Corruptos são os outros

Motoristas praguejam contra políticos e empresários. Mas, ao volante…

Por Boris Feldman07/09/17 às 18h44
Coluna do Boris: corruptos são os outros

“Mas todos param, então eu paro também. É muito mais prático, eu estou com meu filho e assim ando muito menos!”

Essa foi a explicação de um jovem, bem nutrido e forte motorista de São Paulo, pego em flagrante pela polícia ao estacionar o carro numa vaga reservada para PcD (Pessoas com Deficiência). Além dos policiais que o autuavam, estava também uma equipe de reportagem da Globo, a quem ele tentou atacar ao perceber a filmagem. Teve que ser contido pelos seguranças do local (shopping). E gritou e gesticulou que vai continuar parando em vagas como aquela, com a brilhante argumentação acima.

Forçado pela profissão, eu viajo quase semanalmente. É difícil ver idoso ou PcD ocupando vaga reservada para eles. Fiz questão, por vezes, de aguardar motoristas chegando ou saindo delas. Raramente eram habilitados para utilizá-las.

Como raramente vejo motoristas respeitando pedestres em sua faixa. Com exceção de Brasilia, onde se fez intensa campanha neste sentido, a faixa não passa de um decoração no asfalto. Faço questão de respeitá-las e já ouvi buzinadas ou freadas de arrastar pneu dos motoristas na minha traseira. Quase provoquei um atropelamento ao parar antes da faixa para uma senhora. E outro motorista me ultrapassar pela esquerda quase atingindo-a. No Primeiro Mundo, nem precisa pisar no asfalto: basta fazer menção com o corpo de atravessar a rua na faixa para os automóveis estancarem imediatamente.

Evitar de fechar cruzamento é outra missão impossível para os motoristas brasileiros. Não se importam em travar desnecessariamente todos os carros que circulam pela outra artéria desde que garantam sua posição quando o fluxo de sua rua voltar a se movimentar. É aliás, outro momento em que ouço buzinadas e xingamentos: ao parar antes da esquina mesmo que o verde esteja aceso para mim.

Pais e mães deixando crianças na escola julgam-se no direito de encostar o carro exatamente defronte ao portão principal. Não se importam se, para isso, tiverem de formar filas duplas, triplas ou quádruplas. Não podem parar 50 metros à frente. Aliás, estacionar irregularmente é quase marca registrada do nosso motorista. Quem já não passou raiva ao ser impedido de sair de sua própria garagem por alguém que parou bem em frente “só um minutinho para comprar um cigarro na padaria”? Ou sem condições de deixar uma vaga na rua pois encontrou outro carro exatamente ao lado do seu, em fila dupla e trancado?

Escute aqui: as respostas do Boris para as dúvidas dos motoristas

O festival de trapalhadas e ilegalidades continua na rodovia. Usar a faixa da esquerda mesmo que seja o mais lento da estrada parece ser um direito conquistado sabe-se lá como. Ultrapassar pelo acostamento, bloquear a faixa de rolamento da estrada principal para ter acesso mais rápido a uma faixa marginal provoca desnecessários engarrafamentos.

Na estrada o motorista é abordado com maior frequência por policiais que o flagram numa infração. Depois de pedir os documentos dele e do carro, alguns iniciam a “conversa mole” para insinuar que a autuação poderia eventualmente não ser registrada se o motorista concordasse com uma “ajuda” à corporação. E a maioria encerra ali mesmo a questão, paga R$ 100 não tem o registro dos pontos no prontuário. Você deve ter ouvido diversas vezes – ou foi vítima – desta coação. Mas não foram – com certeza – muitas vezes que a história chegou ao final com o infrator acusando o policial.

Pois são estes mesmos motoristas que acham um absurdo e praguejam contra políticos e empresários que fizeram o gigantesco mal-feito que veio recentemente à tona. Uma corrupção institucionalizada que derrubou nossa economia, quase faliu o país e resultou em milhões de desempregados. Se não relutam em cometer todas estas ilegalidades atrás de um volante, do que seriam capazes à frente de uma Petrobrás ou Banco do Brasil?

Não existe pequeno ou grande delito. Existe delito.

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1 Comentário

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  • Audemar Constantin 10 de setembro de 2017

    Onde moro, cidade de origem alemã, as pessoas costumam dizer que na Alemanha sim que é bom, porque lá tudo funciona, mas como os motoristas daqui são iguais a maioria do Brasil, eu costumo lhes falar o seguinte: Que tal então fazer o mesmo aqui?

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