Fabricantes reagem contra ilegalidade do novo teor de etanol na gasolina

Sem novos testes técnicos, medida do governo viola a legislação e gera forte resistência da indústria por riscos mecânicos e prejuízo econômico

motos paradas em trânsito aplicativo passageiros
Motos serão os veículos mais prejudicados com a nova mistura (Foto: Shutterstock)
Por Boris Feldman
Publicado em 06/05/2026 às 19h10

As entidades ligadas à mobilidade e produção de automóveis e motocletas decidiram bater de frente contra um absurdo: a pretensão já confirmada do governo de elevar a mistura de etanol na gasolina de 30% para 32% sem a realização de testes prévios.

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O presidente Lula chegou a afirmar que os testes já foram realizados. Mentira. O que ocorreu foi que os testes para o patamar de 30% utilizaram o percentual de 32% apenas como margem de tolerância. É básico: se o objetivo agora é fixar o padrão em 32%, os novos testes de validação precisam, obrigatoriamente, ser feitos com 34% de etanol para garantir a mesma segurança técnica.

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A resistência é ampla. A Anfavea (associação das montadoras), o setor de autopeças e a Abeifa (associação dos importadores) já se manifestaram formalmente contra esse aumento. Enquanto isso, chama a atenção o silêncio da CNT (Confederação Nacional dos Transportes), que deveria estar defendendo quem paga a conta na bomba.

No entanto, a manifestação mais contundente e objetiva veio da Abraciclo, entidade que representa os fabricantes de motocicletas, que contesta a ideia de empurrar esse novo teor “goela abaixo”.

Abraciclo bate de frente com o governo

A Abraciclo é clara: o aumento para 30% de etanol na gasolina já trouxe falhas graves. No caso das motos, os problemas são muito mais acentuados do que nos automóveis. Entre os principais defeitos relatados estão:

  • Dificuldade de partida em manhãs frias;
  • Falhas em retomadas de aceleração, o que compromete diretamente a segurança do motociclista em situações de ultrapassagem ou corredor.

O prejuízo para a indústria e o comércio exterior

Além do risco físico, há o risco econômico. Como fica o comércio internacional? O Brasil exporta para a Europa e vice-versa, mas lá o etanol varia entre 5% e 10%. Se nossas motos não forem compatíveis com o padrão global, a indústria nacional terá que investir fortunas para desenvolver modelos “especiais” apenas para atender a gasolina europeia. Isso eleva custos, encarece o produto final e inviabiliza as exportações – prejudicando a competitividade.

Há também uma questão de responsabilidade jurídica. Se uma moto apresenta defeito causado pelo excesso de álcool no combustível, para o qual ela não foi projetada, a fábrica acaba sendo responsabilizada injustamente por um problema provocado pelo combustível.

É uma questão de lei

É importante reforçar: a Abraciclo não é contra o biocombustível. Pelo contrário, existe um apoio rigoroso ao etanol. O que não se aceita é a ausência de testes de durabilidade, dirigibilidade e compatibilidade de componentes.

Aumentar o teor sem esses ensaios não é apenas uma imprudência técnica, é uma ilegalidade. A Lei do Combustível do Futuro é cristalina: o aumento do teor de etanol na gasolina (ou do biodiesel no diesel) só pode ocorrer mediante ensaios que comprovem a viabilidade técnica. Sem teste, não tem aumento. É simples assim.

Ao invés de aumentar o teor de etanol anidro na gasolina, o governo federal deveria incentivar – por meio de algum tipo de subsídio, além de campanhas – o uso do etanol hidratado como combustível, já que 80% da frota brasileira é flex, mas apenas 30% destes carros são abastecidos com o biocombustível.

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