Carro flex: internet só divulga besteirol

Maioria das dicas disponíveis na web para carro flex têm um único propósito: preocupar desnecessariamente o motorista

Por Boris Feldman06/01/19 às 12h01

Quase 16 anos depois de seu lançamento (em março de 2003), o carro flex ainda confunde o motorista. E a internet ainda reforça a confusão com dezenas de dicas sem pé nem cabeça. Uma delas preconiza que, se o motorista sempre abastece com o mesmo combustível, é necessário passar eventualmente (cada quatro tanques…) para o outro.

Essa e muitas outras não têm o menor fundamento técnico. Já ouvi relato de motorista que foi pegar carro zero km na concessionária e o vendedor, solícito, explicou que os primeiros quatro abastecimentos deveriam ser exclusivamente com etanol e só depois optar pela gasolina.

Tem outra: se abastecer durante muito tempo com etanol, no dia em que passar para gasolina, o carro não “aceita” pois se “acostumou” com o outro. E vice-versa, da gasolina para o etanol. Tem mais besteirol: antes de mudar de combustível, deve-se rodar até esvaziar o tanque.

Tudo conversa para boi dormir, pois o carro flex foi projetado para ser abastecido com qualquer dos dois combustíveis, gasolina ou álcool. Puros (100% de um ou do outro) ou com qualquer percentual deles (50% de cada, por exemplo).

Em relação a poder ou não usar sempre o mesmo combustível:

  1. Sim, pode-se usar etanol ou gasolina desde o primeiro abastecimento;
  2. Pode-se alternar ou não etanol e gasolina;
  3. Pode-se misturar os dois combustíveis em qualquer percentual;
  4. Pode mudar de um para outro e mantê-lo quanto tempo quiser.

Vale uma observação: se o motor não aceitar qualquer destas alternativas é sinal de problema num sensor colocado no escapamento exatamente para que ele seja flex e funcione com qualquer dos dois combustíveis. É chamado de“sonda lambda e avalia o teor de oxigênio dos gases provenientes da combustão. É capaz, assim, de informar à central eletrônica qual combustível está vindo do tanque: gasolina, álcool ou mistura deles.

Como explicar então que o vendedor de uma concessionária recomende os primeiros abastecimentos sempre com álcool? Descobri o motivo: a fábrica sempre faz o primeiro abastecimento do tanque, na linha de montagem, com etanol, pois só produz carros flex. Então não faz sentido estocar os dois combustíveis. Como o etanol é mais barato…

Abastecer e estacionar, pode?

Uma das “dicas” mais recentes circulando na internet a respeito do carro flex é a recomendação de não se estacionar o carro à noite imediatamente após abastecer com etanol se o tanque tinha gasolina. A explicação é que o motor poderia ter dificuldade para pegar na manhã seguinte.

Pode até acontecer, mas é fato raríssimo, quase tão difícil quanto ganhar na loteria, pois só mesmo numa dificil e improvável  conjunção de fatores. Primeiro, a temperatura ambiente deve estar muito baixa, inferior a 15ºC. Segundo, o carro ainda deve ter o sistema do tanquinho auxiliar de gasolina que é acionado pela central eletrônica quando ela percebe o tempo frio e o etanol no tanque. E  mais: a dificuldade para o motor “pegar” de manhã é somente se o carro tiver rodado tão pouco entre o posto e a garage que o etanol ainda não tenha chegado ao sistema de injeção e a sonda lambda ainda não detectou a mudança de combustível no tanque. Vale também lembrar que o problema, embora raro, só acontece quando se troca gasolina por etanol. Se for o inverso, não há dificuldade alguma em fazer o motor funcionar pois o etanol é que dificilmente se vaporiza em baixas temperaturas.

Outra regrinha que não funciona mais é do custo de etanol em relação à gasolina para que seja interessante (financeiramente) sua utilização. Nos primeiros carros flex o índice era de 70%, pois essa era a diferença de consumo entre os dois combustíveis. Com a evolução do motores e do próprio álcool, o percentual pode chegar a 75%. Mais correto é o motorista verificar o consumo de seu carro com cada combustível para determinar o índice real.

Confira a nossa calculadora



       

   




Em geral a melhor opção é:
(Na média, uma relação de 73% ou menos do preço do etanol em relação ao preço da gasolina, favorece o uso do álcool. Se for 74% ou mais, use gasolina.)

A maioria dos carros produzidos no Brasil é flex. Ainda assim, as dúvidas sobre a tecnologia ainda pairam na cabeça dos motoristas. Conheça sete verdades sobre o assunto.
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6 Comentários
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    Luis Santos 11 de janeiro de 2019

    MInha opinião sobre o texto: sim e não…

    De fato as centrais atuais são muito mais espertas no controle das mudanças internas, de acordo com o combustível que ela recebe.

    Mas, de fato, a sonda lambda leva um certo tempo até identificar corretamente qual a mistura. E por um motivo óbvio: sua fonte de informação são os gases do escapamente. Ora, então a ignição tem que ocorrer antes de que sonda lambda possa captar qualquer informação.

    Além disso as sondas lambdas também foram evoluindo com o tempo. Antes levavam mais tempo para as capturas, e agora menos.

    Então as dicas e lendas da internet podem não se aplicar muito ao carros mais recentes. Eu, por exemplo, tennho um March 2013 que sempre troquei sem esquentar a cabeça entre álcool (etanol é pra químicos!) e gasolina, não me importando se o carro iria ou não depois pra garagem. E nunca tive nenhum problema com o bravo Nissan e seu HR16DE 1.6 nipônico.

    Mas para carros mais antigos, como Fox supracitado, isso pode ocorrer.

    Além disso é fato que certas centrais e motores tem seu mecanismos flex melhores que os outros. Os motores Renault e Nissan, por exemplo, eram, alguns anos atrás, famosos por poderem rodar tranquilamente com uma “gasolina” (que é uma mistura de vários compostos mais etanol) com etanol abaixo de 25%. Ou seja, com esses carros dá para abastecer sem sustos em toda a América do Sul. Já os motores VW não tinham essa capacidade.

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    Alexandre Jardim 6 de janeiro de 2019

    Boa noite Boris. Prazer em falar com você. Escrevo para lhe relatar um ocorrido comigo. Em 2011 comprei um VW Fox 1.6 flex 0 km (g2). Nos primeiros 2 meses usei apenas álcool. Certo dia, antes de ir trabalhar e com o tanque já quase na reserva resolvi colocar gasolina. Enchi o tanque num posto excelente de minha total confiança onde ainda abasteço. Rodei 3 km até o trabalho e só voltei ao carro 8 horas depois. Para minha surpresa, o carro não pegou mais. Foi no guincho para a concessionária e só voltou a funcionar quando foi conectado ao scanner da fábrica e informado à central que era gasolina.

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    Alexandre Jardim 6 de janeiro de 2019

    Boa noite Boris. Prazer em falar com você. Escrevo para lhe relatar um ocorrido comigo. Em 2011 comprei um VW Fox 1.6 flex 0 km (g2). Nos primeiros 2 meses usei apenas álcool. Certo dia, antes de ir trabalhar e com o tanque já quase na reserva resolvi colocar gasolina. Enchi o tanque num posto excelente de minha total confiança onde ainda abasteço. Rodei 3 km até o trabalho e só voltei ao carro 8 horas depois. Para minha surpresa, o carro não pegou mais. Foi no guincho para a concessionária

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    Lucas 6 de janeiro de 2019

    Carro flex foi lançado em 2013? como assim, tem flex desde 2005

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      José 6 de janeiro de 2019

      O correto é 2003

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    Geraldo Jose Cerqueira Xavier 6 de janeiro de 2019

    Esclareceu as minhas duvidas, obrigado( Carro abastecido com etanol, não poderia colocar gasolina enquanto o tanque não ficasse vazio)

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