que desafiam as calçadas e os pedestres. Estou falando de uma espécie de protocolo que diferentes marcas adotam: o projeto de Estado.
A China centraliza o poder econômico e político em torno do Governo Central. Todo empreendimento é meio que sócio do governo. Mas, sejamos francos, se considerarmos a política tributária brasileira, os governos (municipal, estadual e federal) são nossos sócios, que aparecem sempre na hora da divisão (do faturamento).
Bom, mas não vamos desviar o assunto. O que quero dizer é que todo fabricante está muito alinhado com o programa de Estado chinês. A principal mensagem que se passa ao visitante não é a evolução tecnológica de seus automóveis.

Já estamos carecas de saber que o carro chinês humilha o restante da indústria global quando o assunto é eletrificação e tecnologia embarcada. A soberania do motor elétrico é página virada.
As imensas telas multimídia e uma lista enciclopédica de equipamentos também são assuntos de ontem. Hoje, o carro chinês tem IA embarcada. Ele conversa com o motorista e ajuda a tomar decisões. Mas eles não querem mostrar apenas isso. Querem expor como chegaram a esse estágio.
Roteiro subliminar
Toda viagem à China é acompanhada de visitas a fábricas, centros de desenvolvimento e campos de prova. Nada fica concentrado em um único endereço. Há sempre incontáveis plantas, prédios imensos e instalações que parecem um campus futurista.
Ir à China geralmente se resume a horas de ônibus entre uma instalação e outra. Com todo fabricante é assim. Tudo muito racional e objetivo.
Na recente visita às instalações do Grupo Chery, em Wuhu, o que chamou a atenção não foi a automação de uma de suas linhas de montagem ou a suntuosidade de seus prédios administrativos.
Formação de mão de obra
O que me impactou foi um cartaz com dezenas de emblemas de universidades. Ele estava num cantinho de uma espécie de feira de ciências, em uma das dependências da empresa.
Mas não víamos baterias de batata ou feijões crescendo em algodão. Nesse espaço havia projetos de robótica, holografia, química, têxtil, inteligência artificial, impressão 3D e tudo mais que encontramos nos carros e em produtos modernos.
Tudo com um nível de sofisticação que encontramos apenas em grandes laboratórios da indústria. Ao lado dessas engenhocas, um batalhão de meninos e meninas, com seus simpáticos e característicos semblantes de cordialidade, combinados com a inerente curiosidade a respeito dessa gente de fora com rostos diferentes (que para eles são todos iguais).
Contrapartidas
Esse é o tal projeto de Estado. O grande sócio do empreendedor chinês exige desenvolvimento em tecnologia. Faz parte dos chamados planos quinquenais, que definem rotas de curto, médio e longo prazo.
O governo facilita o acesso ao crédito, mas determina que a empresa siga à risca planos de investimentos em tecnologia, formação de mão de obra. Não é a toa, que alguns grupos se orgulham em dizer que contam com times de mais de 100 mil engenheiros. É um exército pensante e com acesso ao que há de mais moderno em tecnologia e ferramentas.
Há 30 anos, só para ficar no exemplo da Chery, a empresa montou seu primeiro carro, que era um Seat Toledo (o primo espanhol do VW Passat), que chegou lá como refugo da indústria europeia.

Hoje, o mesmo grupo apresentou uma linha de robôs que podem atuar como assistentes domésticos ou executar tarefas urbanas. Fazer carros é apenas uma das múltiplas atividades dos chineses.
Assim, a cada visita, a mensagem é sempre a mesma, tal como o aroma do curry: o chinês quer reforçar sua grandiosidade econômica e seu poderio tecnológico. E, pela propaganda de Estado, o objetivo não é manter isso em segredo, mas escancarar tudo aos olhos do mundo, mesmo que seja apenas pela observação embasbacada do visitante.
É aquela “malandragem” com mais de 5,8 mil anos de experiência.
👍 Curtiu? Apoie nosso trabalho seguindo nossas redes sociais e tenha acesso a conteúdos exclusivos. Não esqueça de comentar e compartilhar.
|
|
|
|
X
|
|
|
Siga no
|
||||
Ah, e se você é fã dos áudios do Boris, acompanhe o AutoPapo no YouTube Podcasts:
Podcast - Ouviu na Rádio
|
AutoPapo Podcast
|
