O Corcel II furioso cuspidor de laranjas

"Aos motoristas e seus carros agredidos com as cusparadas de laranja que tomaram na estrada, as desculpas sinceras do nosso amigo Hélio"

Por Douglas Mendonça 04/06/18 às 16h56

Esses fatos ocorreram em meados dos anos 80, mais precisamente em 1985. Um casal muito querido e amigo, Hélio e Nágila, foram os principais protagonistas desse causo. Casados há pouco mais de 1 ano, Hélio e Nágila estavam felizes por terem adquirido um Ford Corcel II LDO 1978 em bom estado de conservação para um carro com 7 anos de uso.

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Na época, Hélio precisou vender uma Brasília 1980 que tinha comprado zero-quilômetro para que o casal tivesse dinheiro para dar entrada em um apartamento, que desfrutariam como marido e mulher.

O Corcel II LDO, sigla que identificava o topo de linha da gama Corcel, era uma retomada dos carros que Hélio sempre teve desde solteiro, mas que foi interrompido pela venda da Brasília para a nobre compra do apartamento.

Hélio, feliz por retomar a sua gama de carros, logo com um topo de linha, achava-se na época em uma excelente fase de sua vida. O Ford Corcel II da cor Bege tinha cá e lá uns defeitinhos e alguns componentes desgastados pelos 7 anos de uso com o proprietário anterior.

Ford Corcel II 1.6

Para quem se lembra, esse topo de linha já era equipado com o motor 1.6 que não tinha muito tempo de lançamento pela Ford. Um carro bem bacana!

Em um domingo bonito de sol, ele resolveu, junto com a esposa, a mãe e uma irmã, passar o dia no sítio de uma prima na cidade de Campo Limpo Paulista, a cerca de 60 km da capital paulista.

Depois de um dia agradável, todos sabemos o que faz alguém que mora em uma cidade grande e vai passar o dia em um sítio: quer levar para casa todas a frutas que conseguir colher e, assim, haja porta-malas. O Corcel II, por seu próprio projeto, tinha um porta-malas bem generoso. Mas não o suficiente para o apetite voraz do nosso amigo Hélio.

Corcel II não teve espaço para tanta fruta

No fundo do porta-malas, foi abóbora, moranga, melancia, mamão e por aí vai. A metade de trás do porta-malas poderia ser completada com laranjas. E assim foi feito. O peso de todas essas frutas e de mais as 4 pessoas do interior não era pouco.

Quem se lembra do Corcel II, vai se lembrar também que, pelo conforto de suas suspensões, quando era submetido a muito peso na traseira, ele arriava e a frente ia aos ares. O carro parecia um avião tentando levantar voo.

Mas o importante é que a carga preciosa de frutas serviria à casa do então jovem casal, suas famílias e amigos. Todos iriam se deliciar com aquelas frutas recém-colhidas. Uma festa!

frutas

A noite começava a cair, e o nosso amigo Hélio partiu do sítio rumo a sua casa em São Paulo. Uma viagem curta, que não deveria durar mais que 50 minutos. Depois de trafegar por algumas estradas vicinais, nosso amigo Hélio estava na Rodovia Anhanguera, uma importante estrada paulista de pista dupla, que liga a capital ao interior do Estado.

Nesse ponto da viagem, começaram a acontecer coisas estranhas. Todo motorista que trafegava atrás piscava os faróis, e os condutores gesticulavam com uma expressão no rosto de que não eram bons amigos.

O Corcel II, raspando a bunda no chão e a frente lá no alto, saía para a direita e dava passagem aos nervosos motoristas, que ao passarem ao seu lado gesticulavam e parecia que xingavam. Hélio não entendia nada.

Num dado momento, a noite já se fazia presente e Hélio, observando pelo retrovisor, viu na luz dos faróis do carro que vinha atrás algumas bolas que voavam e batiam nesse carro. E tome luz alta e buzinaço.

Hélio saía pela direita e por ele passava outro motorista buzinando e gesticulando. E ele continua pensando: “o que são aquelas bolas que batem nas grades e no para-brisa dos carros que trafegam atrás de mim?”

O que eram aquelas bolas voando nos outros carros?

Ele, então, parou no acostamento da Via Anhanguera e, com muito cuidado, dirigiu-se até a parte traseira do carro para tentar descobrir algo. Imaginem: a frente do carro alta, a traseira baixa, aquele mundaréu de laranjas apoiadas no painel traseiro e o nosso amigo baixado verificando o que estava acontecendo, lembrando que já se fazia noite.

Quando Hélio abaixou-se para olhar a parte debaixo do carro, caiu em sua cabeça uma laranja. O mistério começava a ser desfeito.

Acontece que a lanterna traseira direita, que estava quebrada por um pequeno acidente de manobra, criou uma ligação entre o interior do porta-malas e a parte de fora do veiculo.

Como a frente do carro estava alta, e a traseira, bem baixa pelo peso as frutas no fundo do porta-malas, “abóbora, moranga, melancia e mamão” vieram escorregando e comprimindo as laranjas no painel traseiro do porta-malas que, por um acaso, possuía um buraco da lanterna quebrada.

E assim, tome laranja saindo por aquele furo da lanterna quebrada.

Quando Hélio abriu a tampa do porta-malas, descobriu que pouco restava daquele mundaréu de laranjas colhidas: a maior parte foi cuspida pela pressão das frutas pesadas. E tome laranjada em quem vinha atrás!

Só Deus sabe quantos carros foram agredidos a laranjadas pelo furioso Corcel II que, sabe-se lá, não estaria nervoso e revoltado pelo excesso de peso que lhe colocaram no lombo.

Para o nosso amigo, restou a frustração de ter perdido toda a colheita de laranja que serviria a parentes e amigos. O pouco que sobrou, ele conseguiu preservar improvisando um tapa-furo para a lanterna.

Aos motoristas e seus carros agredidos com as cusparadas de laranja que tomaram na estrada, as desculpas sinceras do nosso amigo Hélio. Acreditem, foi tudo involuntário.

E ao nosso amigo, ele descobriu que a capacidade de um porta-malas não é simplesmente tudo o que cabe nele, mas o peso recomendado pelo fabricante que consta no manual do proprietário de cada carro. Valeu a lição!

Foto Ford | Divulgação

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14 Comentários
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    Silvana 5 de junho de 2018

    Sensacional. Hélio e Nagila, casal muito querido. Agradeço por fazer parte do meu grupo de amigos.

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    Luiz Valério 5 de junho de 2018

    Nossa Hélio, que história hilária!!! Não conhecia esta fico imaginando a cena dos outros carros tentando desviar das laranjas pelo caminho! Que fase, hein! Kkkkkk

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    Gui 4 de junho de 2018

    Adorei o texto. Bons tempos da juventude dos meus tios. Saudades!

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    Nágila Pina 4 de junho de 2018

    Belo texto amigo Douglas, vc é Ótimo.
    Lisonjeados por publicar nossa história..
    Sucesso sempre…
    Obrigada pelo presente…

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    Hélio Silva 4 de junho de 2018

    Aquela viagem para o Rio de Janeiro foi uma aventura…rsrs

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    Nágila 4 de junho de 2018

    Belo texto amigo Douglas, vc é Ótimo…
    Lisonjeados por publicar nossa história.
    Sucesso sempre…
    Obrigada pelo presente…

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    Helio Silva 4 de junho de 2018

    Grande amigo e jornalista Douglas Mendonça…
    Essa história nos remete a uma das melhores fases de nossas vidas.

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    Helio Silva 4 de junho de 2018

    Perfeito e verdadeiro texto. Me fez lembrar daqueles tempos.
    Grande abraço Douglas.

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    Helio Silva 4 de junho de 2018

    Muito bom recordar essa aventura.
    Abraço Douglas

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    João Augusto de Abreu 4 de junho de 2018

    Compadrito Hélio, lembro muito bem deste corcel que aventura derrisou o pomar do parente,mais a ferrugem já havia feito o serviço foi laranja pra tudo quanto é lado tua orelha deve estar vermelha até hoje abç

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    Matusa 4 de junho de 2018

    Grande tio Hélio e seus carros aventureiros.
    Bons tempos aqueles mesmo com nossos veículos semi novos e as vezes com furos no porta malas…
    Histórias para nossos filhos e netos….
    Grande abraço

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    Angelita Porto 4 de junho de 2018

    Hahahahahahaha…. Sensacional…mas tbm entendo o corcel II… Deveria estar furioso mesmo. Bjs querido Douglas. Helio e Nágila

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    Míriam Bueno da Cunha 4 de junho de 2018

    Rsrsrsrs,nosso amigo Hélio,aprontando !rindo muito kkkkk

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    Viviane Cleide Demétrio 4 de junho de 2018

    Grande piloto e grande jornalista, sempre iluminando. Abração.

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