O prefeito piloto e ladrão, que rouba mascarado e armado

Onde é que estava, então, aquele ladrão ruim que tira o dinheiro das pessoas apontando uma arma e mascarado, para que ninguém o reconheça?

Por Douglas Mendonça08/10/18 às 20h50

Esse “causo”, verídico, aconteceu no segundo semestre de 1994. Eu, Douglas Mendonça, era editor técnico da revista Motor Show; em 2007, assumi a Direção de Redação dessa conceituada publicação automotiva. Já se vão 24 anos desses fatos, mas eles ainda são muito vivos em minha memória. O prefeito da cidade de São Paulo naquela época era Paulo Salim Maluf, que havia assumido o cargo em janeiro de 1993. Homem público muito conhecido no cenário político brasileiro, Paulo Maluf já havia até mesmo sido governador do Estado de São Paulo e chegou a candidatar-se a presidência da república no final da era militarista.

Pois bem, Paulo Maluf, além de político proeminente era, assim como boa parte da população brasileira, apaixonado por carros. E, principalmente, os esportivos de alta performance. Tanto que, na época, possuía um pequeno acervo deles: um Porche Kremer, um Jaguar Lister Le Mans e um Mitsubishi 3000 GT VR4. Como prefeito, tinha a sua disposição o autódromo de Interlagos.

Sabíamos que, pelo menos uma vez por semana, Paulo Maluf utilizava uma manhã ou uma tarde para se deliciar no autódromo com os seus supercarros. E olha que o prefeito entendia da arte de pilotar automóveis. Quando tivemos a oportunidade de andar no autódromo sob sua pilotagem, ficamos admirados com sua destreza e conhecimento do traçado da pista. Ele dirigia como um piloto profissional.

Graças a esses seus predicados de conhecer carros e dominar a arte de pilotar, nós, da Motor Show, o convidamos para avaliar os principais esportivos nacionais da época em um teste inédito no autódromo de Interlagos. Claro que ele topou de imediato. Separamos os esportivos nacionais que estavam em alta na época e pedimos ao prefeito Paulo Maluf que os avaliasse segundo alguns critérios determinados pela revista. Levamos para a pista Gol Gti, Tempra Turbo, Uno Turbo, Kadett GSi , Vectra GSi 2.0 16v e Escort XR3. Marcamos a tal avaliação em um domingo pela manhã, quando o politico estaria livre dos seus compromissos politico e administrativos.

O prefeito piloto e ladrão, que rouba mascarado e armado, dirigiu um Fiat Tempra Turbo, entre outros esportivos, em Interlagos

Foi aí que começaram os meus problemas. Meus dois filhos, o João Ricardo, com sete anos incompletos, e o André Luís, com cinco anos, ouviam direto pela TV ou pelo rádio críticas ao prefeito, chamando-o de ladrão pelo desvio de verbas públicas. E, em casa, ouviam comentários meus e da mãe deles quando víamos essas notícias, de que o prefeito deveria mesmo ser ladrão, pois a imprensa sempre o acusava disso. Era Maluf ladrão para cá e Maluf ladrão para lá.

Como é que eu, como pai e jornalista profissional, poderia levar meus filhos para um lugar em que eles estariam perto de uma pessoa proeminente que poderia, a qualquer momento, ser chamada de ladrão pelas crianças? A preocupação era grande. Tive uma longa conversa com os dois no sábado que antecedeu o evento com o prefeito Paulo Maluf.

Disse a eles: “Não considerem o que vocês escutam e o que o papai e a mamãe falam sobre o Maluf. Ele só vai poder ser chamado de ladrão quando a Justiça assim provar. Por isso, não digam a ele que nem o papai e nem a mamãe o chamam de ladrão em casa. Ele pode até ser ladrão, mas enquanto não for provado, não podemos dizer nada”. As crianças não entenderam bem o que eu disse, mas sabiam que na presença dele, não poderiam dizer que nós o considerávamos ladrão. Uma tremenda saia justa!

No domingo, fomos eu com as duas crianças e a mãe delas para o autódromo de Interlagos para desenvolver meu trabalho jornalístico. A responsabilidade da execução da reportagem estava comigo e com o meu parceiro Eduardo Pincigher, na época, o outro editor. Chegamos ao autódromo, todos os seis carros limpos e alinhados, fotógrafos a postos, aguardávamos apenas a chegada do prefeito e de seu filho que o acompanhava.

Assim como eu levei meus filhos e a mãe deles, outros profissionais que estavam trabalhando aproveitaram o domingo e levaram os seus familiares. O Eduardo Pincigher, por exemplo, levou seu pai, Sr. Edson Pincigher, sempre solícito e querendo colaborar com tudo e todos, e que, infelizmente, nos deixou recentemente.

Eu, confesso, estava tenso com algum comentário fora de hora que um dos meus filhos pudessem fazer ao prefeito. E, adivinhem? O prefeito Paulo Maluf, logo que chegou, simpatizou com as crianças. Depois de cumprimentar os presentes de maneira simpática, como cabe a um bom político, Paulo Maluf pegou os dois no colo e pediu a mãe deles se ele poderia levá-los a dar uma volta completa no autódromo no Porsche do “titio” Maluf. Ainda frisou: “Não se preocupe, minha senhora, sou responsável e darei essa volta bem devagar para que as crianças aproveitem o passeio”.

Não é preciso dizer que eu entrei em pânico. Só Deus sabe o que aqueles dois iriam dizer ao prefeito Maluf, sobre o pai e a mãe. Já imaginei Paulo Maluf voltando irado , dizendo que o teste estava encerrado mesmo antes de começar porque as crianças haviam contado que eu e a mãe deles o chamávamos de ladrão! Mas não. Os dois ficaram de boca calada e não disseram nada ao titio Maluf.

O teste foi iniciado e fui aos meus afazeres de jornalista. O pai do Eduardo foi, então, distrair os meninos. Não demorou muito tempo e o Seu Edson veio a mim com o André no colo às gargalhadas. Me contou que o André Luís, no esplendor dos seus 5 anos de idade (hoje com 28 anos), disse a ele de maneira bem séria: “Meu pai sempre fala em casa que o Maluf é ladrão, mas fiquei prestando atenção nele e não consegui ver nem o revólver e nem a máscara que ele usa para roubar. Onde será que ele guarda a arma e a máscara?”

Quanta inocência! Para o André Luís, ladrão que era ladrão tinha que ter arma e máscara, e acho que foi assim que ele idealizou o prefeito. Se decepcionou ao encontrar um homem simpático, gentil que o levou para passear de Porsche em Interlagos e, cada vez que terminava a avaliação de um dos carros para a revista, pegava o no colo e passeava com ele pelos boxes. Onde é que estava, então, aquele ladrão ruim que tira o dinheiro das pessoas apontando uma arma e mascarado, para que ninguém o reconheça? Esse, ele não viu. E para o Seu Edson, confidenciou que, por mais que procurasse, não pode ver onde ele escondia seu equipamento de ladrão. Bons tempos em que ladrões eram só esses armados e mascarados.

Foto Fiat | Divulgação

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6 Comentários

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  • Celio* 10 de outubro de 2018

    Ainda bem que o Maluf foi simpático com as crianças, caso contrário, algo muito ruim iria acontecer, hehe…

  • Gustavo 10 de outubro de 2018

    Ótimo texto…

  • Carlos Spindula 10 de outubro de 2018

    Muito divertida essa estória Douglas, carros e familia, tudo de bom ! Um forte abraço !

  • Celina archina 9 de outubro de 2018

    Como sempre seus causos interessantes e divertidos……parabéns… Legal

  • DAVID DINIZ DANTAS 8 de outubro de 2018

    Esse texto é divertidíssimo, e mostra – alem das qualidades de cronista insuperaveis do Douglas Mendonça – as varias faces do Maluf. Que – nada obstante as acusações que contra ele foram feitas e que culminaram com sua prisao – possui um lado humano, bem humorado, bonachão que nao podemos esquecer, para sermos justos. Douglas, como sempre, nos brinda com essa delicia de leitura. Abraços

  • Antonio Carlos Machado 8 de outubro de 2018

    O texto consegue nos transportar para aquele domingo especial e divertido que ficou no passado. Parabéns Douglas .

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