Carro chinês vende bem, mas como irá envelhecer?
Análise aponta que a participação de chinesas pode chegar a 36% até 2032, mas a permanência no mercado exigirá retenção de valor
Publicado em 12/09/2026 às 17h00
O engenheiro mecânico Milad Kalume Neto trabalhou por quase 23 anos na Jato Dynamics do Brasil, consultoria especializada na coleta e análise de dados sobre emplacamentos, preços e especificações de veículos em mais de 55 países. Ao sair, fundou em 2025 sua própria empresa, a K.LUME Consultoria, em sociedade com Máia Màrtins, voltada para dados e análises estratégicas do setor automobilístico.
Objetiva fornecer informações importantes para fabricantes, concessionárias, comerciantes, locadoras e outros segmentos que gravitam em torno da indústria.
No seu mais recente artigo levantou questões pertinentes, também já abordadas por esta coluna, sobre o crescimento muito rápido de 16 marcas chinesas no Brasil (contudo podem subir para 18 ou 19, segundo outras fontes), incluídas as submarcas que exploram quase todas as fatias do mercado brasileiro.
Só as picapes compactas, a exemplo de Strada, Saveiro e Montana, ainda não enfrentam concorrência direta. Kalume lembrou, com razão, que o carro chinês vendeu bem, mas agora precisa envelhecer bem.
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Advertiu sobre a guerra de preços na China, pelo excesso de capacidade instalada. Isso levou o governo central, nada democrático, a ordenar a exportação a qualquer custo e, além disso, a uma pressão relevante sobre as marcas aqui já instaladas.

Três cenários
Kalume aponta três cenários de 2026 a 2032. No primeiro, claramente em curso, as chinesas ganham participação aqui de forma acelerada. No segundo, enquanto algumas marcas se consolidam, outras permanecem marginais ou desistem do Brasil. No terceiro, pode haver retração de determinadas operações.
No cenário central, na visão da K. LUME, “a participação das marcas de DNA chinês poderia alcançar entre 33% e 36% do mercado brasileiro em 2032, ou aproximadamente um em cada três veículos vendidos. A principal questão, portanto, não será quantas marcas chinesas ainda chegarão, mas quantas conseguirão permanecer, crescer e transformar vendas em confiança de longo prazo”.
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Vou dar uma de “Márcia Sensitiva” e fazer uma profecia: vão se consolidar e ficar no Brasil apenas aquelas que oferecem, além de preço atraente, durabilidade razoável, boa assistência pós-venda, fartura de peças originais e paralelas, e mercado de revenda sólido. Esses itens são importantes porque no Brasil carros não são considerados bens descartáveis como na China. São patrimônio, que até desvaloriza com o tempo, mas ainda assim um patrimônio da família.
Portanto saiu disso com relação a carros, o fabricante não sobrevive a médio e longo prazo. Tem vários exemplos de tentativas no passado, que começaram com boas vendas com a mesma receita de sempre: efeito novidade + preço atraente + pacote de equipamentos recheado. Na época, algumas novatas deram certo e conquistaram algum espaço e outras estão derrapando até hoje, ou deram totalmente errado e desapareceram.
A única diferença que vejo nesse episódio atual com carros chineses é que o efeito novidade está mais intenso por causa da eletrificação embutida, que trás algumas vantagens num país com combustível caro e/ou ruim. Mas logo adiante o ‘hype’ da novidade vai ter passado, o lado negativo da eletrificação (tem alguns) vai ficar mais aparente, e os preços agressivos vão se alinhar ao mercado. É nesse momento que o joio vai se separar do trigo.
Ficam algumas. A maioria vai sumir. Aliás, assim como vão desaparecer na China também.
