Pântano, povos indígenas e até a febre aftosa explicam por que ninguém fechou o vão que separa as Américas, e o que fazer para cruzá-lo de carro
Imagine encarar a Copa do Mundo de 2026 sem pisar em um aeroporto. A ideia é tentadora: sair de São Paulo (SP), por exemplo de carro, atravessar a América do Sul, subir pela América Central e cruzar a fronteira dos Estados Unidos a tempo do apito inicial.
Na teoria, dá para fazer quase tudo por terra. Na prática, há um trecho de selva que transforma o plano em um pesadelo logístico.

O caminho natural para um paulistano que busca chegar aos EUA de carro, por exemplo, parte de São Paulo em direção ao oeste, cruza a Bolívia ou o Peru e alcança a costa do Pacífico, onde corre a Rodovia Pan-Americana — a estrada que, no papel, liga o Alasca à Patagônia. Subindo por Equador e Colômbia, o motorista chega a Cartagena pronto para seguir rumo ao Panamá. É aí que a viagem trava. Entre a cidade panamenha de Yaviza e o norte colombiano existe um vão de cerca de 106 km sem qualquer asfalto: o Darién Gap, ou Tampão do Darién, o único corte em quase 30 mil km de Pan-Americana.
Não é falta de vontade. Um acordo de 1937 previa uma rodovia contínua ligando as Américas, e quase todos os trechos saíram do papel, menos esse. Isso porque o terreno é brutal: floresta fechada, rios e o pantanoso delta do rio Atrato, do lado colombiano. Soma-se a isso a resistência ambiental e dos povos indígenas Emberá, Guna e Wounaan, que veem a selva como escudo contra a invasão de suas terras.
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Há ainda um motivo curioso e pouco lembrado: gado. Por décadas, a floresta funcionou como barreira sanitária contra a febre aftosa, que circulava na América do Sul e ameaçava o rebanho do Norte. Nos anos 1970, os Estados Unidos chegaram a reservar US$ 100 milhões para fechar o vão, mas recuaram diante de pressões ambientais e do risco sanitário. Para reforçar a muralha biológica, americanos e panamenhos lançaram de avião, durante anos, milhões de moscas-varejeiras esterilizadas sobre o Darién, criando um cordão de infertilidade no meio do mato.








Cruzar o Darién dirigindo é façanha rara. A primeira travessia veicular reconhecida foi a Expedição Trans-Darién de 1960, que levou cinco meses a bordo de um Land Rover apelidado de La Cucaracha Cariñosa. A mais famosa veio em 1972: a Expedição Britânica Trans-Américas, com dois Range Rover e apoio do Exército britânico, gastou 96 dias só para vencer o trecho de selva, avançando em alguns dias pouco mais de 4 km. Para passar pelo charco do Atrato, a equipe recorreu a motosserras e dinamite — algo impensável hoje.

Sem estrada, quem quer seguir viagem coloca o veículo em um navio. A rota clássica liga Cartagena, na Colômbia, ao porto de Colón (Manzanillo), no Panamá, numa travessia marítima de cerca de um dia. Há duas opções: o sistema RoRo, em que o carro entra andando no navio, e o contêiner, mais seguro contra furtos. Os preços variam conforme o tamanho do veículo, mas costumam ficar entre US$ 1.000 e US$ 3.000, sem contar despachante e taxas portuárias.
Desembarcado no Panamá, o motorista retoma o asfalto: sobe pela América Central, entra no México e, enfim, cruza para os Estados Unidos. O sonho de chegar à Copa sobre quatro rodas continua de pé, só não dá para vencer o Darién sem a ajuda de um navio.
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