Fiat 50 anos: o Uno revolucionou o seu segmento em 1984
Modelo foi um divisor de águas nas operações da Fiat e ficou em linha até o final de 2013 e até hoje tem grande procura no varejo de usados
Publicado em 08/08/2026 às 11h00
O Fiat 147 revolucionou o segmento de carros pequenos, econômicos e populares em 1976, trazendo um automóvel de dimensões externas compactas e amplo espaço interno para os passageiros. Mecanicamente, o pequeno Fiat apresentava a novidade de dispor transversalmente o conjunto motor e câmbio, uma arquitetura inovadora para o mercado brasileiro da época.
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Oito anos depois, em 1984, a Fiat voltou a inovar ao lançar o Uno, em agosto daquele ano. Um compacto pensado de dentro para fora, com arquitetura construtiva e ergonomia capazes de fazer inveja aos concorrentes. Com generosa área envidraçada, o novo modelo oferecia um interior claro e alto, transmitindo uma agradável sensação de espaço, apesar de ser um carro pequeno e econômico.

Lançado um ano antes na Europa, o conceito do novo carro chegou praticamente intacto ao Brasil. O interessante é que, embora seguisse toda a filosofia do modelo europeu, o Uno brasileiro foi adaptado às necessidades do nosso mercado. Entre as principais diferenças estavam a suspensão traseira, que no modelo nacional era independente com feixe de molas transversal, e a posição do estepe. Aqui no Brasil, ele ficava alojado ao lado do motor, enquanto no modelo europeu ocupava espaço no porta-malas.
Para acomodar o estepe no compartimento dianteiro, o Uno nacional recebeu um capô que envolvia mais a dianteira e os para-lamas. Já no europeu, o capô era apenas uma simples tampa para acesso ao motor.
A mecânica com motor e câmbio transversais era diretamente herdada do Fiat 147. No novo Uno, a versão S utilizava o motor 1.050 com carburador simples, capaz de gerar 52 cv. Já a versão mais equipada, a CS, empregava o motor 1.300 também com carburador simples, entregando 59 cv.
Fiat Uno SX era a opção mais potente da linha
Em outubro de 1984 foi lançada a versão esportiva SX, sigla para Super Experimental. O modelo utilizava o motor 1.300 movido a álcool e, graças à adoção de um carburador de corpo duplo, produzia respeitáveis 70 cv.
É curioso lembrar que, naquela época, não existiam carros flex. No momento da compra, o consumidor precisava escolher entre gasolina ou álcool. Normalmente, os mais conservadores optavam pela gasolina, enquanto os mais ousados preferiam o melhor desempenho proporcionado pelo combustível vegetal.

Com relação ao câmbio, a Fiat oferecia a versão S apenas com transmissão manual de quatro marchas. Nas versões CS e SX, a marca disponibilizava o câmbio manual de cinco velocidades. Graças ao escalonamento adequado, a quinta marcha do Uno CS privilegiava a economia de combustível. Já no esportivo SX, as relações mais curtas tinham como objetivo melhorar o desempenho.
Com suspensão independente nas quatro rodas, o Uno oferecia comportamento dinâmico bastante agradável para quem gostava de dirigir. Ao mesmo tempo, os freios a disco dianteiros davam conta do recado para aqueles que preferiam um ritmo mais acelerado. A direção do tipo pinhão e cremalheira não contava com assistência hidráulica, mas os pneus estreitos tornavam as manobras relativamente leves.
Mas o novo compacto da Fiat se destacava mesmo pela ergonomia. As maçanetas das portas eram embutidas em uma discreta fresta lateral, sem saliências ou peças aparentes. Tudo era limpo e discreto. No enorme para-brisa chamava atenção o limpador único, capaz de varrer cerca de 75% da área total do vidro. Um verdadeiro escândalo tecnológico para a época.
Ao entrar no carro, a posição mais ereta do motorista já antecipava um conceito que a indústria adotaria décadas depois nos SUVs. Em vez de ficar escarrapachado no banco, como era comum nos carros da época, no Uno o motorista se sentava quase como em uma cadeira. Isso facilitava muito o acesso ao veículo e melhorava a visibilidade. Para tornar isso possível, o teto era mais alto, aumentando a área envidraçada e criando um ambiente interno claro e agradável.

Para o motorista, além da melhor visibilidade e da consequente sensação de segurança, o Uno trazia outra inovação interessante. Havia dois módulos satélites posicionados ao lado do volante, reunindo praticamente todos os comandos utilizados durante a condução. Era possível acionar lanternas, faróis, lavador e limpador de para-brisa, limpador traseiro, desembaçador e sinal de luz alta sem tirar as mãos do volante.
Tratava-se de uma solução extremamente moderna para a época, já que os demais carros nacionais obrigavam o motorista a esticar o braço em direção ao painel para acessar boa parte desses comandos.
Estepe dianteiro era uma solução inteligente de uso de espaço
Como o estepe havia sido deslocado para o compartimento do motor, o Uno nacional oferecia um bom porta-malas de 290 litros, apesar do comprimento contido de apenas 3,64 metros. Vale lembrar que, com o banco traseiro rebatido, a capacidade saltava para impressionantes 620 litros.
Em seu lançamento, o Uno era oferecido apenas na configuração de duas portas. A versão de quatro portas só chegou ao mercado brasileiro em 1992, pouco depois da introdução do Uno Mille.

Tive o prazer, no início de 1984, de ser convidado profissionalmente pela Fiat Automóveis para escrever o release de lançamento do novo Uno, material destinado a fornecer todas as informações técnicas e comerciais do carro à imprensa especializada brasileira.
Morando em São Paulo, fiz várias viagens a Betim, em Minas Gerais, para conversar com técnicos, engenheiros, pilotos e profissionais envolvidos no desenvolvimento e na produção do novo automóvel. O resultado foi um material bastante detalhado que, depois de aprovado pelo departamento de comunicação da Fiat, acabou distribuído para toda a imprensa brasileira.
Por isso, tenho um carinho todo especial por esse pequeno notável, que introduziu conceitos inovadores e ajudou a moldar parte da evolução da indústria automobilística nacional. Sem dúvida, um carro que marcou a sua época.
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