Domingo de Fórmula 1: o mais próximo que consegui chegar de Senna
No dia que fiquei cara a cara com o McLaren do tricampeão, deixei de ser repórter para ser apenas devoto do maior herói brasileiro
Publicado em 08/11/2026 às 11h00
Neste domingo (8) será disputado o Grande Prêmio de Fórmula 1 do Brasil, em Interlagos. E sempre que a gente fala em F1, lembramos de Ayrton Senna. Não é para menos: o tricampeão foi o maior piloto de todos os tempos. Senna é tão reverenciado que todos os pilotos sempre o colocam como imbatível. E é mesmo!
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E é sempre bom lembrar de Senna, que era um piloto absoluto e um cara de quem todo mundo gostava. O mais próximo que cheguei do tricampeão foi de dois de seus carros: o Lotus 87T (no Salão do Automóvel de 2014) e o McLaren MP4/6, 7 de novembro de 2018 (uma experiência sobrenatural).

Era Salão do Automóvel. E salão é sempre uma correria, com dezenas de coletivas e lançamentos. Se não bastasse registrar tudo o que é apresentado, o repórter tem que buscar algumas histórias inusitadas. Um segredo industrial ali, um relacionamento com executivo aqui, encarar incontáveis “quebra-queixos”, assim como encontrar matérias diferentes. Afinal, era preciso render o salão por várias edições.
No Salão de 2018, o São Paulo Expo estava abarrotado de anúncios: picape VW Tarok, conceito do Fiat Fastback, Mercedes AMG One, uma verdadeira loucura. E, no meio de tantos estandes, estava um com o novíssimo McLaren Senna. Um supercarro desenvolvido em tributo ao tricampeão.
Era o fim do primeiro dia de coletivas, a caminho do transporte para o hotel, derrotado de tanto andar, gravar, fotografar, entrevistar e anotar, quando cruzo com o saudoso Charles Marzanasco. Charlinho, que fora assessor de Senna e trabalhou por muitos anos na comunicação da Audi, estava cuidando da assessoria do estande que tinha levado o McLaren. “Amanhã venha ver o Senna, tenho uma pauta legal para você, que gosta dessa coisa de joguinho!”

Quem conheceu Charles sabia que ele jamais ofereceria uma pauta medíocre. Se ele falou para ir ao estande, era porque tinha algo legal. Na manhã do segundo dia de coletivas, corri para o estande e lá estava não apenas o Senna, mas também o MP4/6, carro com o qual o piloto conquistou seu terceiro mundial em 1991.
Era algo impressionante. A pauta era fazer o McLaren Senna de verdade e sua versão “virtual” numa cadeira de simulador conectado ao Xbox One, com o jogo Forza Horizon 4, que tinha o modelo como carro da capa. O acesso ao estande era restrito, com seguranças e tudo mais. Afinal, ali estava uma das 500 unidades do Senna, que na época era avaliada em R$ 8 milhões. Mas Charles me deixou à vontade e pude entrar no carro, futricar os comandos, brincar no videogame, gravar vídeos e fazer fotos.
Naquela época, só se gravava para YouTube, na horizontal. Essa coisa de vídeo vertical era muito estranha. E a gente ainda não tinha o traquejo para produzir para redes sociais. Ainda se gravava seguindo as instruções das aulas de TV da faculdade. Microfone sem fio? Câmera com estabilizador? 4K? Nada disso, era tudo na marra e a qualidade… uma tragédia.

Mas eu gravei (o vídeo está no fim do texto) com o máximo de esmero que poderia fazer. Dirigir no videogame e depois me acomodar dentro do Senna foi algo muito legal, pois o videogame mostrava que se tratava de um supercarro, que acelerava loucamente pelas vias britânicas. E quando eu entrei no McLaren de verdade, tinha todo aquele fator sensorial que falta à simulação. Claro que o ideal seria dirigir o carro de verdade. Mas como já disse era uma das 500 unidades e que custava mais de R$ 8 milhões (na correção do IPCA do período, hoje seria R$ 12 milhões, fora a valorização do carro).

No entanto, eu queria mesmo era tietar o MP4/6. Tudo bem que o McLaren Senna era algo absurdo e que dificilmente eu iria vê-lo novamente. Mas aquele monoposto é algo sagrado. Senna foi campeão com aquele carro, simples assim.
Para quem assistiu àquele 1º de maio de 1994, ficar diante do MP4/6 exige reverência e tributo. É preciso conversar em silêncio e admirar com atenção cada detalhe. Era algo que fugia ao profissionalismo. Sabe aquela história de que repórter não bate palma, não se emociona? Balela!
Eu estava em outra dimensão. Fitava aquele volante com o conta-giros, naquele espaço diminuto, em que mal dava para mexer os braços e os pés. E, claro, diferentemente do McLaren Senna, no MP4/6 eu não poderia me acomodar ao volante. Primeiro porque não caberia, segundo porque o carro é uma raridade e terceiro porque seria uma heresia.

Ali não era mais repórter, só um devoto do maior herói brasileiro, estava tão abalado, que me esqueci de gravar um vídeo daquele carro. Mas não tem problema, ali era eu, ele e mais ninguém.
Mas me atrevi a dar um beijo nos dedos e tocar no volante, assim como fazemos aos pés da imagem do santo na igreja.
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