Para especialistas, gasolina E32 terá pouco impacto em carros ‘monocombustíveis’
Mudança na formulação do combustível gerou alarde nas redes sociais, mas o próprio gerenciamento do veículo traz salvaguardas
Publicado em 06/09/2026 às 09h00
O aumento do teor de etanol adicionado à gasolina para 32% veio acompanhado de publicações em tom de calamidade nas redes sociais. Uma afirmação comum é a de que essa nova mistura irá corroer os motores, principalmente os que não são flex.
Apesar de ser uma mistura com nível alto de etanol, ela não é tão prejudicial ao carro como estão alardeando nas redes sociais. Isso levando em consideração uma gasolina que não tenha sido adulterada — por isso sempre recomendamos abastecer em postos de confiança.
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O etanol da gasolina E32 não é o da bomba

Antes de falar dos motores, vamos explicar como os combustíveis são feitos. O etanol E100 que compramos direto nas bombas é o hidratado, que pode ter de 4% a 5% de água.
Ela não é adicionada ao combustível: é fruto de seu processo produtivo. Se o nível de água for muito acima disso, o posto pode estar adulterando o combustível.
Já o etanol que faz parte da gasolina é o anidro, que não possui água. Ele é até mais caro que o hidratado, pois precisa passar por um tratamento para chegar a esse resultado.
Esse etanol anidro é adicionado à gasolina para atuar como agente antidetonante, que tem como efeito aumentar sua octanagem. Essa adição é feita em todo o mundo, porém em porcentagens de até 10%. No Brasil, o teor é maior com a justificativa da nossa produção de cana-de-açúcar e para reduzir a dependência do petróleo estrangeiro.
Como o motor a gasolina lida com essas mudanças na mistura

Para entender como essas mudanças na concentração de etanol anidro na gasolina realmente afetam os motores que não são flex, conversamos com o engenheiro Erwin Franieck. Ele é conselheiro e mentor de PD&I da SAE Brasil e trabalha com injeção eletrônica desde o início dessa tecnologia no Brasil.
Os carros vendidos no Brasil a partir de 1997 já contam com a sonda lambda, que realiza leituras da queima do combustível. Esse dado é utilizado pela injeção eletrônica para acertar o mapa conforme o combustível utilizado e outros fatores.
Essa mesma sonda é a responsável por “identificar” qual combustível ou mistura entre eles é usada nos motores flex. Nos modelos apenas a gasolina, ela identifica o teor de etanol para a centralina acertar o ponto.
A relação estequiométrica é a proporção ideal entre massa de ar e massa de combustível necessária para uma queima completa. Para a gasolina pura, é de aproximadamente 14,6:1 e, para o etanol, é de 9,0:1.
Segundo Erwin Franieck, os sistemas de injeção usados a partir de 1997 possuem uma base de 20% de variação estequiométrica de mistura em carga parcial. Na marcha lenta ele permite mais, 30%. Essa margem de segurança para adição de etanol é global. vale também para modelos importados.
Erwin exemplificou a variação estequiométrica entre a antiga gasolina E22 com a nova E32, que fica abaixo de 5%. Ou seja, os motores com mais de 20 anos possuem a capacidade de se adaptar ao combustível atual; será sentida apenas uma mudança no consumo.
O engenheiro citou que já testou em seu carro monocombustível gasolinas com até 40% de etanol e o funcionamento foi normal. O ponto que exige cuidado dos motoristas é a qualidade do combustível.
Adulteração é o verdadeiro problema
Com a popularização dos carros flex, os donos de postos de má-fé mudaram a forma de adulterar a gasolina. No lugar de adicionar solventes, passaram a colocar mais etanol na mistura.
O problema para os carros apenas a gasolina está no uso do etanol hidratado para essa falcatrua. Essa água pode atacar e corroer peças internas do motor. Motores com injeção direta são ainda mais sensíveis.
Nos motores flex ou a álcool, existe um tratamento para evitar isso. O gerenciamento deles permite funcionar com até 23% de água; acima disso, podem ocorrer falhas.
Motores anteriores a 1997 e motos exigem mais atenção

Tudo o que falamos sobre sonda lambda e a capacidade de adaptação das injeções vale para carros feitos a partir de 1997, incluindo os importados. Sistemas de injeção sem sonda lambda não contam com esse tipo de flexibilidade.
Os motores com carburador, incluindo os de motocicletas, também podem não se dar bem com a gasolina E32. O etanol pode atacar componentes de alumínio do carburador, além de exigir um acerto diferente do original.
Os fabricantes estão prontos para os aumentos no teor de etanol
Apesar desse aumento recente do teor de etanol na gasolina ter sido aprovado sem testes, os fabricantes garantem que seus carros monocombustíveis irão funcionar corretamente. A Chevrolet confirmou que o Equinox e a Silverado, seus carros que não são flex, estão aptos a rodar com a E32.
A marca norte-americana disse que seu centro de engenharia regional está capacitado para desenvolver os veículos de acordo com as condições locais. Essa tropicalização ajuda a reduzir os ricos de problemas relacionados a gasolina com alto teor de etanol.
A GWM também afirma que todos os seus carros a gasolinas vendidos no país podem usar a gasolina E32 sem problemas. Ela diz que seus carros foram validados antes de serem lançados no país e também estão prontos para misturas maiores, como a E35.
Segundo a marca chinesa seus carros recebem calibração do motor e do sistema de combustível para poderem ser vendidos no Brasil. Todas as particularidades da gasolina brasileira com seu alto nível de etanol foram consideradas.
A GWM agora adota motor flex nas linhas Haval H6 e Tank 300, com futuros lançamentos já chegando com essa tecnologia.
A gasolina E32 vai corroer o seu motor?

O etanol hidratado pode, sim, corroer motores que não foram feitos para recebê-lo, o que não é o caso dos veículos flex ou movidos exclusivamente a álcool. Uma das principais mudanças nesses propulsores é o uso de tratamentos anticorrosão nas peças que entram em contato com o combustível.
Já a gasolina, mesmo a nova E32, não apresenta esse risco. O uso do etanol anidro na mistura é feito exatamente para evitar esse problema.
O etanol anidro em si é higroscópico e pode absorver até 6% de água. Porém quando está misturado na gasolina não existe risco, o que tira o risco de corrosão das peças internas.
O que pode ocorrer é da gasolina evaporar dentro do tanque, mas ela é pega pelo sistema de recirculação e volta para o reservatório ou é queimada pelo motor. Tudo isso está previsto dentro do projeto dos veículos.
Além disso, os motores vendidos no Brasil já são preparados para lidar com o etanol. Rogério Gonçalves, diretor de Combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), explica:
Os motores brasileiros são desenvolvidos para gasolina com etanol, sejam eles flex ou não. O etanol já é utilizado na gasolina brasileira desde a década de 70, com a criação do Proálcool.”
Os riscos de danos ao motor existem com combustíveis adulterados. A gasolina E32, quando comparada com a antiga E30 ou com a premium E25 (que ainda é oferecida), irá apenas aumentar o consumo do veículo.
Isso vale até para os carros importados vendidos oficialmente no Brasil. Os modelos que temos em nosso mercado passam por uma tropicalização para poderem rodar com nossa gasolina e atender a outras demandas, conforme Rogério Gonçalves aponta:
Em tese, não é prevista qualquer necessidade de manutenção nos veículos por conta do aumento do teor de etanol na gasolina. Veículos importados que não foram ‘tropicalizados’ pelas montadoras para a gasolina brasileira merecem uma atenção especial e, caso necessário, podem utilizar a gasolina premium, que se mantém com 25% de etanol.”
Se você tem o hábito de abastecer em postos confiáveis e sem histórico de adulterações no combustível, a gasolina nova não será um problema.
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