Mercedes se renova e implanta o Indústria 4.0

Por Roberto Nasser30/03/18 às 13h30

Maior fabricante de caminhões no Brasil – e consequentemente escrituradora dos maiores prejuízos durante a crise econômica –, Mercedes apostou no futuro, aplicou R$ 770 milhões para um salto de qualidade, implantando os processos “Indústria 4.0” em São Bernardo do Campo, SP, e na fábrica de cabines em Juiz de Fora, MG.

Indústria 4.0 é novo patamar de evolução, marcado pelo diálogo entre máquinas. Reduzindo intervenção de mão de obra, empregando carrinhos comandados eletronicamente para levar peças à linha de montagem. Sem papéis, todas as operações coordenadas por computadores, tablets e celulares, sistema envolvendo vendas, caminhão ao ser montado é individualizado, atendendo especificações do comprador.

Processo envolve parte física, com implantação de linhas elétricas subterrâneas para fazer os carrinhos receber, transportar e entregar as peças nas mãos dos operários, mudança de equipamentos visando menor esforço físico e ganho de tempo, treinamento de fornecedores e colaboradores. Na prática, o ganho de produtividade inicial é de 15% em tempo e espaço, aspecto crítico para a Mercedes, nascida numa fazenda e hoje cercada de casas, vilas e bairros vedando sua expansão.

A hiperconectividade – também chamada com intimidade de “Dataparafuso” por monitorar todas as partes e sua aplicação – eleva padrão de qualidade, pois ao acompanhar cada operação durante a construção, eventuais falhas são corrigidas na hora e local, e o ganho da qualidade dispensa a inspeção e os testes ao final da linha de produção. Outro item, reduz estoques a 48 horas, liberando espaços industriais.

Primeiro passo, o Indústria 4.0 será estendido aos outros setores da fábrica – a Mercedes não é montadora, mas fábrica verdadeira, produzindo os órgãos vitais de seus caminhões, motores, câmbios, eixos, chassis. Como o sistema sabe quais os passos para agregar os órgãos mecânicos, equipamentos e acessórios para atender à encomenda dos clientes, a linha de montagem pode receber todos os modelos de caminhões, reduzindo a área necessária à produção. O sistema é uma revolução industrial e sua implantação pela Mercedes motivará todas as outras marcas e montadoras à atualização.

Indústria 4.0 chegou ao Brasil pela Mercedes
Indústria 4.0 chegou ao Brasil pela Mercedes (Foto Mercedes-Benz | Divulgação)

Honda importa novo CR-V

Dos importados de maior sucesso, o Honda CR-V volta ao país, trazido dos EUA, quinta geração do bem sucedido SUV – tem tração nas quatro rodas engatável automaticamente sob demanda –, e mecânica liderada pelo motor de quatro cilindros em linha (L4), 1,5 litro, 16 válvulas, 190 cv, poderosos 24,5 kgfm de torque; dianteiro, transversal, câmbio CVT por polias variáveis, sete velocidades.

Nem parece utilizar a plataforma do Civic, ao oferecer enorme espaço aos passageiros. Mantém uma das características marcantes de seus veículos utilitários, a grande capacidade interna de combinar arranjos e criar espaços para levar objetos compridos. É veículo eminentemente familiar, apesar de não ser lento. Conectividade incrementada.

Honda Brasil maneja doce problema: sua capacidade produtiva está plena, e empresa espera crescimento do mercado para justificar a operação da fábrica inaugurada e fechada em Itirapina, SP. Enquanto não puder dar salto de vendas, utilizará de expedientes como fazer importações para manter atratividade aos salões dos revendedores, como o faz com os importados Accord e, agora, o CR-V. Carro completo, sem opções, R$ 179,9 mil, o mais caro da marca.

Honda CR-V: 5ª geração (Foto Honda | Divulgação)

FCA informa: sai Ketter, entra Filosa

Fiat Chrysler Automóveis (FCA) indicou troca de comando para as operações na América Latina. Sai Stefan Ketter, engenheiro, brasileiro, apesar do nome, e assume Antonio Filosa, engenheiro, 44, italiano.

O engenheiro Ketter ganhou rótulo no Brasil: antipático competente. Fez ótimo serviço na FCA: implantou a marca Jeep; construiu fábrica em meio a canavial pernambucano; geriu o desenvolvimento dos três veículos nela produzidos, os Jeeps Renegade e Compass, e o Fiat Toro, os dois últimos líderes de venda em seu segmento.

Acima disso, não divulgado, mudou o conceito de qualidade produtiva dos Fiat. Seus novos produtos, Argo e Cronos, estão mais para produtos alemães. Tanta competência não fez amigos – ao contrário: anúncio de sua saída, motivou muitos drinques na noite de sexta, churrascos no sábado.

Ketter mudou toda a diretoria, resumiu quadros, aumentou a carga de serviços sobre os remanescentes, incrementou as avaliações tecnológicas em detrimento das humanas; meteu-se até nos programas de lançamento de produtos, e ofereceu aos concorrentes uma conclusão prática ao inovar à apresentação do Mobi: digital media influencers, gente escrevendo em blogs sem ser jornalista ou especializado em automóveis, em detrimento da imprensa especializada. Retorno pífio desta mídia.

Nada a ver

Engenheiro pelo Instituto Politécnico de Milão e Gestor pela mineira Fundação Dom Cabral, Antonio Filosa é napolitano, com larga e ascendente carreira na marca: foi o gestor da fábrica Fiat em Betim, MG, recordista mundial ao produzir 3.300 carros/dia sob o mesmo teto; e pinçado a frequentar logística, compras, fornecedores, marketing, gestão de produtos, presidente da Fiat Argentina.

Dele espera-se olhar ameno: para a fábrica de Betim, desprezada na gestão Ketter; para as relações com os colaboradores, também descompromissadas; com a imprensa especializada, vista pelo antecessor como elefantes a caminho do desaparecimento.

Tem característica positiva ao meio: gosta de dirigir, e de automóveis novos e antigos. Para lembrar, a Fiat apenas se descolou do fim da fila do mercado quando teve mandatário apreciador de produto. Gostar de automóveis conduzindo fábrica de automóveis é fator fundamental ao êxito.

Volks faz 65 anos de Brasil

Situação invulgar, crescimento sustentado, recuperando o segundo lugar em vendas, querendo voltar à liderança, Volkswagen comemorou 65 anos no Brasil.

Não considerou como data base o início da montagem dos produtos da marca pela representante Brasmotor, mas de sua presença direta com pequena operação artesanal de montar sedans e Kombis em primária linha à rua do Manifesto, bairro do Ipiranga, SP. Após, construção da fábrica em São Bernardo do Campo, SP; Taubaté, SP; fábrica de motores em São Carlos, todos em São Paulo, e beiradas de Curitiba, PR.

Comemora muitas histórias e a fabricação de 23 milhões de unidades – representadas pelo mais novo de seus produtos, o Virtus. Curiosamente não apresentou série especial para marcar a data.

Roda-a-Roda

Ex-careta – Medo de extinguir-se pelo engessamento de suas propostas e envelhecimento de sua clientela, luxuosa norte-americana Cadillac se reinventou com veículos, competições, engenharia.

Poderosa – Última novidade, motor V8, 4,0 litros, dois turbos e aproximados 550 cv de potência. Tudo novo, bloco em alumínio, diâmetro x curso 86 mm x 90,2 mm, seis mancais fixos, 9,8:1 de compressão, exigência de gasolina superior. Emprega os dutos de escapamento correndo pelo berço do V, solução antiga, assim como os turbos, solução Mercedes.

Motor Cadillac: V8, 4 litros, dois turbos, 550 cv (Foto Cadillac | Divulgação)

Independência – Coisas da GM, é motor exclusivo para a divisão. Chevrolet continuará com V8 de geração anterior. Engenho equipará o cupê CT6 V-Sport, e ante a poderosa cavalaria, Cadillac adotou o axioma de Pirelli: Potência não é nada sem controle, aplicando tração nas quatro rodas para dirigibilidade.

Mais uma – Fábrica da Volvo em Ghent, Bélgica, iniciou produzir automóveis Lynk&Co, nova marca de volume da Zhejlang Geely. As três empresas pertencem à holding chinesa proprietária da Volvo. Ideia é criar nova marca com cara europeia – e não chinesa.

Fila anda – Com ou sem as regras do Rota 2030, o nunca terminado projeto do governo federal regrando as indústrias automobilística e autopartista, e o contraponto de redução de tributos relativamente ao ganho em tecnologia, BMW resolveu colocar o BMW X3 em montagem em sua fábrica em Araquari, SC.

Investimento – Quer presença no segmento de maior crescimento. A linha X representa 60% da montagem catarinense. Duas versões: motor L4, 2 litros, turbo, e 252cv; seis cilindos em linha (L6), 3,0 litros, 360 cv. A partir de R$ 310 mil.

Tiguan – Muito bom, porém mal explorado pela VW, o Tiguan reaparece no mercado em versão nova e opções de duas distâncias entre eixos, para cinco e sete passageiros; motores 1.4 e 2.0, turbo com injeção direta de combustível. Câmbio automático de seis velocidades, tração em duas e quatro rodas. Preços não ajustados, mas aposte entre R$ 110 mil e R$ 140 mil. Vem do México.

VW Tiguan (Foto Volkswagen | Divulgação)

Sinal – No projeto da marca em ter cinco SUVs no mercado sul-americano, exibiu o conceito do Projeto Tarek, também chamado Tharu. Em fugaz apresentação na China foi apresentado como Concept Powerful SUV. Motor L4, 1,4 litro, TSI,

Mais – Será produzido na Argentina em 2020, sobre a jeitosa plataforma MQB em versão maior ante as utilizadas no Brasil para Polo e Virtus, base para o T-Cross, próximo produto da VW no Brasil.

Toro 2019 – Líder no segmento, picape Fiat Toro antecipou linha com carimbo do próximo ano. Agregou versões equipamentos como o desembaçador do vidro traseiro em todas, implementou acessórios.

O que  Das novidades, Endurance 1,8 litro, flex, transmissão automática de seis velocidades, e Volcano 2.4, flex, caixa automática de nove velocidades. Preços entre R$ 91 mil, para a Endurance 1.8 Flex AT6, e R$ 143 mil a Volcano diesel, automática, 4×4.

De volta – Effa, antes encomendadora de veículos montados na China, assumiu feição industrial: monta em Manaus (AM) quatro modelos de picapes, cabines simples e dupla, motores 1.0, 53 cv, e 1.3, 78 cv, transportando, entre carga e passageiros, 940 kg. Preços entre R$ 40 mil e R$ 57 mil. Não indicou qual o fornecedor das peças e conjuntos.

Ecologia – Fábrica Jeep em Pernambuco é a primeira “Aterro Zero”. Na prática, material sobrante da produção é reciclado, sem danos ao meio ambiente. Agrupa resíduos próprios e do parque de fornecedores em seu entorno.

Pesquisa – Atividade da empresa aproveita os retalhos das chapas estampadas para gerar peças menores, e transforma isopor em canetas e capas para CDs. Segredo da gestão do lixo é evitar produzi-lo. No período reciclou 1.500 toneladas de papelão – 300 mil árvores deixaram de ser cortadas.

Cultura – Cinco anos após fechar o Walter P Chrysler Museum em Auburn Hills, perto de Detroit, Chrysler resolveu transformar o prédio onde construía o agora descontinuado Viper em local para 85 exemplares de sua coleção de 400 veículos históricos. Será espaço de convivência e bem estar.

O futuro chegou. De novo

Registro histórico: 1953 a Mercedes inicia implantar-se no Brasil (Foto Mercedes-Benz | Divulgação)

Em 1953 a Mercedes acatou a sugestão de um representante tornado sócia numa operação brasileira, e decidiu por instalar-se industrialmente no país. Adquiriu uma fazendinha em São Bernardo do Campo, local de agropecuária e cerâmicas onde, nas vizinhanças, haviam duas esforçadas iniciativas privadas, operando há alguns anos. Uma, pioneira no local, a Brasmotor montava produtos Chrysler e Volkswagen. Outra, a Varam Motores, iniciou montar Nash – marca dos EUA -, depois Fiat.

Decisão importante, sem saber avalizaria os planos de implantação da indústria automobilística no Brasil, a iniciar-se ainda naquele 1953, e com projeto tocado pelo governo JK a partir de 1956. O fato de a Mercedes, marca internacionalmente sólida, história imbricada com a do automóvel, diferia das outras operações, de origem norte-americana, mas em marcha lenta.

Quando o Brasil montou Road Shows internacionais para expor ideias, facilidades, e atrair as marcas ao Brasil, a Mercedes era uma das grandes, sólidas, e havia chegado ao país nas beiradas do novo ciclo, ao contrário das outras – exceto a incógnita e confusa Willys-Overland, que viria a liderar o mercado e desaparecer em uma década. A Mercedes-Benz foi a grande referencia para o projeto brasileiro de mobilidade.

A implantação do sistema Indústria 4.0, de hiperconectividade, uso intensivo de dados, arquivos em nuvem, responsável por ganhos de produtividade, evolução profissional da mão de obra, racionalidade, exibe, novamente, o pioneirismo e o aval da Mercedes ao futuro.

Implantando o sistema exigirá ser seguida pelos fornecedores e concorrentes. Em indústria automobilística brasileira, a Mercedes serviu de avalista para implantação, e motivadora à ida ao futuro. Onde já chegou.

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