84% dos recalls de airbags não foram atendidos no Brasil

Parcela envolve componentes da japonesa Takata, que já causaram 19 mortes e deixaram quase 200 pessoas feridas

Por Bárbara Angelo15/11/17 às 12h06

O diretor do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), Elmer Coelho Vicenzi, revelou que 84% dos recalls de airbags no país não foram atendidos. A maior parcela de campanhas de chamamento do Brasil é referente ao componente e, em sua maior parte, diz respeito aos airbags explosivos da Takata, que já mataram 18 pessoas e deixaram quase 200 feridas. O governo pretende, em parceria com fabricantes, facilitar contato com proprietários de veículos convocados.

Segundo Vicenzi, os airbags foram alvo de 26% dos recalls de veículos entre 2013 e junho de 2016, sendo os componentes mais afetados pelas convocações. A fatia representa mais de 2,2 milhões de veículos. Este número, no entanto, aumentou em 2017 com novos chamados e expansões de processos anteriores.

Porcentagem de recalls de acordo com o componente afetado, entre 2013 e junho de 2016, no Brasil (Boletim de Recall/Denatran/Reprodução)

A porcentagem de recalls de airbags que não foram atendidos significa que aproximadamente dois milhões de motoristas colocam a si mesmos e terceiros em risco toda vez que conduzem seus veículos. Defeitos no componente de segurança reduzem a proteção aos ocupantes. De acordo com a descrição das campanhas das fabricantes, as bolsas podem não inflar em caso de colisão, ter acionamentos irregulares ou, como os airbags da Takata, apresentarem problemas no deflagrador.

Para aumentar o número de consertos aos veículos defeituosos, o governo planeja fazer uma parceria com as montadoras. O acordo envolveria o fornecimento do nome e endereço dos proprietários dos automóveis para que pudessem ser contatados pelas fabricantes. “Vamos fiscalizar o recall para garantir que o uso dessa informação esteja restrito a esse serviço”, esclareceu o diretor do Denatran. Vicenzi não mencionou a data de início da ação.

Maioria dos recalls de airbags é da Takata

Takata logo recalls de airbags
(Reprodução da Internet)

Embora outros defeitos no componente sejam contabilizados nos números do Denatran, a maior parte dos recalls de airbags dizem respeito aos componentes explosivos da Takata. A fabricante japonesa já foi a maior fornecedora do artigo de segurança no mundo, até que, em 2004, seus airbags começaram a apresentar falhas gravísssimas no deflagrador, responsável pela expansão imediata da bolsa de ar que amortece o impacto contra passageiros. 19 pessoas já morreram ao redor do mundo devido à irregularidade.

O defeito foi inicialmente anunciado pelo NHTSA, órgão de segurança no trânsito norte-americano. A instituição estudou a irregularidade e impôs um recall de alcance nacional à Takata em maio de 2013. Inicialmente, 32 milhões de airbags estavam envolvidos. Desde então, o órgão ampliou o chamado e incluiu cerca de 46 milhões de componentes, em 34 milhões de veículos, nos Estados Unidos.

A NHTSA projeta que, até 2019, serão 66,3 milhões de dispositivos na campanha. A instituição acompanha o atendimento aos chamados e fiscaliza com mais afinco determinado grupo de veículos com maiores riscos de apresentarem o problema. Cerca de 45% dos automóveis já foram reparados. Para otimizar o conserto ao grupo de risco, a instituição trabalha em conjunto com fabricantes para notificar proprietários diretamente.

No Brasil, mais de 50 modelos de 13 marcas fazem parte do recall da Takata. A campanha para a substituição dos componentes japoneses tem alcance global e é o maior chamado da história. Por enquanto, nenhuma morte foi reportada em nosso país, mas isso não quer dizer que os motoristas brasileiros estejam seguros.

Uma “bomba-relógio”

Stephanie Erdman durante depoimento na Comissão de Transportes, no Senado dos Estados Unidos, em 2016. A moradora da Flórida se machucou gravemente com a explosão de airbag da Takata quando dirigia um Honda Civic.

As investigações em torno dos airbags defeituosos revelaram que o estouro é causado pelo nitrato de amônio. O componente químico é um explosivo instável que sofre um processo de degradação gradual, acentuado em regiões quentes e úmidas, como grande parte do Brasil. As pesquisas, que foram coordenadas pelo NHTSA, indicaram que os airbags da Takata levam aproximadamente 15 anos para se tornarem perigosos.

Quando alcança um nível avançado de deterioração, o deflagrador dentro das bolsas de ar passa a funcionar como uma granada. Se o airbag for acionado nestas condições, o nitrato de amônio explode, lançando os fragmentos da cápsula de metal contra os ocupantes do veículo. Segundo reportou o New York Times, de acordo com a equipe de resgate que socorreu uma das vítimas, as lesões causadas são semelhantes a facadas.

Além dos 19 mortos, o equipamento defeituoso já deixou mais de 200 feridos ao redor do mundo. No entanto,  os números continuam aumentando. Em 2017, três mortes foram noticiadas. O último caso reportado foi o de uma pessoa na Flórida, no fim de julho, que dirigia um Honda Accord de 2002. A maioria dos casos envolvem modelos da fabricante japonesa.

No Brasil, há a possibilidade de que não tenha havido nenhum incidente por conta da pequena quantidade de veículos equipados com o dispositivo de proteção há 15 anos. A lei da obrigatoriedade do airbag para todos os automóveis só se tornou efetiva em 2010. No entanto, a instalação das bolsas de ar com nitrato de amônio continua sendo feita. Assim, é possível que explosões ocorram no futuro.

A Takata possui fábricas no país desde a década de 1960. Segundo o engenheiro Oliver Schulze, da planta de Jundiaí, a empresa fornecia componentes para “praticamente todas” as fabricantes nacionais em 2016.

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