Como o carro novo chinês está redefinindo o valor dos seminovos a combustão

Preço agressivo dos automóveis chineses impactaram não apenas no varejo de carros 0 km, mas também na precificação dos usados

REVENDA DE CARRO USADOS shutterstock
Preço do carro eletrificado chinês sacudiu o mercado e sobrou até mesmo para quem anuncia um usado (Foto: Shutterstock )
Por Flávio Passos
Publicado em 07/11/2026 às 09h00

Quem comprou um SUV a combustão há três ou quatro anos provavelmente não imaginava que, na hora de revendê-lo, seu principal concorrente poderia ser um automóvel zero-quilômetro chinês. Essa é uma das mudanças mais relevantes que observo no mercado automotivo brasileiro. A chegada dessas montadoras não está apenas ampliando as opções nas concessionárias, mas também alterando a percepção de valor dos seminovos e colocando à prova a lógica que, durante anos, sustentou seus preços.

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Esse movimento ganhou força em 2023, com a chegada de modelos como BYD Dolphin e GWM Haval H6, e se intensificou entre 2024 e 2025, com novos lançamentos e preços competitivos. Em 2026, a presença chinesa já demonstra sua consolidação: segundo a Bright Consulting, essas marcas responderam por 21,4% dos emplacamentos de veículos leves em setembro, mais que o dobro da participação registrada um ano antes. O que começou como uma alternativa de compra passou a influenciar toda a dinâmica do setor.

Na faixa entre R$ 100 mil e R$ 150 mil, essa disputa fica evidente. Quem busca um SUV a combustão seminovo, com dois ou três anos de uso, pode encontrar, dentro do mesmo orçamento, um elétrico chinês zero-quilômetro de entrada, como o BYD Dolphin Mini. Embora tenham tamanhos e propostas diferentes, esses veículos passam a disputar a atenção do mesmo comprador. É essa mudança de referência que ajuda a explicar a pressão sobre os preços dos SUVs usados nessa faixa de valor.

Para parte dos consumidores, o espaço e a versatilidade de um SUV ainda serão decisivos. Outros podem preferir abrir mão de uma carroceria maior para ter um veículo novo, com tecnologia embarcada, garantia de fábrica e serviços de pós-venda. A comparação deixa, portanto, de acontecer apenas entre modelos semelhantes e passa a considerar os benefícios oferecidos por veículos de categorias distintas. Isso exige uma nova leitura da relação entre preço e custo-benefício no mercado de seminovos.

O principal efeito dessa concorrência está na formação dos preços. O valor de um seminovo sempre teve o zero-quilômetro como uma de suas principais referências. Quando as montadoras oferecem descontos, bônus ou condições de financiamento mais atrativas, essa relação muda, pressionando o valor de revenda dos modelos a combustão. Consequentemente, o valor de um veículo usado também diminui. Para os lojistas, o desafio é ainda maior: um automóvel adquirido para estoque pode exigir uma redução de preço para continuar competitivo, comprometendo as margens de lucro.

Os números ajudam a dimensionar essa mudança. Segundo o IBV Auto, do Banco BV, veículos a combustão comparáveis aos eletrificados lançados em 2023 acumulavam desvalorização de 22,2% até setembro de 2026. Isso não significa, porém, que os chineses sejam os únicos responsáveis pela queda ou que todos os seminovos estejam perdendo valor na mesma intensidade. Os próprios elétricos e híbridos registraram perdas ainda maiores nesse levantamento, mostrando que a pressão sobre o valor de revenda atinge diferentes tecnologias.

Para o varejo, esse cenário exige uma gestão mais criteriosa dos estoques. A liquidez e o preço de um mesmo modelo podem variar entre regiões, conforme a demanda e a oferta disponível. Por isso, acredito que a precificação precisa considerar mais do que as referências tradicionais de mercado. Dados atualizados, inteligência artificial e análises de comportamento podem ajudar os profissionais a identificar oportunidades, reduzir o tempo de venda e tomar decisões mais precisas, sem comprometer a rentabilidade.

As montadoras tradicionais também estão reagindo, seja com condições comerciais mais competitivas, seja com atualizações de equipamentos e investimentos em eletrificação. Projetos de hibridização com tecnologia flex, como os desenvolvidos pela Stellantis, mostram a busca por alternativas alinhadas ao mercado brasileiro. Mas há outro desafio nessa disputa: preservar o valor residual dos veículos. Afinal, descontos agressivos podem estimular as vendas do zero-quilômetro no curto prazo, mas também alterar a referência de preço para quem já possui um automóvel da marca.

Olhando para os próximos anos, acredito que a concorrência tende a ganhar novas dimensões. A produção de veículos chineses em Camaçari, na Bahia, e Iracemápolis, em São Paulo, acrescenta uma variável importante à recomposição dos impostos de importação. Ao mesmo tempo, elétricos e híbridos que chegaram ao Brasil nos últimos anos começam a formar um mercado de seminovos mais amplo. Com preços potencialmente mais acessíveis, esses modelos passam a disputar espaço diretamente com os usados a combustão, ampliando a concorrência para além dos eletrificados zero-quilômetro.

Vejo esse momento como uma oportunidade de amadurecimento do mercado brasileiro. Os automóveis a combustão continuarão relevantes, mas sua competitividade dependerá cada vez menos apenas da tradição das marcas. Para compradores e vendedores, informações confiáveis sobre preços, histórico, manutenção e condições dos veículos serão fundamentais para negociações mais seguras e transparentes. No fim, o valor de um seminovo não será determinado somente pelo carro que ele foi quando saiu da concessionária, mas também pelos veículos com os quais precisará competir quando chegar a hora de ser vendido.

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