McLaren Senna: impressões ao não dirigir

Deficiente visual conta suas impressões sobre o superesportivo após "vê-lo com as mãos" durante o Salão do Automóvel de São Paulo

salao mclaren senna
Por AutoPapo
Luiz Alberto Melchert, especial para o AutoPapo
Publicado em 16/11/2018 às 08h20
Atualizado em 16/11/2018 às 17h09

Existem coisas que uma pessoa cega só pode conhecer por miniaturas. Um navio é uma delas. Por mais que uma pessoa privada de visão possa conhecer cada um de seus cantos, de proa à popa, a ideia de conjunto só se consegue por um modelo que se possa segurar com uma ou ambas as mãos. Maior que isso já requer um exercício muito mais complexo, porém não impossível, de imaginação. Imaginemos um ônibus com 20 m ou mais. O indivíduo, para ter ideia exata de como é, precisará, no mínimo de uma escada e de algumas horas disponíveis. Se ele contar com uma miniatura, terá ideia global mas não da tessitura de sua pintura, da variação de seus materiais e muito mais. Assim, o ideal é que se consigam as duas coisas ao mesmo tempo, a miniatura para o global, o real para o detalhe.

Mas se engana quem pensa que a imaginação não está ao alcance de um cego. É claro que, se o indivíduo já tiver enxergado até uma idade em que as imagens se tenham fixado em seu cérebro, a noção será muito diferente da que uma pessoa com cegueira perinatal tem: até as habilidades são diferentes. Tendo ou não nascido cegos, todos têm noção do belo, porém, nem sempre de forma coincidente, o que, aliás, não é novidade, haja vista que gosto não se discute, não é?

Luiz Alberto Melchert fez um test-drive sem dirigir o McLaren Senna exposto no Salão do Automóvel de São Paulo 2018

Ideia de como é um Fórmula 1 está ao alcance de todos os cegos, tamanha é a quantidade de miniaturas que existem no mercado. Tatear um, porém, é algo indescritível, mesmo que um modelo com quase 30 anos de idade, como eu tive a oportunidade de fazer, neste Salão do Automóvel de São Paulo, graças ao meu xará, Luiz Alberto Pandini. Sim, eu sempre soube que um carro desses tem quase 5 m de comprimento, como um Toyota Kanri, ou um Fiat Toro, pois sou amante da mecânica e também acompanho a Fórmula 1 desde os tempos de Surtees e Jim Clark.

Ao tatear um veículo real, a noção é outra, até surpreendente. Eu tinha memória visual dos carros dos anos 1960 e minha imaginação transpôs para as miniaturas que vieram depois mas as proporções tinham-se perdido. Confesso que fiquei com vontade de desmontar o carro, só faltou pedir a caixa de ferramentas.

Do sonho à realidade

Só que o sonho só estava começando porque passei ao McLaren Senna que estava em exposição. Comecei pela frente, com seu radiador horizontal, com admissão do ar por baixo e a saída por duas aberturas redondas, encimadas por duas canaletas que iam se tornando mais rasas na direção do para-brisas. A posição do radiador e a tomada por baixo, não me foi novidade, pois parecia com a do Citroën DS 19 dos anos 1950 em diante.

Fantástico foi o aproveitamento da termodinâmica aliada à aerodinâmica do McLaren Senna para maximizar o fluxo de ar sem aumentar o arrasto. Também me impressionou o fato de a tomada de ar para refrigeração dos freios dianteiros ser independente. Da mesma forma, achei curiosa a forma com que se admite o ar para as turbinas, pegando-o sempre o mais frio possível, com a menor contaminação pelo ar quente gerado pelo motor ou pelo sistema de arrefecimento, que fica na dianteira.

Foi então que comecei a examinar as rodas com cubo rápido, cuja porca-calota lembram muito a cabeça dos parafusos usados para o aperto do cabeçote dos motores diesel mais modernos, visando o máximo aperto com o menor risco de escapar a ferramenta. Também achei interessante a posição das pinças de freio na parte posterior dos discos dianteiros, o que permite deixar os flexíveis agregados ao braço oscilante, o que aumenta a dissipação de calor. Até então, um monumento à engenharia.

Por fora e por dentro do McLaren Senna

Já estava satisfeito, até emocionado, quando fui convidado a entrar no McLaren Senna. O painel retrátil, visando a não atrapalhar a visão do piloto, a tela tátil do computador de bordo ajustável para ficar à mão, o teclado do câmbio no console são, no mínimo, inusitados para quem não está acostumado a sentar ao volante de um supercarro. No lugar do passageiro, pude experimentar abrir e fechar a porta em forma de asa de borboleta, com a trava no teto: tudo muito fácil, tudo muito leve. Só estranhei a cobertura de Alcantara do volante, igual à forração dos bancos. Achei que o atrito seria excessivo mas, como não sou piloto, quem sou eu para criticar?

Foi somente quando saí do McLaren Senna e estava tirando as fotos de praxe que me lembrei de perguntar de que cor ele é. Aí, sim, a imagem ficou completa no meu cérebro, porque, até então, eu o tinha imaginado branco com detalhes em vermelho. Tive que me acostumar com a ideia de que é laranja com detalhes em cinza, da cor natural da fibra de carbono, e azul, como nas pinças de freio.

Se achei bonito? Funcional, eu diria. Linda é uma Ferrari Dino, que só pode ser feminina pelas suas formas. O fato é que, embora eu tenha conhecido uma boa parte do globo terrestre e tateado muitas obras de arte que um mortal jamais teria imaginado em tocar, essa foi uma impressão ímpar que vou guardar com todo o carinho. Deixo aqui meu abraço ao Luiz Alberto Pandini e a todos da equipe.

Fotos Luiz Alberto Melchert

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4 Comentários
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Sérgio Faria 16 de novembro de 2018

Em primeiro lugar, excelente os comentários e detalhamento que o Luíz Alberto trouxe para quem, como ele, também é cego. Além disso, creio que um número incontável de cegos se sentiu representado por ele. Pois, esse sem número de cegos gostaria de ter vivido essa experiência que ele teve. Eu me incluo entre eles. Obrigado por transcrever-nos essa experiência através dessa matéria.

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Luiz Alberto Melchert 16 de novembro de 2018

Eu estava em outro stand, quando o meu xará me foi convidar. Continuei meu trabalho e fui indo na direção do stand deles e deu no que deu.

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Carlos 16 de novembro de 2018

Matéria Incrível! Obrigado por compartilhar essa experiência tão ímpar, de forma totalmente sensível (em todos os sentidos kkk)

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e silva 16 de novembro de 2018

Imagine se tivesse um elevador e um quadro de ferramentas por lá.

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