A curva em que o Chevette novinho perdeu o rumo e as rodas

"O Chevette, quando comparado a Brasília, fazia mais curvas, freava melhor e era um carro muito mais equilibrado para uso diário"

Por Douglas Mendonça05/11/18 às 16h00

Como sempre, o “causo” é absolutamente verídico. Aconteceu, exatamente, no segundo semestre de 1977, mais precisamente nos últimos três meses do ano. Os protagonistas são o Chevette 1977, aquele com a primeira frente do modelo, e o meu amigo Antônio Carlos Machado, o Toninho, que cursou comigo o segundo grau do Colégio Técnico em Mecânica e depois o período que cursamos juntos a Faculdade de Engenharia Industrial FEI.

Amigo de longas datas e de muitas aventuras automobilísticas. Na época do causo, nosso intrépido amigo estava prestes a iniciar seu curso de Engenharia Mecânica e, por isso, ganhou de seu pai um Chevette novinho em folha.

O Chevette chegou em boa hora e veio substituir sua Brasília 1974 que, apesar dos ótimos serviços prestados ao longo do tempo que serviu ao Toninho e a nossa turma, tinha no Chevette um concorrente superior, dinamicamente falando. O Chevette, quando comparado a Brasília, fazia mais curvas, freava melhor e era um carro muito mais equilibrado para uso diário. Esses fatores, aliás, fizeram com que o Toninho trocasse sua querida Brasília pela novidade do Chevette.

Devo confessar que tenho muito a ver com essa escolha. Meu pai havia comprado, em 1975, um Chevette 1973 modelo 1974, daqueles com câmbio alemão com anel para engatar a marcha à ré. Esse carro, apesar de utilizar ainda os pneus diagonais, era excelente quando o assunto era contornar curvas.

Na época, fiz o maior alarde da excelente dinâmica do carrinho e meu amigo Toninho se impressionou com o meu relato. Não faltaram oportunidades para eu mostrar para os meus amigos a ótima dinâmica do Chevette. O carro era muito ágil ao comando do volante e contornava curvas como ninguém.

Como estávamos acostumados com o comportamento instável da plataforma Fusca/Brasília, ficamos impressionados com o que o Chevette, na época, era capaz de fazer. As minhas propagandas do carro de meu pai, surtiram efeito e, na primeira oportunidade, Toninho trocou sua Brasília por um Chevette.

No segundo semestre de 1977, o Chevette lançado no segundo semestre de 1973 receberia sua primeira reestilização da dianteira. Era uma boa oportunidade de se comprar o carro com a frente antiga, zero km com um superdesconto nas revendas Chevrolet. Foi aí a oportunidade que o Toninho esperava para ter o seu Chevette novinho em folha.

Chevrolet Chevette 1973: Raio X
Raio-X de um Chevrolet Chevette 1973

Em poucos dias, um pouco antes do final do ano de 1977, Toninho já desfilava com o seu Chevette branco novinho em folha. Toda turma aplaudiu, em nossa turma ele tinha o carro mais veloz em curvas. Certamente! Mas, foi justamente nesse aspecto, que teve início o seu causo com o Chevette que ele tanto aguardou.

Um sábado a tarde, o Chevette ainda não tinha completado os 500 km de uso, nosso piloto amigo se deliciava com a capacidade de fazer curvas do seu novo carro que já vinha de fábrica com pneus radiais. Na zona norte da cidade de São Paulo, o intrépido piloto fazia curvas no limite de aderência do seu nervoso Chevette. Em um trecho, havia uma curta reta de cerca de 150 metros e uma fechada curva a esquerda. Nosso amigo Toninho pensou: “O Douglas me disse que esse carro faz muita curva e chegou a hora de comprovar isso”.

Chevette “vesgo”

O trecho que citei era em ligeiro declive, que serviu para embalar ainda mais o audacioso Chevette. Quando ele iniciou a curva a esquerda, descobriu que o carro não estava indo para onde o volante de direção mandava. Ele estava derrapando na curva e o carro rumava em alta velocidade derrapando de lado para uma gloriosa guia.

A violência do impacto foi tão grande das rodas do lado direito com a guia, que nosso intrépido piloto, sem o cinto de segurança, foi jogado no banco do passageiro, onde ele, provisoriamente, tinha colocado um alto-falante ligado a um rádio improvisado no painel de instrumentos. Com a bunda, ele simplesmente esmagou o tal alto-falante e quando o carro parou ele estava sentado no banco do passageiro com as mãos no volante e as pernas no lugar do motorista. Um tremendo susto!

Toninho apressou-se em descer do carro para avaliar os prejuízos. Estranhou ao abrir a porta do motorista que o chão estava pertinho da soleira da porta. Esse não era um bom sinal. Desceu rapidamente e descobriu que na parte traseira não existia mais rodas. Colocou as mãos na cabeça em desespero. Mas ficou ainda mais desesperado quando um garoto da favela que existia logo após o local onde o carro parou, saiu dela com uma roda e um pneu dizendo a ele: “Olha moço, a outra roda do seu carro”. Junto com a roda e o pneu que o garoto trazia, vinha a panela de freio e um pedaço do semieixo que havia quebrado.

Nesse momento, o desespero foi completo. Ele descobriu que havia arruinado seu Chevette novinho! Na dianteira as rodas apontavam uma para cada lado… Ficaram vesgas, uma fritava o peixe e a outra olhava o gato. Não é preciso dizer que o seu Horácio, seu pai, quase o matou quando descobriu que ele simplesmente arrancou as suspensões do Chevette novinho em uma única manobra mal-feita.

Por sorte do nosso amigo, ninguém se machucou e seu pneu perdido com rodas e peças não feriu ninguém na comunidade que invadiu. Nem com um guincho o carro poderia ser levado embora. O carro tinha seguro que pagou todo esse prejuízo e a concessionaria que o arrumou fez um trabalho perfeito, pois nosso amigo nunca reclamou de problemas de alinhamento ou comportamentos estranhos quando o carro se locomovia. Sinal de que foi bem consertado.

Toninho ficou com esse carro por mais de 60 mil km sem problema algum. E esse causo, acabou se transformando em piadas e brincadeiras da turma para com ele, que sempre aceitou o seu erro com gargalhadas e gozação dele próprio. Infelizmente nem todos os acidentes de automóveis terminam só nos danos materiais, mas, nesse causo, a história terminou com boas risadas. Ainda bem!

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3 Comentários
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    Antonio Carlos Machado 5 de novembro de 2018

    Realmente foi uma grande sorte os prejuizos serem somente materiais. Hoje dou boas risadas dessa história. Esse mesmo carro andou no velho circuito de Interlagos.

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    Miriam 5 de novembro de 2018

    Kkkkkk muito bon

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    Reinaldo Manfrin 5 de novembro de 2018

    Dirigi Chevette de 1973 a 1986 trocava de carro todo ano , devido à sua suspensão dianteira o Chevette saia de frente e vc tinha que esterçar mesmo , mas em 1976 em direção ao bairro da Casa Verde pelo acesso Viaduto do mesmo nome o Chevette não só saiu de frente para lado oposto como continuou reto a sorte que estava devagar e depois do susto abrindo o capo vi que o parafuso da caixa de direção estava solto corrigido apertado pela gentileza concessionária Anhembi nunca mais tive qualquer problema com esse Carro só alegria .

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