O que você precisa ter para instalar um carregador de carro elétrico na sua casa?

Entenda como funciona a instalação de carregadores em residências, quais são as normas de segurança e os riscos de procedimentos incorretos

carregadores de carros elétricos mão de pessoa plugando um carregador em carro elétrico ou híbrido plug in branco. autonomia carro elétrico
O responsável técnico deve verificar o auto de vistoria da edificação, avaliar a rede elétrica e elaborar o projeto de instalação e possíveis adaptações (Foto: Shutterstock | AutoPapo)
Por Julia Vargas
Publicado em 17/05/2026 às 11h00

O crescimento exponencial na venda de veículos eletrificados no Brasil, que registrou alta de 173% em abril de 2026,  trouxe à tona um desafio para muitos proprietários: a instalação de carregadores de carros elétricos e híbridos plug-in. Sem um padrão nacional definitivo, a prática tem gerado dúvidas, riscos reais de incêndio e até mesmo disputas judiciais com direito a  ‘impeachment’ de síndico.

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Nesta matéria, você confere o que é necessário para fazer a instalação, incluindo quais são as exigências de segurança, os perigos das gambiarras e as diferenças entre os tipos de residências e modelos de carregadores.

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Como instalar um carregador de carro elétrico na sua residência com segurança

De acordo com Arthur Carrão, CEO da Recharge Brasil, empresa de engenharia e eletromobilidade, a principal exigência para a instalação de um dispositivo de carregamento veicular é uma infraestrutura elétrica adequada e segura. O primeiro passo é realizar uma avaliação técnica da instalação existente, verificando a capacidade do padrão de entrada, o quadro elétrico, o aterramento e a disponibilidade de carga elétrica para suportar o carregador.

Por norma, também é necessário haver um circuito dedicado exclusivamente para a recarga do veículo, com proteções específicas como disjuntor, Interruptor Diferencial Residual (IDR) e Dispositivo de Proteção contra Surtos (DPS) corretamente dimensionados.

Para Carrão:

Mais importante do que simplesmente ‘ter uma tomada disponível’ é garantir que a instalação esteja preparada para operar continuamente, seguindo todas as normas vigentes. É importante destacar que a mobilidade elétrica deixou de ser algo ‘experimental’. Hoje existe uma base normativa sólida e alinhada com padrões internacionais.”

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Para instalação de um carregador é preciso avaliar a rede elétrica, possivelmente, realizar uma série de adequações. (Foto: Rodolfo Buhrer / La Imagem / Geely)

Segundo Márcio Severine, Conselheiro e Diretor de Infraestrutura da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), depois da verificação das instalações elétricas, a próxima etapa é a escolha do modelo de equipamento mais adequado e que atenda às expectativas do proprietário do veículo eletrificado. Depois disso, o diretor destaca que é importante contratar um técnico qualificado para elaborar o projeto elétrico e a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART).

A ART é um documento oficial importante que vincula um engenheiro eletricista registrado à autoria de um projeto, formalizando sua responsabilidade legal sobre a instalação e garantindo que as normas técnicas foram seguidas.

Adaptações na rede elétrica das residências

Como mencionado anteriormente, se você quiser instalar um dispositivo para recarregar seu carro na sua residência, seja ela uma casa ou um apartamento, é necessário um estudo prévio e um projeto baseado nessa avaliação, em que estarão indicadas as alterações necessárias. Márcio Severine afirma que essas adaptações podem incluir substituição de cabos e componentes do sistema, instalação de pontos para desligamento de emergência, troca de conduítes e instalação de quadros de distribuição.

Arthur Carrão, da Recharge Brasil, também pontua que existe uma diferença na disposição das redes elétricas de casas e prédios.

  • Casas – em residências com apenas uma família, normalmente a adaptação é mais simples e envolve a análise da carga disponível, criação de circuito dedicado e instalação das proteções adequadas.
  • Condomínios e prédios – com múltiplos núcleos familiares, a complexidade aumenta bastante. É necessário avaliar a demanda simultânea, a capacidade dos transformadores, a medição individualizada e estratégias de balanceamento de carga para evitar sobrecarga no sistema elétrico do edifício. Além disso, em prédios é comum haver necessidade de alinhamento com síndico, administradora, concessionária e até Corpo de Bombeiros, dependendo do projeto.

Atenção: é preciso ter cuidado redobrado nos edifícios, pois a avaliação da infraestrutura pelo profissional habilitado deve ser global, evitando que sejam feitos projetos individualizados sem um estudo da carga total, especialmente se mais de um carregamento será feito ao mesmo tempo.

Ter um profissional qualificado ou uma empresa especializada responsável pela instalação é fundamental

Com inúmeros casos de incêndios de carros eletrificados, sendo que muitos envolvem o processo de carregamento, muitos proprietários desses veículos estão receosos. O problema é que muitos donos ainda não entenderam que recarregar um carro movido à bateria não é a mesma coisa que ligar um eletrodoméstico comum na tomada.

Arthur Carrão, da Recharge Brasil, destaca que a segurança da recarga depende diretamente da qualidade da engenharia e da execução da instalação. Para ele, “a instalação de um carregador veicular deixou de ser apenas um serviço elétrico convencional. Hoje ela envolve engenharia, gestão de energia, conectividade e segurança operacional”.

O executivo afirma que atualmente já existe no Brasil um número crescente de engenheiros, eletricistas e integradores especializados em mobilidade elétrica, além de fabricantes e empresas que oferecem treinamentos específicos para instalação e comissionamento de carregadores. No entanto, ainda há uma carência de padronização e qualificação em parte do mercado. Por isso, Carrão aconselha que consumidores e condomínios busquem empresas com experiência comprovada, responsabilidade técnica e conhecimento específico em infraestrutura de recarga.

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O responsável técnico pela instalação precisa redigir o ART para oficializar a autoria do projeto. (Foto: Stellantis | Divulgação)

Além disso, antes de iniciar qualquer instalação, é fundamental que o Auto de Vistoria (AVCB) da edificação seja verificado. O responsável técnico deve avaliar se será necessário fazer adaptações no projeto de segurança contra incêndio e pânico do prédio.

Segundo o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais (CBMMG), caso seja necessário regularizar a edificação, o responsável técnico precisa averiguar as condições de segurança da edificação onde o Sistema de Alimentação de Veículos Elétricos (Save) será inserido. Ainda será preciso adotar as medidas necessárias para mitigar riscos relacionados ao carregamento desses tipo de veículo. É indispensável que a instalação do Save seja acompanhada por um profissional habilitado.

Depois de concluído o procedimento, você pode solicitar uma vistoria do Corpo de Bombeiros. O órgão pode verificar a validade do AVCB e ainda solicitar a apresentação do documento de responsabilidade técnica (ART) emitido por profissional competente atestando que a instalação dos pontos de carregamento seguiu as disposições das normas técnicas vigentes.

Qual a diferença entre a instalação de wall box e de carregador portátil?

Segundo Márcio Severine, diretor de infraestrutura da ABVE, as exigências técnicas para uma instalação segura dos carregadores portáteis e Wallbox são as mesmas, bem como as proteções do sistema de recarga. As principais diferenças envolvendo os dois equipamentos são a corrente elétrica e potência, que são maiores no caso de um Wallbox.

O carregador portátil normalmente é conectado em tomadas convencionais e possui potência reduzida. Ele pode funcionar como solução emergencial ou ocasional, mas exige atenção redobrada quanto à qualidade da tomada e da instalação elétrica. Se você acha que pode usar esse tipo de dispositivo diariamente em uma tomada comum de (220V/20A), está cometendo um erro que pode ser grave.

Carregador de EV doméstico
O Wallbox é o equipamento mais adequado para o carregamento diário. (Foto: ShutterStock)

Isso porque o equipamento portátil, de forma geral, trabalha com uma corrente superior de 30A, além de que uma tomada residencial não tem a resistência mecânica necessária para suportar 8 ou 12 horas diárias de operação e não dispõe dos dispositivos de proteção exigidos por lei. Em outras palavras, esse tipo de carregador requer a adequação das instalações elétricas para garantir o funcionamento sem riscos.

Enquanto isso o wall box é um equipamento fixo, desenvolvido especificamente para recarga veicular. Ele oferece maior potência, mais segurança, comunicação inteligente com o veículo, proteções adicionais e uma experiência mais eficiente. Na prática, o wall box é a solução recomendada para uso diário e recorrente.

Regras da instalação de carregadores passam por normas técnicas, até diretrizes estaduais

O Brasil já possui padrões técnicos que regulamentam a instalação de carregadores e estão em constante processo de evolução. Exemplo disso são as Normas Brasileiras Regulamentadoras (NBR), diretrizes criadas e certificadas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Mais especificamente, merecem destaque a NBR 17019, que trata da infraestrutura elétrica para alimentação de veículos elétricos, a tradicional NBR 5410, que rege instalações elétricas de baixa tensão, e a NBR IEC 61851-1, que trata de sistemas de recarga condutiva para veículos elétricos.

Entidades como o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) têm orientações próprias publicadas. O Confea estabeleceu a edição 2025 da nota técnica provisória batizada de “Diretrizes para instalação de pontos de recarga de veículos elétricos em edificações”. O documento prevê a obrigatoriedade de sistemas de detecção de incêndio, planos de gerenciamento de riscos, protocolos de inspeção e manutenção periódica.

Adicionalmente, cada estado pode definir instruções técnicas, através do Corpo de Bombeiros, para aumentar a segurança das instalações contra eventuais incêndios. Essas normas definem critérios de segurança, proteção elétrica, aterramento, dimensionamento de cabos, dispositivos de proteção e até requisitos para uso em condomínios e áreas públicas.

O Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, por exemplo, está na fase final de elaboração de uma norma própria para conciliar a segurança das edificações e das pessoas com o avanço das inovações do mercado. Até que esse texto seja publicado, não são exigidas medidas adicionais de segurança no estado. A norma é uma nova edição da Instrução Técnica nº 30 – Instalações e Equipamentos Elétricos voltada para edificações ou espaços destinados ao uso coletivo que aplicam o Sistema de Alimentação de Veículos Elétricos (Save).

Normas para a instalação de carregador de carro elétrico em São Paulo

No início deste ano, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), assinou a Lei no. 18.403, a chamada lei do Direito à Recarga, que assegura o direito de carregamento para veículos elétricos nos condomínios comerciais e residenciais do estado de São Paulo.

No estado, essa lei funciona associada às regras específicas previstas na Instrução Técnica nº 41 do Corpo de Bombeiros de São Paulo e na Portaria Nº 003/970/2026 publicada em março, que dispõe mais especificamente sobre o Save em edificações residenciais.

O texto esclarece os requisitos técnicos e de segurança, bem como sobre a responsabilização pela instalação:

  • Responsabilidade técnica: a instalação e a garantia do sistema são de responsabilidade exclusiva do profissional habilitado ou da empresa instaladora, com observância das normas técnicas aplicáveis;
  • Proibição de soluções improvisadas: é vedada a utilização de tomadas comuns, adaptadores, extensões ou carregadores não dedicados para recarga veicular;
  • Desligamento de emergência: torna-se obrigatória a instalação de chave de emergência para desligamento manual do sistema, conforme especificações técnicas da Portaria;
  • Integração com sistemas de incêndio: os pontos de recarga devem estar integrados aos sistemas de alarme de incêndio da edificação, assegurando o desligamento automático em situações emergenciais;
  • Sinalização obrigatória: a edificação deve contar com sinalização clara sobre o uso correto do sistema de recarga, a localização dos dispositivos de desligamento manual, os procedimentos de emergência e acionamento do Corpo de Bombeiros e contatos para manutenção e suporte técnico.

Instalação improvisada de carregador de carro elétrico pode causar incêndio

A instalação de um carregador de carro elétrico deve receber atenção e precisa ser feita de forma correta, pois os riscos de um serviço mal feito ou irregular são sérios. Gambiarras podem causar superaquecimento, derretimento de cabos e conectores, curtos-circuitos, danos ao veículo, choques elétricos e até incêndios.

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Grande parte dos incêndios de carros elétricos são causados por falhas ou gambiarras no momento da recarga.

O Corpo de Bombeiros Minas Gerais destaca que o perigo não está somente no carregador colocado de forma incorreta, mas também na sua infraestrutura associada. Isso inclui:

  • Derivações não previstas a partir de medidores individuais;
  • Intervenções não planejadas em eletrodutos;
  • Conexões executadas em espaços restritos;
  • Ausência de quadros de recarga adequadamente dimensionados.

Tudo isso eleva significativamente o risco de falhas elétricas, sobrecarga de condutores, barramentos e prumadas, mau contato, atuação inadequada das proteções e dificuldade de desligamento em emergência.

De acordo com o CBMMG, vários procedimentos de instalações feitos de formas diferentes em uma mesma rede podem ser um problema:

“A multiplicação de soluções individuais e descentralizadas dificulta a fiscalização, a manutenção e o gerenciamento da carga, podendo comprometer a segurança da edificação, aumentar a probabilidade de incêndio e expor usuários, condomínios e responsáveis técnicos a riscos patrimoniais, operacionais e legais.”

Além da estrutura da residência, as chamas podem atingir o veículo elétrico, que, diferente dos modelos a combustão, tem outros fatores de risco. Em especial, as baterias de lítio, que apresentam desafios específicos:

  • Volume de água: é necessário centenas de vezes mais água para extinguir as chamas desse componente.
  • Tempo de combate: o fogo pode perdurar por muito tempo até que todo o componente seja consumido.
  • Alta voltagem: para extinguir o fogo, o sistema precisa ser desligado via fusíveis específicos, exigindo treinamento técnico.
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