Entidade que representa montadoras tradicionais reage a pleito da chinesa por isenção fiscal em kits de montagem; Camex decide tema na próxima terça (23)
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) cobrou publicamente que o Governo Federal cumpra integralmente o cronograma de recomposição das alíquotas de importação de carros elétricos e híbridos, além de manter o fim das cotas de isenção para kits de montagem de veículos – conhecidos como SKD e CKD. A entidade que congrega as montadoras instaladas no Brasil divulgou uma “Carta Aberta” na tarde desta sexta-feira (19).
A ofensiva da Anfavea ocorre às vésperas de uma reunião da Câmara de Comércio Exterior (Camex), marcada para a próxima terça-feira (23). O colegiado deve decidir se cede à pressão de novas entrantes, como a chinesa BYD, que pleiteia a volta do benefício das cotas tarifárias zeradas — expirado em janeiro deste ano — e o adiamento do retorno da alíquota cheia de importação (de 35%), previsto para julho.
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Segundo reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo, a BYD tenta reaver o direito de trazer componentes da China sem imposto para finalizar a montagem dos veículos em sua fábrica de Camaçari, na Bahia. Para a Anfavea, contudo, mudar as regras do jogo neste momento representaria uma quebra de braço que ameaça a previsibilidade jurídica de investimentos bilionários.
“Manter as medidas tal como foram anunciadas é assegurar a previsibilidade e a estabilidade das regras sobre as quais o setor automotivo decidiu investir no país”, argumentou a Anfavea, lembrando que as regras vigentes foram pactuadas em 2023 e aperfeiçoadas em 2025.

O principal argumento da associação é que o imposto de importação gradual não barrou a concorrência. Ao contrário: somente no primeiro trimestre de 2026, 11 novas marcas estrearam no mercado brasileiro. Os emplacamentos de importados saltaram 214% entre 2023 e 2025.
No entanto, a Anfavea acende um sinal de alerta sobre o comportamento recente do mercado. Estimulados pela iminência da alíquota cheia em julho, os estoques de veículos importados nos pátios atingiram a marca de 150 dias em maio. A entidade acusa concorrentes estrangeiras de promoverem um “abastecimento antecipado” para distorcer as condições de concorrência com os modelos fabricados localmente.
O setor projeta um impacto estrutural severo caso a fabricação por meio de kits importados (conhecida como sistema CKD) se perpetue sem o devido recolhimento de tributos. Um estudo da associação detalha o tamanho do prejuízo potencial para a economia brasileira:
A contrapartida apresentada pela indústria nacional para exigir o fechamento das fronteiras tarifárias é o robusto plano de investimentos anunciado pelas montadoras tradicionais, que soma R$ 140 bilhões até 2033. Os recursos são voltados justamente para eletrificação, descarbonização e desenvolvimento de engenharia local.
Os defensores da produção nacional argumentam que a transição energética já é uma realidade sustentada por fábricas locais. Em 2025, os modelos eletrificados produzidos no Brasil respondiam por 26% das vendas do segmento. Em 2026, a fatia nacional já saltou para 40%.
A Anfavea pondera que os kits importados são úteis em fases iniciais de instalação de novas fábricas, mas que o modelo precisa evoluir rapidamente para a nacionalização de componentes. “Transformar instrumentos transitórios em mecanismos prolongados reduz os incentivos à agregação de valor”, diz o texto da entidade.
Para a reunião da Camex, a posição do setor tradicional é de tolerância zero para concessões. As montadoras exigem o fim definitivo das cotas de alíquota zero, a rejeição de novos “ex-tarifários” e que qualquer mudança regulatória passe por um diálogo prévio com quem já empenhou recursos no país.
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