Meta de aumentar o percentual de etanol 32% na gasolina necessita bateria de testes de longa duração e prazo de pelo menos três anos para validação
O governo federal anunciou que elevará ainda mais o percentual de etanol na gasolina. Atualmente em 30%, a mistura deve chegar a 32% até o fim do semestre. Para isso, são necessários ensaios que atestem que a mudança não comprometerá os motores da frota circulante. A pergunta que fica é: haverá tempo hábil para todos os testes com a chamada gasolina E32?
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Para responder a essa questão, consultamos engenheiros e executivos. A resposta é categórica: não dá tempo. De acordo com Erwin Franieck, conselheiro do Comitê de Fontes Renováveis de Energia da SAE Brasil, este é um processo de médio e longo prazo.
“No passado, fazíamos esses ensaios para uma adequação que ocorreria daqui a três anos, não de um dia para o outro. Até o final do semestre, é impossível atestar que a nova mistura (E32) é segura para toda a frota. Não há problema em aumentar o percentual de álcool, desde que se conceda um prazo de três ou quatro anos para a realização de todos os testes”, analisa.

Na mesma linha, Rogério Gonçalves, diretor de Combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), afirma que o prazo permite apenas testes superficiais, o que não seria o correto.”Para realizar testes iguais aos feitos para o E30 (pelo Instituto Mauá em 2025), o tempo é suficiente, pois eles não incluíram durabilidade. Foram avaliados aceleração, emissões, dirigibilidade e ataque de materiais, sem problemas detectados. Mas a AEA alertou sobre a necessidade de testes de longa duração”, afirma.
Mas é possível exigir tal teste? Segundo Gonçalves, atualmente não há uma metodologia para durabilidade, apenas para emissões de longa duração, exigidas dos fabricantes. “Eles precisam rodar 160 mil quilômetros e verificar o nível de degradação de emissões para validação junto à Cetesb e ao Ibama, mas falta uma padronização da ABNT para durabilidade”, explica.
Hoje, cerca de 80% da frota de automóveis de passeio e comerciais leves é composta por modelos flex. Contudo, ainda há um grande percentual de veículos movidos exclusivamente a gasolina: carros antigos, modelos importados não totalmente tropicalizados e uma frota de motocicletas que supera 35 milhões de unidades — muitas das quais não suportam etanol.
“O problema reside nos modelos antigos a gasolina, nos importados e no setor de motos, que são mais sensíveis. Além disso, os testes devem considerar até 34% de mistura, pois há uma tolerância de 1% nas distribuidoras e mais 1% nos testes laboratoriais”, alerta Gonçalves.
Erwin Franieck ainda chama a atenção para os motores a gasolina com injeção direta (GDI), que podem apresentar falhas graves. Segundo o especialista, esses motores são calibrados para uma pressão muito superior à suportada pelo etanol.

“Motores GDI projetados no exterior trabalham com pressões de 350 bar, enquanto a pressão suportada pelo etanol é de 100 bar. Assim, um motor de injeção direta e turbo feito para gasolina irá sofrer se abastecido com tanto álcool. Quem possui um carro com essa tecnologia tem motivos para se preocupar com a gasolina E32”, alerta o engenheiro.
Do outro lado do balcão, executivos de montadoras admitem que a realidade dos combustíveis no Brasil é preocupante.”Hoje já não usamos gasolina pura; um terço da composição é outra substância. Com 30%, motores exclusivamente a gasolina já estão no limite. Eles apresentarão dificuldades de partida no inverno e componentes como filtros e bicos injetores tendem a se desgastar precocemente”, aponta um executivo de uma marca líder, sob condição de anonimato.
Ele corrobora o parecer dos engenheiros da AEA e SAE: donos de carros flex não terão problemas mecânicos, mas sentirão o golpe no bolso devido à menor eficiência energética. “O brasileiro pagará mais caro por um combustível que rende menos. Já quem possui motos ou carros carburados terá problemas crescentes”, garante.
Questionado se a indústria poderia adotar em carros importados o mesmo tratamento anticorrosão dos motores flex, o executivo foi enfático: “A indústria não investe onde não é estritamente necessário. Esses modelos foram projetados para a gasolina de seus mercados de origem. O resultado inevitável é maior consumo e desgaste precoce”.

Em suma, quem possui veículos não flex — sejam esportivos importados, clássicos carburados ou motocicletas — enfrentará dores de cabeça futuras ao abastecer com um combustível incompatível com o projeto original de seus motores.
O Ministério de Minas e Energia foi questionado se o prazo até o meio do ano seria suficiente para garantir o pleno funcionamento da gasolina E32, mas não retornou até o fechamento desta reportagem.
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