Os búfalos que patrulham a Ilha do Marajó agora dividem o serviço com drones
Na ilha com cerca de meio milhão de búfalos, a PM criou uma patrulha montada única no país. Agora, ela começa a dividir o trabalho com a tecnologia
Publicado em 07/11/2026 às 15h00
A Ilha do Marajó, no Pará, impressiona pelo tamanho equivalente ao da Suíça e pela elevada biodiversidade — resultado da localização entre a Amazônia e o oceano Atlântico. Não há diversidade, entretanto, que justifique os cerca de 500 mil búfalos que habitam a região.
Búfalos são animais nativos da Ásia, e a chegada deles ao Marajó tem explicações diferentes, mas que, em geral, concordam que foram trazidos por fazendeiros europeus, animados com os animais de 700 kg que conheceram no Oriente.
Cerca de 200 anos depois, a exploração econômica dos búfalos (a bubalinocultura) é um ganha-pão dos mais importantes para os 600 mil habitantes da região. Deles vêm carne, queijo, couro e até a logística da Polícia Militar.
Desde 1992, os animais são utilizados pela PM paraense como meio de transporte em patrulhamentos e policiamento ostensivo. Foi uma escolha motivada, à época, pelo baixo custo em uma época em que a corporação “tinha apenas uma Kombi”, contou um sargento ao The Wall Street Journal. Era a maneira mais barata de atingir áreas completamente alagadas e pantanosas que, na época de chuva, são boa parte do Marajó.
Transformando um búfalo em viatura

Para que um búfalo se torne apto a exercer seu papel cívico junto aos policiais, é necessário um treinamento que vem desde filhote. Segundo relatos de diferentes tratadores, leva-se até um ano para que um animal seja amansado a ponto de aceitar a montaria. Eles também são apegados: costumam obedecer apenas aos seus tratadores.
Por conta disso, os policiais que lidam com os búfalos são nativos da ilha. Eles destacam que a montaria em cavalos até ajuda na prática, mas há diferenças importantes entre as espécies. No caso dos búfalos, as selas são diferentes e as rédeas vão amarradas diretamente na argola que perfura o septo do bicho.
Dado o porte elevado, o animal costuma se movimentar a cerca de 6 km/h, rodando de 10 km a 20 km por dia em regime de trabalho, indicam dados da Embrapa e da Veterinary World. Isso é mais do que suficiente, entretanto, em lamaçais, onde motos e cavalos nem sequer sairiam do lugar.
Não à toa, os búfalos do Marajó agem principalmente fora das zonas urbanas. Segundo diferentes relatos dos policiais, são úteis principalmente no combate ao abigeato — o furto e roubo de outros animais —, mais comum em zonas rurais isoladas.
A habilidade de nado e transposição é, inclusive, um dos motivos que fizeram com que os criadores marajoaras estimulassem a reprodução da espécie invasora, ao invés de combatê-la.
Cada vez mais turísticos

Apesar do carinho e do folclore envolvendo os animais, a tecnologia vem relegando a patrulha com búfalos a uma prática de preservação cultural, inclusive reconhecida por órgãos do tipo. É o papel de dois deles — Baratinha e Canária —, que recebem os turistas que desembarcam na ilha todas as manhãs.
Parece pouco, mas a dupla representa uma parcela considerável da “frota”: os números divergem, mas, em geral, apontam para cerca de cinco búfalos sob uso da PM atualmente. Metade do que chegou a ser 15 anos atrás. Os outros animais, segundo o The Wall Street Journal, ficam em fazendas mais afastadas, justamente para responder mais rápido a ocorrências na zona rural.
Paralelamente, a PM que tinha apenas uma Kombi em 1990 agora está bem equipada: o Comando de Policiamento Regional XI, que cuida dos búfalos, recebeu três Renault Duster e 20 Toyota Hilux em 2024, com preparo off-road ideal para a região.

A aposentadoria dos búfalos, entretanto, está sendo feita principalmente por drones da moderna Patrulha Rural georreferenciada, que o CPR XI levou ao Marajó no início de 2025. Nesse programa, cada propriedade rural é cadastrada com coordenadas de GPS e passa a ser monitorada por uma central. Em caso de necessidade, o drone é o primeiro veículo a chegar ao local e, de cima, consegue uma visão privilegiada da ocorrência — com foco declarado no roubo de gado e outros búfalos.
“Nossos policiais estavam precisando desse conhecimento específico para poderem dar uma resposta melhor nas missões preventivas e reativas. Com o uso dos drones, vamos ter mais controle das áreas urbana, rural e fluvial”, afirmou o coronel Augusto Guimarães, então comandante do CPR XI, durante o curso que, no ano passado, capacitou os policiais para o uso da nova tecnologia.
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