O Passat TS voando baixo não agradou ao guarda

“A essa velocidade o senhor está pensando o que? Que é piloto? Que está voando baixo em um avião? Nesse caso, eu deveria pedir ao senhor o seu brevê!"

Por Douglas Mendonça31/12/18 às 15h30

Esse causo, ocorrido lá pelos meados dos anos 80, é uma daquelas tretas com o guarda rodoviário em que tudo acaba dando errado. Os protagonistas são o comandante Tavares, muito mais do que um grande amigo – até um integrante da turma do meu amigo jornalista Ricardo Caruso -, e seu Passat TS do fim dos anos 70 e que nosso personagem já tinha, até mesmo, dado uma leve envenenada no motor.

Tavares, mesmo antes de ser comandante de aeronaves na Tam (hoje Latam), já gostava de velocidade. Na época, o Passat TS era um dos esportivos brasileiros mais rápidos. E quando os apaixonados mexiam em seu motor, eles melhoravam ainda mais. Um terror para os donos de outros esportivos e um deleite para quem curtia carros e velocidade.

Tavares, depois de tirar o seu brevê em meados dos anos 70, esforçou-se e trabalhou muito com várias categorias de aeronaves, até ser credenciado como comandante dos Fokker 100, fazendo as linhas nacionais. Um grande orgulho para o amigo que passou a ser chamado, até mesmo dentro do seu grupo de amigos, de comandante Tavares.

Já estávamos no início dos anos 80 e, apesar do título de comandante, Tavares nunca abandonou sua diversão predileta: voar baixo dirigindo automóveis e, ultimamente, pilotando o seu novíssimo Passat TS com motor envenenado. Como comandante, Tavares era irrepreensível e seguia à risca as regras ditadas pela companhia para a qual trabalhava e as regras internacionais de aviação.

VW Passat TS: o carro do comandante
VW Passat TS (Foto Volkswagen | Divulgação)

Apesar de o rigor de sua vida profissional como comandante, Tavares continuava abusado quando o assunto era dirigir carros por ruas e estradas. Quando estava ao volante do seu nervoso Passat TS então… É melhor nem considerarmos. Mas, como todo bom apaixonado por carros, Tavares tinha um ciúme doentio do seu Passat TS: acelerava e sentava a ripa sem dó no TS, mas não admitia um só risco ou castigo para o carro que era tratado a pão de ló. Coisas de quem gosta de carro: “castigo no acelerador, ando em alta velocidade, mas dou do bom e do melhor para o meu carro em termos de combustível, lubrificante e manutenção”.

O causo enfrentado por nosso amigo Tavares começa aqui. Ele estava de folga do comando das aeronaves e resolveu curtir sua folga, dando um pulinho até Santos, cidade distante cerca de 80 km da capital paulista. Na real, Tavares curtia mesmo era a viagem de ida e volta e onde tinha ainda a oportunidade de descer a serra fazendo umas curvas rápidas e exigindo tudo o que seu Passat TS era capaz de proporcionar em termos de satisfação ao dirigir.

Depois da represa Billings, a via Anchieta que leva a Santos, possui uma grande reta:  é o máximo para quem curte velocidade. Mas, claro, os guardas rodoviários estaduais também sabiam do abuso nesse trecho, que era fiscalizado com olho de águia.

Retão da Anchieta na represa Billings
Retão da Anchieta na represa Billings (Foto ALSP | Divulgação)

Tavares sentou a pua nessa longa reta, e seu Passat TS com motor envenenado mostrou do que era capaz: chegou bem perto dos 180 km/h para satisfação do nosso amigo piloto. E, um atento guarda rodoviário também cronometrou a proeza. Logo a frente, o sério guarda o parou e foi logo dizendo: “o senhor sabe a que velocidade vinha trafegando? Se não prestou atenção, vou lhe dizer o senhor estava a quase 180 km/h!”.

Tavares, que não tinha muito do que se defender, ia se apressar a pegar os seus documentos e os do carro para apresentar ao sério guarda. Mas, o guarda dando continuidade a sua repreensão, disse ao nosso amigo comandante: “a essa velocidade o senhor está pensando o que? Que é piloto? Que está voando baixo em um avião? Nesse caso, eu deveria pedir ao senhor não a carteira de motorista e sim o seu brevê de piloto!”

Essa era a deixa que nosso amigo Tavares queria para deixar menos tensa aquela situação com o guarda, que estava cheio de razão. E no bolso de sua camisa, estava lá o seu brevê de piloto. Quando o guarda rodoviário falou do brevê, Tavares imediatamente tirou o seu documento de piloto e deu ao guarda. Mas deu tudo errado: o guarda rodoviário em vez de levar na esportiva, se sentiu ofendido com a brincadeira.

Com um tom de voz ainda mais rígido, multou Tavares por excesso de velocidade e por direção perigosa e não considerou nem um pouco o fato do nosso amigo ser um experiente comandante de aeronaves. Esse é um daqueles casos em que estamos completamente errados, devemos ficar de boca calada e fazer apenas e estritamente o que o guarda nos pede. Não é todo guarda que tolera o momento de descontração no momento da multa.

O Tavares acabou tomando uma multa a mais porque quis descontrair com o guarda. Quando ele nos relatou essa história, acreditem, ele não ficou bravo pelas duas multas que recebeu, mas sim pelo fato do guarda ter colocado o pé no para-choque do seu carro para lavrar as multas. Coisa de quem gosta de carro.

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3 Comentários
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    Rubens Caruso Jr. 3 de janeiro de 2019

    Grande lembrança do Tavares, o qual chamávamos pelo primeiro nome: um exemplo de cara que perseverou e foi atrás do seu sonho!

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    Celio* 3 de janeiro de 2019

    Com fogo não se brinca, por isso o comandante escapou barato.

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    DAVID DINIZ DANTAS 2 de janeiro de 2019

    Bem representativa essa cronica. Ela mostra que o país do jeitinho ainda tem suas ilhas de integridade e ………com a pitada de bom humor na narrativa de Douglas Mendonça. Recordo, Douglas, que o Claudio Carsughi, seu colega jornalista dos tempos da revista Quatro Rodas, adorava o Passat LS ou TS. Dizia que era dos melhores carros ja feitos no Brasil. No que estou de acordo. Faça uma cronica de episodios com o Carsughi pra gente . Abraços

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