Chevrolet Tigra: o esportivo engraçadinho que virou mico

Chevrolet Tigra foi a aposta da GM para oferecer um modelo aspiracional, mas sofria com a disponibilidade de peças, baixo desempenho e espaço limitado

CHEVROLET TIGRA FRENTE LATERAL PERFIL 1998
Fabricado na Espanha, o Tigra era vendido no Velho Mundo com marca Opel, que ainda pertencia à GM (Fotos: GM | Divulgação)
Por Douglas Mendonça
Publicado em 17/06/2026 às 09h00

O ano era 1998, às vésperas da virada do século. O mercado brasileiro carecia de carros diferentes, daqueles modelos de nicho que permitiam ao proprietário se destacar em meio à multidão de automóveis parecidos. Foi nesse contexto que a General Motors decidiu trazer de Sevilha, na Espanha, o Chevrolet Tigra, um pequeno cupê esportivo que compartilhava a mesma mecânica do Corsa GSi.

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Sob o capô estava um valente motor 1.6 de quatro cilindros, duplo comando de válvulas e 16 válvulas, capaz de desenvolver 100 cv de potência. Era um número modesto para um conjunto tecnicamente avançado, mas suficiente para proporcionar um comportamento dinâmico interessante. O Tigra freava bem e contornava curvas com agilidade graças ao seu baixo centro de gravidade.

Mas, se o carrinho era tão bom assim, por que deixou de ser importado em menos de um ano?

CHEVROLET TIGRA 1998 FRENTE TRASEIRA MOVIMENTO INTERIOR PERFIL
Com mesmo motor do Corsa GSi, o Tigra deixava a desejar na aceleração de 0 a 100 km/h

A resposta está justamente na sua curta passagem pelo mercado brasileiro. Em 1999, o Tigra vendeu muito pouco e rapidamente ganhou fama de mico. Ao todo, cerca de 2.600 unidades foram comercializadas pela ampla rede de concessionárias Chevrolet.

O principal problema era que o carro entregava menos do que seu visual prometia. O interior acomodava com relativo conforto apenas motorista e passageiro. O banco traseiro, se é que podia ser chamado assim, servia muito mal até mesmo para duas crianças.

Tigra custava como Vectra e acelerava como Corsa

O desempenho também não ajudava. Apesar de atingir aproximadamente 190 km/h graças à boa aerodinâmica e à reduzida área frontal, o Tigra precisava de pouco mais de 10 segundos para acelerar de 0 a 100 km/h. Não era exatamente o que se esperava de um carro com aparência esportiva.

Além disso, o modelo era caro para o que oferecia. Custava cerca de US$ 21 mil. Como a cotação da moeda americana girava em torno de R$ 1,15 por dólar, o preço final ultrapassava os R$ 24 mil em 1998. Era muito dinheiro para um automóvel pequeno e praticamente destinado a apenas duas pessoas.

OPEL TIGRA 1998 FRENTE TRASEIRA MOVIMENTO INTERIOR
Preço também não ajudava e sua importação se tornou proibitiva com a desvalorização do real em janeiro de 1999

Para efeito de comparação, esse valor permitia comprar um Chevrolet Vectra GLS completo, equipado com motor 2.0, espaço para quatro passageiros com conforto, porta-malas generoso e desempenho superior ao do próprio Tigra.

Na prática, só comprava um Tigra quem realmente era apaixonado pelo carro. Sob o ponto de vista racional, a escolha fazia pouco sentido.

Outro problema era o custo de manutenção. Embora utilizasse a plataforma do Corsa, um modelo popular e relativamente barato, diversas peças do Tigra eram importadas. Componentes de freios, direção e acabamento tinham preços elevados e nem sempre eram encontrados com facilidade.

O motor 1.6 16V também não era dos mais amigáveis para os mecânicos. A troca da correia dentada e o sincronismo dos dois comandos de válvulas exigiam mão de obra especializada, aumentando o custo dos serviços.

Com o passar do tempo, as notícias negativas começaram a se espalhar. A rejeição ao modelo cresceu e isso provocou outro problema: a forte desvalorização no mercado de usados.

CHEVROLET TIGRA 1998 INTERIOR PAINEL
Por dentro, a primeira fileira era do Corsa, inclusive com o mesmo layout do painel

Pouca gente queria assumir os custos e as dificuldades associadas ao pequeno cupê. Como era produzido na Espanha, todas as peças de carroceria precisavam ser importadas da Europa. Consequentemente, os reparos após colisões eram caros, levando as seguradoras a cobrarem valores elevados pelas apólices. Era um problema atrás do outro.

Flutução cambial matou o Tigra

Mas o golpe definitivo veio em 1999. No início daquele ano, o governo brasileiro adotou o regime de câmbio flutuante. Em poucos meses, a cotação do dólar saltou de aproximadamente R$ 1,20 para cerca de R$ 1,80.

Se o Tigra já era caro antes, tornou-se praticamente inviável depois da disparada da moeda americana. Diante desse cenário, a General Motors anunciou, em fevereiro de 1999, o encerramento das importações do modelo para o Brasil.

Os cerca de 2.600 compradores ficaram com um verdadeiro mico nas mãos. O valor de mercado despencou rapidamente e os custos de manutenção continuaram subindo. Peças mecânicas e, principalmente, componentes de funilaria tornaram-se cada vez mais caros e difíceis de encontrar.

Na prática, o Chevrolet Tigra permaneceu menos de um ano no mercado brasileiro, um período extremamente curto para um automóvel que dependia de importação e assistência especializada.

Hoje, a história é bem diferente. O modelo tornou-se raro e os poucos exemplares preservados estão, em sua maioria, nas mãos de colecionadores e entusiastas. Um carro que nasceu para ser exclusivo, fracassou comercialmente e acabou se transformando em uma curiosa peça da história da indústria automobilística brasileira.

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