Na moda dos automóveis, ‘saia e blusa’ volta a ser tendência

Estilo, que consiste em pintar a capota de cor diferente do restante da carroceria, pode tanto reduzir quanto aumentar a temperatura no interior do carro

Por Alexandre Carneiro 14/08/19 às 08h30

O que saia e blusa têm a ver com os carros? Muita coisa: essa combinação do mundo da moda é clássica também na indústria automotiva, em especial nos modelos dos anos 60. Trata-se de combinar duas cores distintas em uma mesma carroceria. O teto vem pintado em uma tonalidade, e o restante da carroceria, em outra. E, assim como outras tendências estilísticas do passado, a onda saia e blusa também voltou.

Entre os veículos nacionais, o estilo saia e blusa foi ressuscitado pelo Jeep Renegade e pelo Nissan Kicks. O primeiro foi lançado em 2015 e o segundo chegou em 2016, como importado, sendo nacionalizado no ano seguinte. Na sequência, veio o Renault Captur, em 2017,  que deu até um nome “gourmet” ao tradicional tipo de pintura: “Biton”.

A julgar pela quantidade de veículos que entrou nessa onde nos últimos tempos, o consumidor parece estar gostando do modelito. Até mesmo alguns produtos populares já oferecem a pintura saia e blusa, ao menos em uma versão. É o caso, por exemplo, do “esportivado” Chevrolet Onix Effect e do aventureiro Fiat Argo Trekking.

ford f 100 pintura saia e blusa resize

A onda de tetos de cores diferentes do restante da carroceria remete aos automóveis de 40 anos atrás. Quem nunca viu uma Kombi “corujinha”, daquelas antigas, com para-brisa bipartido, ostentando uma reluzente pintura alvirrubra? Ou um DKW Belcar azul-calcinha com capota branca? Ou ainda uma picape Ford F-100 ou Chevrolet 3.100 tingida com uma elegante combinação de verde-escuro com creme?

Saia e blusa para andar com conforto? Ou com estilo?

Notou que, em todos os veículos antigos citados, a cor do teto é quase sempre mais clara que o restante da carroceria? Com os modelos atuais, costuma ocorrer o oposto: a capota é geralmente pintada de preto. Por que?

No caso dos carros antigos, o look saia e blusa estava relacionada ao bem-estar. Ricardo Vetorazzi, gerente técnico do Laboratório de Repintura Automotiva da fabricante de tintas PPG no Brasil, esclarece que, em relação a um veículo preto, o interior de um similar com carroceria pintada de branco pode atingir temperaturas de 5 a 10 graus mais baixas sob o sol.

“A cor preta possui a característica de absorver todos os comprimentos de onda e não refletir nenhuma delas. Consequentemente, causa aumento da temperatura em comparação a cores mais claras”, assegura Vetorazzi. Como, décadas atrás, ar-condicionado era coisa de altíssimo luxo, a capota branca servia justamente para deixar as pessoas fresquinhas a bordo. Perfeita moda Estilo-Função!

Atualmente, por outro lado, o aparelho de climatização é um acessório básico: vem de série até nos automóveis mais populares. “A maioria dos carros no mercado hoje possui ar-condicionado, o que diminui essa necessidade do teto claro”, pondera Caíque Ferreira, engenheiro mecânico e diretor de comunicação da Renault do Brasil.

Graças a esse equipamento, o habitáculo pode permanecer com temperatura agradável mesmo que a cor externa do veículo esteja mais para moda inverno. E haja ar-condicionado para dar conforto dentro de trajes saia e blusa tão quentes!

Traje bicolor agora serve para expressar a individualidade, e não para amenizar o calor

Então, se não há mais tanta preocupação com a cor externa em função do conforto térmico, por que os estilistas da indústria automotiva resgataram o conjuntinho saia e blusa do fundo do baú?

O objetivo, explica Ferreira, é permitir que os consumidores tenham várias opções de cores para customizarem o carro. Ele afirma que, por isso, existem múltiplas combinações de tonalidades disponíveis no mercado. “A pintura Biton permite ao proprietário personalizá-la de acordo com seu gosto e sua preferência, tornando o veículo mais individualizado”, pontua.

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Renault CAPTUR 2017. Foto: Rodolfo Buhrer / La Imagem / Renault


Isabella Vianna, gerente de Design de Cores & Materiais da Fiat-Chrysler Automobiles (FCA), também destaca a exclusividade resultante das combinações de tonalidades. Segundo ela, “não existe uma regra para as cores de teto. Vemos nas ruas atualmente carros com teto bege, preto ou cinza por exemplo.” Nos modelos atuais, portanto, a moda é bastante descolada: vale tudo!

Entretanto, Vianna admite que a maioria dos novos veículos saia e blusa que desfila pelas vias públicas exibe capota negra. Para ela, isso corre simplesmente porque tal cor agrada a uma maior quantidade de consumidores. Além do mais, o pretinho básico combina com tudo: cai bem com praticamente todos os tons de carroceria.

É certo, porém, que toda essa individualidade tem, literalmente, um preço. Afinal, para ter um veículo com carroceria saia e blusa, o comprador precisa pagar mais caro. No caso do Captur, a pintura Biton representa um valor adicional de R$ 3.100. O diretor de comunicação da Renault do Brasil credita essa diferença à maior complexidade de manufatura. “O procedimento traz custos extras, pois o carro passa duas vezes pela área de pintura”, justifica.

Combinação valoriza o corpinho

Seja como for, mesmo onerando o veículo ou levando ao uso intensivo do ar-condicionado, a tendência bicolor ressurgiu forte. Pode até não ser mais funcional como antigamente, mas o fato é que voltou à moda.

Tanto que os estilistas das montadoras a levam em consideração desde a fase de projeto para elaborar o figurino da lataria. “Os novos modelos estão sendo criados já pensando nessa oportunidade. Por isso, as linhas externas se encaixam perfeitamente com a composição de duas cores entre teto e carroceria”, diz Vianna.

Ainda de acordo com a gerente de design da FCA, isso ocorre porque a utilização de duas cores destaca as linhas da carroceria e valoriza as formas dos veículos. Eis o motivo de, tanto nos carros antigos quanto nos novos, o estilo saia e blusa ser très chic!

Fotos: Divulgação

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6 Comentários
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    Marcos A P Santini 18 de agosto de 2019

    Tambem as primeiras D-20 tinham essa opção. Lembro de metade superior preta e embaixo azul, verde ou vermelho. Mas a campeã era bege com marrom.

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    Luiz Claudio Stefani 17 de agosto de 2019

    Mais famosos Fuscas, na época nem eram chamados de Fusca, chamavam de Volks , saia e blusa, tivemos também os Opalaa, os Escorts conversíveis preto/Prata

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    Celso Vianna 17 de agosto de 2019

    Assim com no vestuário, a moda vai e vem. Essa tendência de “saia e blusa” muito em moda na década de 1950 até meados dos anos 60 demorou a retornar. Lembro-me de dois carros do meu pai: um Chevrolet 1953 bege com capota azul é uma rural Willys verde e branca.
    Acho legal esse retorno, área mais elegantes, alegres e fuga da mesmice do prata e preto.

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    Antonio Chelotti 15 de agosto de 2019

    O serviço de plotagem, se bem feito, fica bom e é bem mais barato. Fica a dica.

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    ARY ROCHA FILHO 14 de agosto de 2019

    MAU GOSTO NÃO SE DISCUTE MAS A MAIORIA DAS COMBINACOES DE CORES COM TETO PRETO NÃO EXPILCA PORQUE NUM PAÍS TROPICAL DE CLIMA QUENTE TANTOS BRASILEIROS PAGAM VALORES ABUSIVOS PELO BITON.AGORA,SERÁ QUE TODOS TÊM GRANA PRA PAGAR OS CUSTOS COM COMBUSTÍVEL GASTO À MAIS PRA MANTER SEUS CARROS FECHADOS COM AR CONDICIONADO LIGADO???????

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    Edson Santos 14 de agosto de 2019

    Sugestões ref:autos com “Saia e Blusa “Lembra -se do Monza e do Diplomata com essa pintura. Abraço Edson Santos

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